A peça Kaiala, primeiro solo do ator Sulivã Bispo, retorna aos palcos de Salvador, trazendo à tona discussões sobre o racismo, a intolerância religiosa e os impactos do genocídio negro no Brasil. A obra será apresentada na terça-feira (19/11/2024), véspera do Dia Nacional da Consciência Negra, em uma sessão única na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, e integra a programação do Novembro Negro, promovida pela Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi). O espetáculo narra a história de uma menina de 10 anos assassinada durante uma invasão ao seu terreiro, perpetrada por um grupo de evangélicos.
A trama é contada a partir de três perspectivas: o irmão de santo da menina, a avó que também é ialorixá, e a evangélica responsável pela invasão e pelo assassinato. Esses diferentes pontos de vista proporcionam ao público uma compreensão mais ampla sobre a religião de matriz africana, o crime cometido e a resistência do povo negro. A peça também aborda as questões de intolerância religiosa, preconceito e a luta contra a marginalização das religiões de matriz africana, em um país onde a violência religiosa contra os praticantes do candomblé e outras religiões afro-brasileiras ainda é uma realidade cotidiana.
Kaiala foi criada por Sulivã Bispo durante sua passagem pela Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 2016, como uma resposta à ausência de representações de protagonismo negro no mês da Consciência Negra. O ator conta que, inicialmente, a peça não foi pensada para grandes repercussões, mas recebeu uma resposta positiva do público, especialmente daqueles que praticam o candomblé, o que incentivou a continuidade do projeto. “Fiz sem esperar grandes repercussões. Era novembro negro e nada na escola falava sobre o tema. Daí, pessoas de candomblé assistiram, gostaram do resultado e me incentivaram a continuar”, afirma Sulivã.
A divindade Kaiala, personagem central da obra, é um inquice do candomblé angola, uma representação simbólica usada para tratar de temas como intolerância, resistência e o genocídio da população negra. De acordo com a tradição bantu, Kaiala é uma figura maternal associada às águas e à proteção. Para Sulivã Bispo, Kaiala é um alerta contra as injustiças que não podem mais ser toleradas, além de representar a força de uma divindade que defende a luta contra a intolerância religiosa. “Kaiala é a grande força maternal, que cuida das cabeças e vem passar essa mensagem”, explica o ator.
A peça será apresentada na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, no dia 19 de novembro, às 20h. O espetáculo contará com participação especial da cantora Sued Nunes e direção de Thiago Romero. Os ingressos serão vendidos online, por meio do Sympla, a preços populares. Em 2023, Kaiala foi apresentado no Festival da Primavera de Salvador e, em 2020, ganhou uma versão virtual gravada no Terreiro Bate Folha, como parte do projeto Ngunzo Kaiala, que foi selecionado no Prêmio das Artes Jorge Portugal 2020, no âmbito do Programa Aldir Blanc Bahia. Em 2021, a obra foi encenada no palco principal do Teatro Castro Alves e no Teatro SESC Pelourinho.
O impacto da peça foi reconhecido em 2016, quando Sulivã Bispo foi indicado ao Prêmio Braskem de Teatro na categoria “Melhor Ator”. A apresentação de Kaiala no Teatro Castro Alves conta com o apoio do Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial.


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