Afastamentos por transtornos mentais na Bahia crescem 203% em dez anos

A Bahia registrou crescimento de aproximadamente 203% no número de benefícios previdenciários concedidos em razão de transtornos mentais entre 2014 e 2024, segundo dados do SmartLab, plataforma desenvolvida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). No período, o número passou de 5.020 para 15.189 afastamentos, mais que triplicando em uma década.

Os dados ganham destaque durante o Setembro Amarelo, período dedicado à conscientização sobre a prevenção do suicídio e à promoção da saúde mental. A discussão também alcança o ambiente profissional, onde fatores relacionados à organização do trabalho podem contribuir para situações de sofrimento psíquico. A Fundacentro aponta que pressão por resultados, jornadas excessivas, assédio e falta de reconhecimento estão entre fatores associados ao sofrimento mental no trabalho.

Para a médica do trabalho baiana Ana Paula Teixeira, autora do livro Quando o Trabalho Dói, a análise da saúde dos trabalhadores precisa considerar aspectos que ultrapassam indicadores de produtividade. Segundo a especialista, pressão excessiva, assédio organizacional, sobrecarga e ausência de suporte emocional podem integrar um ambiente de trabalho com riscos à saúde mental.

Saúde mental passa a integrar gestão de riscos ocupacionais

A discussão sobre saúde mental no trabalho também ganhou novo marco regulatório em 2026. A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) passou a incluir expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento de riscos ocupacionais. A nova redação do capítulo 1.5 entrou em vigor em 26/05/2026, após alteração promovida pela Portaria MTE nº 1.419/2024 e posterior prorrogação.

Entre os aspectos contemplados pela abordagem estão fatores relacionados à organização e às condições de trabalho, que devem ser identificados e avaliados dentro do processo de gerenciamento dos riscos ocupacionais. O Ministério do Trabalho e Emprego disponibilizou, em 2026, manual específico para orientar a aplicação do capítulo 1.5 da NR-1.

A Campanha Nacional de Prevenção de Acidentes do Trabalho (Canpat) 2026 também adotou como foco a prevenção dos riscos psicossociais no ambiente profissional. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, a iniciativa busca ampliar a discussão sobre os impactos dos transtornos mentais relacionados ao trabalho e orientar a adoção de medidas preventivas.

Prevenção envolve identificação de riscos e acolhimento

Na avaliação de Ana Paula Teixeira, a prevenção deve ser incorporada à rotina das organizações. Entre as medidas citadas pela especialista estão a capacitação de lideranças para identificar sinais de sofrimento emocional, a criação de canais confidenciais de acolhimento e a avaliação dos riscos psicossociais presentes nas atividades profissionais.

A especialista também aponta mudanças de comportamento, isolamento, queda de rendimento e alterações de humor como sinais que devem ser observados pelas equipes. A identificação desses sinais, entretanto, não substitui a avaliação de profissionais de saúde e deve ser acompanhada de mecanismos adequados de acolhimento e encaminhamento.

Orientações de órgãos públicos também destacam a necessidade de tratar a saúde mental no trabalho de forma contínua. O Ministério da Saúde informa que sofrimento relacionado ao trabalho, perda de emprego, agressões psicológicas e outros fatores sociais podem aumentar situações de vulnerabilidade, embora não devam ser considerados, isoladamente, como determinantes para o suicídio.

Dados reforçam necessidade de acompanhamento

A evolução registrada na Bahia — de 5.020 benefícios em 2014 para 15.189 em 2024 — representa uma diferença de 10.169 benefícios no intervalo de dez anos. Em termos proporcionais, o crescimento calculado a partir desses números é de aproximadamente 202,6%, valor arredondado para 203%.

Os dados sobre afastamentos não permitem, isoladamente, estabelecer uma relação causal entre cada caso e as condições específicas do ambiente profissional. Os registros previdenciários representam uma dimensão do problema e precisam ser analisados em conjunto com informações sobre condições de trabalho, características das atividades profissionais, acesso aos serviços de saúde e outros fatores sociais.

A própria abordagem oficial sobre prevenção do suicídio ressalta que o fenômeno possui múltiplos fatores, envolvendo dimensões psicológicas, biológicas, culturais e socioambientais. Por isso, a prevenção requer ações articuladas de saúde, proteção social, acolhimento e acompanhamento profissional.

Setembro Amarelo amplia debate sobre saúde mental

O Setembro Amarelo é utilizado para ampliar a conscientização sobre prevenção do suicídio, valorização da vida e busca por ajuda. No contexto profissional, a campanha também contribui para discutir condições de trabalho e formas de identificação de situações que possam afetar a saúde mental dos trabalhadores.

Na Bahia, iniciativas relacionadas ao tema vêm sendo realizadas em diferentes municípios. Em Feira de Santana, por exemplo, ações do Setembro Amarelo em 2026 incluíram orientações sobre sinais de sofrimento emocional, acolhimento, escuta e busca por atendimento especializado.

A combinação entre os dados de afastamentos, as mudanças introduzidas pela NR-1 e as ações de conscientização coloca a saúde mental no trabalho entre os temas que exigem acompanhamento permanente. Para empresas e trabalhadores, a prevenção envolve identificação de riscos, canais de comunicação, acolhimento e acesso aos serviços de saúde quando necessário.


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