A Bahia concentrou 1.414.252 atendimentos ambulatoriais relacionados à doença falciforme em 2025, segundo dados do Ministério da Saúde. No mesmo período, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 10.187.443 atendimentos em todo o Brasil. Até junho de 2026, o país contabilizou 6.232.796 atendimentos, dos quais 962.603 ocorreram no estado. Os números correspondem a atendimentos realizados, e não ao total de pessoas diagnosticadas, já que um mesmo paciente pode receber assistência várias vezes.
A doença falciforme é uma condição genética hereditária que altera a hemoglobina, proteína presente nos glóbulos vermelhos responsável pelo transporte de oxigênio. A alteração leva à produção da hemoglobina S (HbS), que pode fazer com que as hemácias assumam formato semelhante ao de uma foice. Essas células têm menor flexibilidade e podem obstruir pequenos vasos sanguíneos, comprometendo a circulação e a oxigenação dos tecidos.
O tema ganha destaque no Dia Nacional de Luta pelos Direitos das Pessoas com Doenças Falciformes, celebrado em 27 de outubro. A data chama a atenção para a necessidade de ampliar o diagnóstico, assegurar o acesso ao tratamento e garantir acompanhamento adequado às pessoas que vivem com a condição.
Como a doença afeta o organismo
A hematologista Fernanda Queiroz, do Sabin Diagnóstico e Saúde, explica que as hemácias alteradas são mais frágeis e se rompem precocemente. Enquanto uma hemácia normal vive aproximadamente 120 dias, a célula falcizada pode sobreviver de 10 a 20 dias. Essa redução contribui para a anemia, uma das manifestações da doença.
A obstrução dos pequenos vasos sanguíneos pode provocar crises de dor intensa e, ao longo do tempo, comprometer diferentes órgãos, entre eles rins, pulmões, cérebro, olhos e ossos. A gravidade e a frequência das complicações variam de acordo com cada paciente e exigem avaliação clínica individualizada.
Segundo a especialista, a maior frequência da doença na Bahia está relacionada, entre outros fatores, à composição histórica da população do estado e à ancestralidade africana, em razão da distribuição do gene da hemoglobina S. A condição, no entanto, pode ocorrer em pessoas de diferentes origens, e o diagnóstico depende de exames específicos.
Primeiros sintomas podem surgir na infância
Os sinais da doença costumam aparecer durante o primeiro ano de vida, quando diminui a concentração da hemoglobina fetal, que protege parcialmente o organismo nos primeiros meses. Entre as manifestações precoces estão crises de dor, maior suscetibilidade a infecções graves e episódios de sequestro esplênico, situação em que uma quantidade significativa de sangue fica retida no baço.
O diagnóstico precoce é importante para iniciar o acompanhamento antes do aparecimento de complicações. A identificação pode ocorrer por meio do teste do pezinho, realizado nos primeiros dias de vida, e ser complementada por exames que identificam os tipos de hemoglobina, como a eletroforese de hemoglobina e a cromatografia líquida de alta eficiência.
Na infância, o cuidado inclui acompanhamento em serviço especializado, vacinação adequada, orientação aos familiares sobre sinais de alerta e, conforme indicação médica, uso preventivo de penicilina. A continuidade da assistência é necessária também na adolescência e na vida adulta, fases em que novas complicações podem surgir.
Complicações exigem atenção ao longo da vida
Na adolescência e na idade adulta, a doença pode provocar dor crônica, úlceras nas pernas, lesões ósseas, alterações na retina e comprometimento dos rins e pulmões. Entre as complicações graves estão o acidente vascular cerebral (AVC) e a síndrome torácica aguda, que pode comprometer a respiração e requer atendimento médico imediato.
A transição do acompanhamento pediátrico para o atendimento adulto é considerada uma etapa importante do cuidado. De acordo com Fernanda Queiroz, a interrupção do acompanhamento pode aumentar o risco de complicações. A continuidade do tratamento e o reconhecimento precoce de alterações clínicas ajudam a reduzir riscos e a orientar a assistência.
Entre os sinais que exigem avaliação médica estão febre, especialmente em crianças; dor intensa que não melhora com as medidas habituais; falta de ar ou dor no peito; palidez acentuada; fraqueza intensa ou desmaio; aumento súbito do volume abdominal; alterações repentinas na fala ou na visão; fraqueza súbita de um lado do corpo; assimetria facial; e ereção prolongada e dolorosa. Diante de sinais graves, é necessário procurar atendimento de urgência.
Tratamentos ajudam a reduzir crises e hospitalizações
Embora a doença falciforme seja crônica e ainda não exista uma cura amplamente disponível para todos os pacientes, há tratamentos capazes de reduzir sintomas e prevenir determinadas complicações. A hidroxiureia é uma das principais opções terapêuticas: ela aumenta a produção de hemoglobina fetal e pode diminuir a frequência das crises de dor, da síndrome torácica aguda e das hospitalizações, além de reduzir a necessidade de transfusões em alguns pacientes.
As transfusões de sangue também podem ser indicadas em situações específicas, tanto no tratamento de complicações agudas quanto na prevenção de eventos graves. A L-glutamina é outra opção terapêutica para pacientes elegíveis, conforme avaliação e indicação médica.
O plano de tratamento depende das manifestações clínicas, da idade e das necessidades individuais. Por isso, o acompanhamento regular com profissionais de saúde é fundamental para avaliar a resposta às terapias, monitorar possíveis complicações e ajustar as condutas.
Impactos na rotina e na saúde emocional
A doença falciforme pode interferir nos estudos, no trabalho e nas relações sociais. Como as crises de dor podem ocorrer de forma imprevisível e exigir atendimento de urgência ou internação, alguns pacientes enfrentam ausências escolares e profissionais e dificuldades para manter atividades cotidianas.
Complicações como lesões ósseas e alterações cognitivas também podem afetar a memória, a concentração e o desempenho escolar ou profissional. Além disso, consultas frequentes, internações e tratamentos contínuos podem gerar desgaste emocional para pacientes e familiares.
A hematologista ressalta que ansiedade, depressão, isolamento social e redução da qualidade de vida merecem atenção durante o acompanhamento. O cuidado integral deve considerar, além dos sintomas físicos, as necessidades psicológicas, familiares e sociais das pessoas que vivem com a doença.
Grupo Sabin atua em diagnóstico e serviços de saúde
Fundado em Brasília, em 1984, por Janete Vaz e Sandra Soares Costa, o Grupo Sabin atua em diferentes áreas da saúde, incluindo análises clínicas, diagnóstico por imagem, anatomia patológica, genômica, imunização e check-up executivo.
Segundo as informações institucionais divulgadas pela empresa, o grupo reúne 7.500 colaboradores e mantém presença em 14 estados e no Distrito Federal, com unidades distribuídas por 78 cidades. Seu ecossistema também inclui serviços de atenção primária e soluções digitais voltadas à integração de serviços de saúde.
No contexto da doença falciforme, o diagnóstico laboratorial é uma etapa importante para identificar a condição e orientar o acompanhamento clínico. A assistência continuada, o acesso aos tratamentos indicados e a informação sobre os sinais de alerta são medidas centrais para reduzir complicações e apoiar a qualidade de vida dos pacientes.


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