O Setembro Amarelo, campanha dedicada à conscientização sobre saúde mental e prevenção do suicídio, amplia durante o mês de setembro o debate sobre estratégias de cuidado e prevenção. Entre as práticas que podem integrar esse cuidado está o exercício físico, que apresenta efeitos associados à redução de sintomas de ansiedade e depressão e pode contribuir para a regulação do estresse e do humor.
Dados do Covitel 2023, levantamento nacional realizado com 9 mil adultos, indicaram que 26,8% dos brasileiros declararam ter recebido diagnóstico médico de ansiedade, enquanto 12,7% relataram diagnóstico de depressão. O mesmo levantamento apontou que 31,5% da população pesquisada praticava ao menos 150 minutos de atividade física por semana.
O profissional de Educação Física e fisiologista Jauan Anselmo explica que a atividade física pode produzir respostas fisiológicas relacionadas à regulação do estresse, do humor e da ansiedade. Segundo ele, a prática deve ser entendida como parte de um processo contínuo de cuidado, e não como intervenção isolada.
Estudos associam exercício à redução de sintomas de ansiedade e depressão
Uma revisão abrangente publicada em 2026 no British Journal of Sports Medicine reuniu 63 estudos, 81 meta-análises, 1.079 estudos componentes e 79.551 participantes. A análise encontrou redução de sintomas de depressão e ansiedade entre pessoas submetidas a intervenções com exercícios físicos.
No conjunto das pesquisas sobre depressão, foram considerados 800 estudos componentes e 57.930 participantes, com idades entre 10 e 90 anos. Os pesquisadores analisaram diferentes modalidades, incluindo exercícios aeróbicos, treinamento resistido, práticas de corpo e mente e combinações de atividades.
Para os sintomas de ansiedade, a revisão reuniu 258 estudos componentes e 19.368 participantes. Os autores identificaram efeitos positivos de diferentes modalidades de exercício, embora os resultados variassem conforme população, intensidade, duração, frequência e formato da atividade.
Musculação, caminhada, corrida e outras atividades podem integrar a rotina
Jauan Anselmo destaca que a musculação não é a única modalidade associada a benefícios para a saúde mental. Caminhada, corrida, dança, esportes e exercícios realizados em casa também podem fazer parte de uma rotina de atividade física, desde que sejam adequados às condições e preferências de cada pessoa.
A revisão publicada no British Journal of Sports Medicine identificou efeitos associados a diferentes modalidades. Para sintomas depressivos, o exercício aeróbico apresentou resultados mais expressivos na análise, enquanto o treinamento resistido, práticas de corpo e mente e modalidades combinadas também apresentaram resultados positivos.
A pesquisa também encontrou diferenças relacionadas ao formato das atividades. Exercícios realizados em grupo e sob supervisão apresentaram efeitos mais expressivos sobre sintomas depressivos do que atividades individuais em algumas das análises, indicando que a dimensão social da prática pode participar dos resultados observados.
Atividade física entre jovens exige atenção aos limites da evidência
A relação entre atividade física e saúde mental também é investigada entre crianças e adolescentes. O estudo citado no texto-base relaciona a prática regular de exercícios a indicadores de saúde mental nessa população. Entretanto, os resultados de pesquisas observacionais devem ser interpretados com cautela, pois associação entre dois fatores não significa, por si só, que um seja responsável pelo outro.
A revisão publicada em 2026 no British Journal of Sports Medicine incluiu participantes de diferentes faixas etárias, inclusive crianças, adolescentes e adultos jovens, e identificou redução de sintomas depressivos e ansiosos associada às intervenções de exercício. Os pesquisadores, contudo, ressaltam que os efeitos variam conforme características da população e do programa de atividade física.
Nesse contexto, Jauan ressalta que exercício físico não deve ser apresentado como tratamento único para transtornos mentais. Pessoas que apresentam sofrimento psíquico, sintomas persistentes ou situações que demandem acompanhamento devem buscar profissionais habilitados, como psicólogos, psiquiatras e equipes de saúde.
Exercício integra uma rede mais ampla de cuidado
A atividade física pode ser incorporada a estratégias de promoção da saúde e de cuidado em saúde mental, mas sua utilização precisa considerar as condições individuais. A prescrição de exercícios deve levar em conta aspectos como histórico de saúde, condicionamento físico, objetivos, rotina e capacidade de manutenção da prática.
Para Jauan, a regularidade é um dos elementos centrais. A escolha de uma atividade que seja compatível com a rotina e com as preferências pessoais pode favorecer a continuidade, evitando que o exercício seja associado exclusivamente a objetivos estéticos ou a resultados imediatos.
A abordagem também está alinhada à necessidade de ampliar a compreensão sobre saúde mental para além de uma única intervenção. A prática de exercícios pode coexistir com psicoterapia, acompanhamento médico, tratamento medicamentoso quando indicado e outras estratégias de cuidado, conforme a necessidade de cada pessoa.
Setembro Amarelo amplia debate sobre prevenção e busca por ajuda
Durante o Setembro Amarelo, iniciativas de conscientização procuram estimular o diálogo sobre sofrimento emocional, prevenção do suicídio e acesso aos serviços de saúde. Em Feira de Santana, por exemplo, ações realizadas em 2026 destacaram a identificação de sinais de sofrimento, a escuta e a busca por atendimento profissional.
As ações da campanha também reforçam que pedir ajuda e procurar atendimento especializado são medidas importantes diante de situações de sofrimento psíquico. A rede de atenção em saúde mental reúne diferentes serviços, que podem ser acionados conforme a necessidade de cada pessoa.
Nesse cenário, o exercício físico pode ser compreendido como uma das ferramentas disponíveis para promoção da saúde e apoio ao bem-estar, sem substituir os cuidados especializados. As evidências científicas atuais sustentam sua inclusão em estratégias de cuidado, mas também indicam que características individuais e do próprio programa de exercícios influenciam os resultados.
A discussão proposta durante o Setembro Amarelo, portanto, amplia-se para uma perspectiva de cuidado integrado: movimento, acompanhamento profissional, apoio social e acesso aos serviços de saúde podem atuar de forma complementar na atenção à saúde mental.


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