O Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), em Salvador, inaugura nesta sexta-feira (11/09/2026) a exposição “OMI TUTU – Água Fresca”, individual da artista brasileira-gabonesa Hariel Revignet, com curadoria de Jamile Coelho. A mostra reúne pinturas, esculturas e instalações que utilizam a água como elemento de articulação entre território, deslocamento, pertencimento e continuidade.
O título da exposição é uma expressão em iorubá que significa “água fresca”. Na pesquisa de Hariel, a água aparece associada a rios, mares, lágrimas, alimentos e caminhos, estabelecendo relações entre experiências pessoais e diferentes territórios. A exposição também aborda os vínculos entre Brasil e Gabão, países relacionados à trajetória familiar e artística da autora.
A abertura está programada para as 19h, no MUNCAB, localizado na Rua das Vassouras, 25, Centro Histórico de Salvador. A exposição poderá ser visitada até 14 de fevereiro de 2027, de terça-feira a domingo, das 10h às 17h, com acesso até 16h30. Os ingressos custam R$ 20 e R$ 10, com entrada gratuita às quartas-feiras e domingos.
Água como elemento de conexão entre territórios
Nascida em Goiânia, em 1995, Hariel Revignet é brasileira-gabonesa e desenvolve uma produção relacionada aos encontros entre Brasil e Gabão, à história familiar e aos territórios que atravessam sua trajetória. A artista trabalha com a noção de autobiogeografia, articulando experiência pessoal, deslocamento e território.
A exposição parte da imagem do estuário, espaço em que diferentes águas se encontram. Essa referência orienta o texto curatorial “Dentro do Mar tem Rio”, de Jamile Coelho, e contribui para deslocar a representação do oceano como elemento de separação para uma perspectiva de circulação, continuidade e conexão.
Segundo a curadoria, o percurso expográfico, desenvolvido pela arquiteta Gisele de Paula, organiza a visita em diferentes núcleos, entre eles Limiar, Mar de Lágrimas, Estuário Gabão, Rio Encantado e Portais do Retorno. A montagem estabelece relações entre as obras e a arquitetura do museu.
Obras inéditas integram o percurso da exposição
Entre os trabalhos apresentados está “Peixes – Sementes”, instalação de 2026 formada por 195 esculturas de peixes. A obra utiliza a representação coletiva dos animais para trabalhar conceitos relacionados à água, movimento e transformação.
No núcleo Mar de Lágrimas, a exposição aproxima temas relacionados à maternidade, transmissão de conhecimentos e às águas de Salvador. A obra “Yeye Omo Ejá – Mãe cujos filhos são peixes”, de 2025, combina pintura, costura, miçangas e sementes de lágrima-de-nossa-senhora.
Também integra esse conjunto a série “Pretos Velhos e Caboclos d’água”, composta por retratos de pessoas negras e indígenas relacionadas à arte, ao pensamento, à política, à educação e à defesa dos territórios e das águas.
Brasil e Gabão aparecem em diferentes núcleos
A experiência de Hariel no Gabão ocupa parte específica da exposição. Uma viagem realizada pela artista a Libreville, em 2023, território relacionado à família paterna, resultou em registros de paisagens, mercados, ruas, florestas e portões incorporados à pesquisa artística.
Obras como “A Floresta” e “O Mercado G’Kessa” articulam paisagem, experiência urbana e deslocamento. Outros trabalhos, como Igâ, Ziguidás, Amapô Omí, Omí Orí e Orí Ejá, ampliam as relações entre corpo, água, terra e território.
A instalação inédita “A Mãe do Mar é a Terra”, de 2026, reúne 21 peças de massa de terra esmaltadas com búzios, estabelecendo uma relação entre terra e água, chão e mar e entre diferentes materiais e referências simbólicas.
Arquitetura participa da experiência de OMI TUTU
Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Goiás, Hariel desenvolve o conceito de “Axétetura”, associado à ampliação das possibilidades de pensar arquitetura, construção e habitação a partir de conhecimentos negros e de outras formas de organização do espaço.
Em OMI TUTU, essa abordagem aparece na relação estabelecida entre as obras e os ambientes do MUNCAB. A disposição das instalações modifica percursos, escalas e distâncias, fazendo com que o deslocamento do visitante participe da experiência expositiva.
No núcleo Rio Encantado, a instalação “Rio de Miçangas – Ziguidás” utiliza fios de miçangas e sementes de açaí dispostos verticalmente, em relação com quartinhas, cabaças, moringas, cuias e alguidares. A composição cria um percurso pelo qual o público precisa se deslocar entre as margens do conjunto.
“Portais do Retorno” reelaboram ideia de passagem
O núcleo “Portais do Retorno” parte de fotografias de portões encontrados em Libreville e de símbolos adinkras para trabalhar a referência histórica aos chamados “Portões do Não Retorno”, relacionados ao tráfico transatlântico de africanos escravizados.
Na exposição, a artista desloca simbolicamente o sentido dessa passagem. Em vez da ruptura como ponto final, os portais são apresentados como possibilidade de reencontro, reconstrução de pertencimento e criação de novas relações no presente.
A proposta integra referências gabonesas, iorubás, Akan, afro-brasileiras e indígenas sem estabelecer uma representação única do continente africano. O percurso é construído a partir da experiência particular da artista e das relações entre diferentes territórios e matrizes culturais.
Salvador ocupa lugar na trajetória da artista
A relação da exposição com Salvador também está vinculada à trajetória acadêmica de Hariel. Durante o mestrado na Universidade Federal da Bahia (UFBA), a cidade passou a integrar seu percurso de pesquisa e produção artística.
Para a artista, a apresentação no MUNCAB estabelece uma relação direta com os conhecimentos e experiências adquiridos na capital baiana. O museu, nesse contexto, é apresentado como espaço de encontro entre diferentes referências da produção afro-diaspórica e da arte contemporânea.
A curadora Jamile Coelho, também diretora artística do MUNCAB, destaca que a água ocupa papel central na construção conceitual da exposição. Segundo ela, o elemento funciona como uma forma de compreender travessias, pertencimentos e transformações, enquanto a arquitetura do museu participa da organização da experiência.
Exposição integra programação do MUNCAB em setembro
A abertura de OMI TUTU ocorre simultaneamente ao início da programação do Festival da Primavera Salvador 2026 no MUNCAB. Entre 11 e 13 de setembro, o museu recebe apresentações musicais, discotecagem e uma ação performativa de Sandro de Aiyê, ampliando a programação cultural do espaço.
Na sexta-feira (11), a programação musical começa às 19h com DJ Belle, seguida por Sambaiana, às 21h, e Taian Riachão, às 23h. No sábado (12), estão previstas apresentações de DJ Bruxa Braba, Afrocidade, Sandro de Aiyê e ÀTTØØXXÁ.
No domingo (13), a programação reúne Creator Beats, Brianny, Bruno Kroz, Evylin, Mr. Armeng, OQuadro e Ravi Lobo. A agenda conecta a exposição de Hariel a outras linguagens artísticas e amplia a ocupação do MUNCAB durante o fim de semana.
Share this:
- Print (Opens in new window) Print
- Email a link to a friend (Opens in new window) Email
- Share on X (Opens in new window) X
- Share on Facebook (Opens in new window) Facebook
- Share on LinkedIn (Opens in new window) LinkedIn
- Share on WhatsApp (Opens in new window) WhatsApp
- Share on Telegram (Opens in new window) Telegram


Deixe um comentário