O Salvador sediou, na sexta-feira (24/04/2026), o encontro Arquivos Comunitários, Território e Disputas pela Memória, que reuniu representantes de iniciativas autônomas, pesquisadores, estudantes e gestores públicos. O evento teve como foco o debate sobre preservação de acervos, acesso à memória e fortalecimento de narrativas produzidas nos territórios.
A programação foi estruturada com mesa temática pela manhã e fórum aberto à tarde, promovendo a interação entre diferentes setores, incluindo academia, movimentos sociais e instituições públicas. O encontro buscou consolidar um espaço de articulação em torno do reconhecimento dos arquivos comunitários como instrumentos de memória e identidade social.
A iniciativa destacou desafios relacionados à sustentabilidade dessas ações, ao acesso aos acervos e ao reconhecimento institucional, além da necessidade de ampliar redes de համագործeração entre projetos semelhantes.
Integração entre academia, movimentos e iniciativas autônomas
O evento reuniu experiências provenientes de favelas, universidades e arquivos independentes, incluindo iniciativas voltadas à memória negra. Entre os participantes, o pesquisador Elson Rabelo destacou a importância da articulação entre diferentes campos.
Segundo ele, o encontro contribui para fortalecer agendas comuns voltadas à preservação da memória e à transformação social, reunindo instituições que atuam em diferentes regiões do país.
A proposta também evidenciou o papel dos arquivos comunitários como instrumentos de autonomia, com capacidade de produzir e preservar narrativas próprias fora dos registros oficiais tradicionais.
Formação e acesso à memória como eixo do debate
A dimensão formativa do encontro foi destacada por participantes como a pesquisadora Natália Alcântara, que ressaltou a importância de iniciativas como o Zumví Arquivo Afro Fotográfico para o estudo da ancestralidade e da memória negra.
O debate também abordou a necessidade de aproximar a produção acadêmica dos acervos populares, especialmente aqueles ligados à história de mulheres negras e comunidades periféricas.
Os participantes apontaram que ainda existem barreiras institucionais no reconhecimento desses acervos, incluindo limitações em editais e critérios formais de validação.
Território e protagonismo nas narrativas
Representantes de iniciativas territoriais enfatizaram a importância do reconhecimento das periferias como espaços de produção de memória. A integrante do Arquivo da Laje, Vilma Santos, destacou o papel das comunidades na preservação de suas próprias histórias.
Segundo relatos apresentados, a circulação da memória dentro dos territórios é um elemento central para ampliar o acesso e fortalecer a identidade local.
O encontro também reforçou a necessidade de participação comunitária nos processos de construção e difusão dos acervos.
Rede de arquivos e políticas públicas de memória
A criação de redes colaborativas entre arquivos comunitários foi apontada como um dos principais encaminhamentos do encontro. Para Jean Camoleze, a articulação pode contribuir para qualificar estruturas, ampliar trocas de experiências e fortalecer políticas públicas voltadas ao setor.
A iniciativa contou com apoio de programas voltados à memória, incluindo ações do Programa Pró-Memórias, que atua no incentivo a práticas de preservação e educação patrimonial.
O encontro também reforçou a necessidade de integrar essas iniciativas às políticas públicas culturais, garantindo maior visibilidade e sustentabilidade.
Zumví e a preservação da memória negra
No centro das discussões esteve o Zumví Arquivo Afro Fotográfico, criado em 1990 por Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro.
O acervo reúne registros da vida da população negra na Bahia, incluindo movimentos sociais, manifestações culturais e cotidiano urbano. A iniciativa consolidou-se como referência na produção de memória visual negra no país.
Atualmente, parte desse material está em exibição no IMS Paulista, com mostra que reúne cerca de 400 fotografias e documentos.
Memória como instrumento de identidade e futuro
O encontro evidenciou que os arquivos comunitários desempenham papel central na disputa de narrativas e na construção de pertencimento social. A preservação de acervos foi apontada como ferramenta para garantir visibilidade a histórias frequentemente ausentes dos registros institucionais.
As discussões indicaram que a memória vai além da conservação documental, envolvendo processos de reconhecimento, identidade e participação social.
A continuidade de eventos e políticas voltadas ao tema foi apontada como fundamental para consolidar avanços no campo da preservação e acesso à memória no Brasil.


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