Espetáculo “KAIALA” celebra 10 anos com apresentações gratuitas

O espetáculo “KAIALA”, solo do ator, dramaturgo e diretor Sulivã Bispo, inicia uma circulação por terreiros de candomblé da Bahia em comemoração aos 10 anos de trajetória. A temporada começa em 14 de agosto, às 20h, na Casa de Oxumaré, em Salvador, e segue até setembro com apresentações gratuitas em comunidades religiosas da capital, Região Metropolitana e Recôncavo Baiano.

A circulação marca o retorno da montagem aos espaços que estão relacionados à pesquisa e às referências que deram origem à dramaturgia. O projeto aborda intolerância religiosa, racismo religioso, ancestralidade, violência e resistência dos povos de terreiro, estabelecendo diálogo direto com as comunidades de candomblé.

Nesta temporada, o espetáculo incorpora a multiartista mirim Pietra Gomes, integrante da Banda Didá, e o percussionista Neto Marcos, graduando em Música pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). A nova formação amplia a composição musical e cênica da montagem, que mantém Sulivã Bispo como intérprete.

Programação de “KAIALA” nos terreiros da Bahia

A agenda começa em 14 de agosto, na Casa de Oxumaré, em Salvador. No dia 22 de agosto, às 19h, a apresentação será realizada no Kalebokun. Em 30 de agosto, às 16h, o espetáculo chega ao Ajagunã, também na capital baiana.

Em 4 de setembro, a montagem será apresentada no Terreiro Ilê Axé Ojú Onirê, em Santo Amaro. No dia 5 de setembro, às 16h, a programação segue no TUNTUN, em Salvador. Já em 12 de setembro, haverá abertura às 17h e espetáculo às 18h no São Jorge Filhos da Gomeia.

As apresentações são gratuitas e abertas às comunidades, segundo as informações divulgadas pela produção. A proposta é levar o espetáculo aos territórios de referência para sua criação e aproximar a obra das comunidades que integram o universo cultural abordado pela montagem.

Espetáculo aborda intolerância religiosa e ancestralidade

“KAIALA” apresenta a história de uma menina de 10 anos, iniciada no candomblé de tradição angola, assassinada durante a invasão de seu terreiro por um grupo motivado por intolerância religiosa. A partir da narrativa, a montagem desenvolve uma reflexão sobre violência, racismo religioso, memória e resistência.

Sulivã Bispo interpreta três personagens: um irmão de santo da menina, sua avó e ialorixá, e a mulher evangélica que lidera a invasão ao terreiro. A dramaturgia utiliza fragmentos de memória e depoimentos para apresentar diferentes perspectivas sobre o episódio e elementos relacionados à tradição de matriz africana.

A personagem Kaiala, associada às águas na tradição bantu, representa na obra aspectos relacionados à proteção, cuidado e força materna. A dramaturgia também utiliza referências familiares do artista e elementos de sua pesquisa realizada em terreiros de candomblé, especialmente no Terreiro do Mokambo.

Montagem completa dez anos de trajetória

Criado em 2016, durante a formação de Sulivã Bispo na Escola de Teatro da UFBA, “KAIALA” surgiu a partir de uma pesquisa sobre a presença de artistas negros nas programações culturais durante o período da Consciência Negra. Desde a estreia, a montagem passou por festivais, mostras e espaços culturais.

Para o diretor Thiago Romero, a circulação pelos terreiros representa uma retomada da relação da obra com a ancestralidade e com os territórios que contribuíram para sua construção. A equipe criativa da temporada reúne profissionais que participaram da trajetória inicial do espetáculo.

A direção é assinada por Thiago Romero, com coreografia de Nildinha Fonseca, figurinos de Tina Melo, adereços do Ateliê Sogbô e iluminação de Alison de Sá. A temporada comemorativa também marca a reunião da equipe original e a incorporação de novos artistas ao elenco.

Retorno aos espaços de origem da pesquisa

Segundo Sulivã Bispo, a realização das apresentações nos terreiros atende a um desejo existente desde o início da trajetória da montagem. A primeira apresentação do espetáculo ocorreu no Espaço Cultural da Barroquinha, em Salvador, e posteriormente a obra passou por diferentes palcos, incluindo o Teatro Castro Alves.

A pesquisa que fundamentou a dramaturgia foi desenvolvida em contato com comunidades de candomblé, incluindo o Terreiro do Mokambo, e também incorporou referências da história familiar do artista e da tradição angola. A produção afirma que esses elementos são tratados a partir de uma perspectiva de respeito às comunidades e às práticas religiosas.

A preservação dos terreiros e de seus saberes também integra políticas de patrimônio cultural na Bahia. O Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) registra, por exemplo, terreiros como patrimônio cultural imaterial do Estado, incluindo espaços de Cachoeira, São Félix e Salvador.

“KAIALA” e o teatro como instrumento de memória

Ao completar uma década, “KAIALA” retoma sua relação com os terreiros e utiliza a circulação para discutir memória, cultura afro-brasileira, liberdade religiosa e enfrentamento ao racismo religioso. A presença de artistas de diferentes gerações também passa a integrar a proposta desta temporada.

Para Sulivã Bispo, o projeto representa a continuidade de uma pesquisa iniciada há dez anos e desenvolvida em diálogo com comunidades de terreiro. A circulação amplia esse contato ao deslocar as apresentações dos espaços convencionais de teatro para os territórios diretamente relacionados ao universo da obra.

A programação de agosto e setembro, portanto, combina a celebração dos 10 anos do espetáculo com apresentações gratuitas em terreiros da Bahia, reforçando a relação entre produção teatral, memória cultural e comunidades de matriz africana.


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