O Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), localizado no Centro Histórico de Salvador, recebe até o dia 09 de agosto 2026 a exposição “Inclassificáveis”, que apresenta cerca de 100 obras rematriadas após permanecerem por mais de 30 anos nos Estados Unidos. A mostra reúne esculturas, pinturas, gravuras e objetos produzidos por artistas baianos e propõe uma revisão das classificações historicamente atribuídas às produções afro-brasileiras.
Com curadoria de Jamile Coelho e Jil Soares, a exposição apresenta obras tradicionalmente enquadradas como “arte popular”, “naif” ou “folclórica”, propondo uma leitura que as reconhece como parte da produção da arte brasileira contemporânea.
O conjunto expositivo parte do processo de rematriação das obras pertencentes ao acervo do antigo Instituto Con/Vida, em Detroit, nos Estados Unidos, ampliando o debate sobre memória, pertencimento, território e patrimônio cultural.
Rematriação amplia o significado do retorno das obras
Inspirado nas reflexões do artista e pesquisador Ayrson Heráclito, o conceito de rematriação vai além da repatriação tradicional. Segundo a proposta curatorial, o retorno das obras representa também a reconstrução dos vínculos com as comunidades, os territórios e os contextos culturais onde essas produções foram concebidas.
Os curadores destacam que grande parte das obras nasceu em espaços historicamente afastados dos circuitos institucionais das artes visuais, fator que contribuiu para classificações que, segundo a pesquisa, reduziram seus significados sociais, culturais e políticos.
A exposição integra uma pesquisa desenvolvida pela direção artística do MUNCAB e foi estruturada a partir da chegada do acervo rematriado à Bahia.
Percurso expositivo é dividido em três núcleos
A mostra ocupa o térreo e o primeiro andar do museu e está organizada em três eixos principais: “Restituir Sentidos – Amor, Festa e Devoção”, “Cotidianos” e “Escolas Invisíveis”.
O percurso tem início no “Portal dos Mensageiros”, instalação tridimensional inspirada na obra “Senhor dos Caminhos”, de J. Cunha. A partir desse espaço, o visitante encontra trabalhos que abordam manifestações culturais afro-brasileiras, religiosidade, cotidiano urbano e rural de Salvador e do Recôncavo Baiano.
Entre os artistas representados estão Eduardo Santos Silva, Mauro di Verde, Babalu, Raimundo Nonato, Sol Bahia, John Kinni dy e J. Cunha, cujas obras dialogam com diferentes linguagens e referências culturais.
Cotidianos e Escolas Invisíveis ampliam o diálogo com a história da Bahia
No primeiro andar, a obra “Bois Tombados Pelo Patrimônio do Brasil”, também de J. Cunha, introduz o núcleo “Cotidianos”, que reúne pinturas, esculturas e instalações relacionadas ao Centro Histórico de Salvador, ao Recôncavo Baiano e às manifestações culturais populares.
O percurso apresenta produções de artistas como Calixto Sales, Raimundo França, Tupinancy, Lídia Hora, Telma Sá, Didito, Palito, Gisele, Alfredo Cruz e Alberto Pitta, abordando temas ligados à arquitetura, carnaval, capoeira, pescadores, manifestações políticas, festas populares e à vida cotidiana.
Já o núcleo “Escolas Invisíveis” reúne produções vinculadas ao Pelourinho, à Ladeira da Conceição e à cidade de Cachoeira, valorizando tradições artísticas transmitidas entre gerações e desenvolvidas fora dos circuitos oficiais das artes visuais.
Escultura, acessibilidade e tradição integram a proposta da mostra
A exposição também destaca a tradição escultórica da chamada Escola de Escultores de Cachoeira, iniciada por Boaventura da Silva Filho (Louco) e desenvolvida por artistas como Doidão, Mimo, Dory e Roque Escultor, que unem referências barrocas, afro-brasileiras e indígenas.
Outro destaque é a Escola de Artífices da Ladeira da Conceição, onde artistas como Zé Adário mantêm técnicas ligadas à forja, à arquitetura urbana e à arte sacra afro-brasileira contemporânea.
A mostra conta ainda com obras táteis, permitindo a participação de pessoas com deficiência visual e baixa visão, ampliando a acessibilidade ao conteúdo expositivo.
MUNCAB atua na preservação da arte afro-brasileira
O Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB) é administrado pela Sociedade Amigos da Cultura Afro-Brasileira (AMAFRO) e desenvolve ações voltadas à pesquisa, preservação, documentação, conservação e difusão das artes afro-brasileiras, afro-diaspóricas e africanas.
Além das exposições, o museu promove atividades educativas, programas de formação, seminários e projetos de mediação cultural voltados ao fortalecimento do acesso às artes visuais e da produção artística negra em diferentes períodos históricos.


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