A doença falciforme, condição genética e hereditária que afeta a produção da hemoglobina responsável pelo transporte de oxigênio no sangue, permanece como um importante desafio para a saúde pública brasileira. Neste contexto, o Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença Falciforme, lembrado na sexta-feira (19/06/2026), reforça a necessidade de ampliar o acesso ao diagnóstico, ao tratamento e à informação sobre a enfermidade.
Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre janeiro e abril de 2026, foram registrados 3.389.865 atendimentos ambulatoriais pelo Sistema Único de Saúde (SUS) relacionados à doença falciforme em todo o Brasil. Desse total, 537.023 ocorreram na Bahia, estado que figura entre os de maior incidência da condição no país.
Os números refletem uma demanda contínua por assistência especializada. Em 2025, foram contabilizados 10.089.577 atendimentos ambulatoriais no Brasil, sendo 1.408.332 realizados na Bahia, evidenciando o impacto da doença na rede pública de saúde.
Bahia apresenta uma das maiores incidências da doença no Brasil
Segundo a hematologista Fernanda Queiroz, do Sabin Diagnóstico e Saúde, a elevada ocorrência da doença falciforme na Bahia está associada à formação histórica e genética da população brasileira.
A especialista explica que a mutação responsável pela produção da hemoglobina S (HbS) teve origem em regiões da África e foi introduzida no Brasil durante o período colonial. Como a Bahia possui uma das maiores populações afrodescendentes do país, observa-se maior frequência do gene associado à doença na população local.
Apesar dessa predominância estatística, a médica ressalta que a doença falciforme pode atingir pessoas de qualquer raça ou etnia, embora seja mais frequente em indivíduos com ancestralidade africana.
Alteração genética compromete a circulação sanguínea
A doença falciforme provoca alterações estruturais nas hemácias, células responsáveis pelo transporte de oxigênio para os tecidos do organismo.
Enquanto as hemácias normais, que contêm hemoglobina A (HbA), possuem formato flexível e conseguem atravessar facilmente os pequenos vasos sanguíneos, as células que contêm hemoglobina S tendem a assumir formato semelhante ao de uma foice.
Essa deformação faz com que as hemácias se tornem mais rígidas e menos deformáveis, favorecendo sua destruição precoce e aumentando o risco de obstrução da circulação sanguínea em vasos de pequeno calibre.
Como consequência, os pacientes podem desenvolver anemia hemolítica crônica e episódios de vaso-oclusão, que comprometem o fluxo sanguíneo e reduzem a oxigenação dos tecidos.
Crises dolorosas e complicações podem afetar diferentes órgãos
As manifestações da doença costumam surgir ainda na infância e incluem sintomas como cansaço, palidez, icterícia, inchaço das mãos e dos pés e episódios recorrentes de dor.
Segundo a especialista, as chamadas crises vaso-oclusivas representam uma das manifestações mais frequentes da enfermidade, especialmente em ossos e articulações, em decorrência da redução do fluxo sanguíneo para essas regiões.
Com o passar do tempo, órgãos como pulmões, cérebro, rins e baço podem ser comprometidos. Entre as complicações mais graves estão o acidente vascular cerebral (AVC), a síndrome torácica aguda e infecções bacterianas severas.
Também são considerados sinais de alerta febre, dificuldade para respirar, dores intensas, alterações neurológicas e aumento expressivo do volume abdominal, situações que exigem atendimento médico imediato.
Teste do pezinho é fundamental para o diagnóstico precoce
Especialistas destacam que o diagnóstico precoce é um dos principais fatores para reduzir complicações e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
A identificação da doença pode ser realizada por meio de exames laboratoriais específicos, incluindo eletroforese de hemoglobina, métodos como HPLC (Cromatografia Líquida de Alta Eficiência) e testes genéticos em situações determinadas.
Entre as estratégias de rastreamento, o teste do pezinho ocupa papel central, permitindo a identificação da doença nos primeiros dias de vida, antes mesmo do aparecimento dos sintomas.
De acordo com Fernanda Queiroz, quando há resultado positivo ou sugestivo para doença falciforme, o recém-nascido é encaminhado para acompanhamento especializado, possibilitando a adoção precoce de medidas preventivas e terapêuticas.
Novos tratamentos ampliam perspectivas para pacientes
Além das terapias convencionais, novas abordagens vêm ampliando as possibilidades de tratamento da doença falciforme.
Atualmente, o transplante de células-tronco hematopoéticas é considerado a única modalidade terapêutica amplamente reconhecida como potencialmente curativa, sendo indicado para casos específicos após avaliação criteriosa dos riscos e benefícios.
Nos últimos anos, a terapia gênica passou a ocupar espaço de destaque no cenário internacional. A técnica busca corrigir a alteração genética responsável pela doença e já recebeu aprovação regulatória em alguns países.
Entretanto, essas tecnologias ainda não estão amplamente disponíveis no Brasil, permanecendo restritas principalmente a centros especializados e protocolos de pesquisa.
Desafios incluem acesso à saúde e conscientização da população
Apesar dos avanços científicos, pacientes com doença falciforme continuam enfrentando desafios relacionados à dor crônica, fadiga, internações frequentes e limitações que afetam diferentes aspectos da vida cotidiana.
Também persistem dificuldades relacionadas ao acesso aos serviços de saúde, ao desconhecimento da população sobre a enfermidade e a situações de preconceito relatadas por pacientes.
Segundo a hematologista, o enfrentamento desses desafios exige uma atuação integrada envolvendo pacientes, familiares, profissionais de saúde e uma rede assistencial preparada para atender às necessidades específicas dessa população.
Entre as medidas recomendadas para prevenção de complicações estão acompanhamento médico regular, vacinação completa, uso correto das medicações prescritas, hidratação adequada, realização de exames periódicos e atenção aos sinais de alerta, contribuindo para reduzir riscos e melhorar os resultados clínicos.


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