A logística para levar suprimentos a populações afetadas por conflitos, desastres naturais, surtos de doenças e deslocamentos populacionais pode determinar a velocidade da resposta humanitária. No Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), a brasileira Erika Abs, coordenadora de Logística e Suprimentos de Emergência da Divisão de Suprimentos, atua no planejamento de estoques e na organização de cargas que precisam chegar aos países em situação de emergência em menos de 72 horas.
Abs trabalha no principal centro de armazenamento humanitário do Unicef, localizado em Copenhague, na Dinamarca. A estrutura faz parte de uma rede internacional destinada a manter produtos disponíveis para respostas emergenciais e reduzir o tempo entre a identificação de uma necessidade e a entrega dos suprimentos.
Em entrevista à ONU News publicada em quinta-feira (20/08/2026), por ocasião do Dia Mundial Humanitário, celebrado em 19 de agosto, a especialista explicou que a estratégia começa pela avaliação dos estoques disponíveis no país afetado, nos países vizinhos e entre fornecedores locais. A análise permite definir a origem mais rápida para os produtos necessários.
Preparação e estoques são parte da resposta humanitária
Segundo Erika Abs, a preparação antes de uma emergência é um dos elementos centrais da logística humanitária. Quando ocorre uma crise, a equipe verifica imediatamente os recursos disponíveis no território atingido e em países próximos para determinar quais estoques podem ser mobilizados.
A estratégia também considera a capacidade dos fornecedores locais e regionais, que podem ser acionados para complementar os estoques existentes. A compra ou contratação de fornecedores próximos ao local da emergência pode reduzir o tempo necessário para o transporte, em comparação com o envio de produtos a partir de centros internacionais.
O Unicef mantém mais de 300 armazéns distribuídos pelo mundo. Em 2025, a organização negociou compras com 12.327 fornecedores em 178 países, segundo os dados apresentados pela ONU News. A ampliação das compras locais e o fortalecimento das cadeias regionais integram a estratégia de descentralização do abastecimento.
Compras locais reduzem dependência de cadeias internacionais
A localização das cadeias de suprimentos é apontada pela especialista como uma medida para reduzir a dependência de longas rotas internacionais e aumentar a capacidade de resposta dos países. A estratégia envolve identificar antecipadamente fornecedores que possam atender às necessidades em situações de emergência.
Esse modelo permite que parte dos produtos seja obtida próxima ao local onde a demanda ocorre. Além de reduzir etapas logísticas, a iniciativa pode contribuir para fortalecer mercados e capacidades de fornecimento regionais.
A atuação não se limita aos centros de armazenamento. Erika Abs integra um grupo de especialistas preparado para trabalhar diretamente em emergências e já participou de missões na Síria, em Gaza e em Moçambique, experiências que, segundo ela, permitem observar diretamente as necessidades das populações afetadas.
Missões de campo mostram dimensão das necessidades
No atendimento em campo, a logística passa a ser acompanhada pela observação direta das necessidades da população. Segundo Abs, crianças estão entre os grupos mais vulneráveis em situações de conflito e outras emergências, o que influencia a definição dos produtos e serviços necessários.
A especialista relatou que a capacidade de resposta observada nas operações de emergência depende de uma estrutura de cooperação construída antes da crise. Essa preparação envolve profissionais de logística, fornecedores, governos, organizações humanitárias e equipes que atuam na distribuição dos materiais.
Para Abs, a preparação também inclui infraestrutura e pré-posicionamento de estoques. A manutenção antecipada de determinados produtos permite reduzir o intervalo entre a ocorrência de uma emergência e o início da assistência.
Kits são definidos conforme o tipo de emergência
Os materiais enviados pelo Unicef variam de acordo com a natureza da crise. Conflitos armados, desastres naturais, surtos de doenças e deslocamentos populacionais podem exigir diferentes combinações de produtos e equipamentos.
No armazém de Copenhague, são mantidos 50 tipos de kits padronizados preparados para envio. Entre eles está o chamado Interagency Health Kit, destinado a oferecer materiais básicos para atendimento de saúde em situações emergenciais.
De acordo com Erika Abs, um kit de saúde pode atender mais de 500 pessoas, dependendo das circunstâncias e da utilização dos materiais. A composição inclui medicamentos, instrumentos médicos, gaze e outros itens necessários para cuidados básicos.
Espaços para crianças incluem educação e recreação
Além dos materiais de saúde, o Unicef prepara kits destinados à criação de espaços seguros para crianças em áreas afetadas por crises. Esses conjuntos podem incluir tendas, brinquedos, equipamentos recreativos e materiais educacionais.
A iniciativa considera situações nas quais crianças permanecem em locais de emergência enquanto familiares ou equipes realizam buscas, resgates ou outras atividades. A manutenção de atividades educacionais e recreativas pode contribuir para oferecer uma rotina mínima durante períodos de deslocamento ou interrupção dos serviços regulares.
Em situações de desastre, os espaços também podem funcionar como pontos de apoio para atividades voltadas à proteção infantil. A composição dos kits é definida de acordo com o contexto e as necessidades identificadas pelas equipes responsáveis pela resposta.
Logística conecta planejamento, abastecimento e proteção infantil
A experiência relatada por Erika Abs mostra que a distribuição de ajuda humanitária envolve planejamento de estoques, análise de fornecedores, transporte, preparação de kits e atuação em campo. A velocidade da resposta depende de decisões tomadas antes da ocorrência de uma emergência.
O modelo também combina estruturas internacionais com fornecedores locais e regionais. Essa integração permite que os responsáveis pela logística avaliem diferentes fontes de abastecimento e escolham aquela que oferece condições para atender à demanda no menor tempo possível.
No trabalho voltado às crianças, os suprimentos incluem desde medicamentos e materiais de saúde até equipamentos para educação, recreação e criação de espaços seguros. A logística, nesse contexto, integra as ações destinadas a preservar a saúde, a proteção e o bem-estar de populações afetadas por crises.
Dia Mundial Humanitário
O Dia Mundial Humanitário é celebrado em 19 de agosto e foi instituído pelas Nações Unidas para reconhecer a atuação de profissionais humanitários e destacar a necessidade de assistência às populações afetadas por conflitos e desastres.
A data também chama atenção para a estrutura necessária para que a ajuda chegue aos locais onde é necessária. No caso do Unicef, essa estrutura inclui uma rede internacional de armazéns, fornecedores, equipes especializadas e sistemas de preparação para emergências.
A atuação de profissionais como Erika Abs evidencia uma etapa que ocorre antes da chegada da assistência às comunidades: a organização dos recursos necessários para que medicamentos, materiais educacionais, equipamentos e outros suprimentos possam ser mobilizados rapidamente.


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