Dia Mundial do Mosquito

O Dia Mundial do Mosquito, celebrado anualmente em 20 de agosto, chama a atenção para o impacto das doenças transmitidas por mosquitos e para a necessidade de integrar ciência, políticas públicas e participação da sociedade no controle desses vetores. A data, associada à descoberta feita pelo médico britânico Ronald Ross sobre a transmissão da malária, coloca em evidência doenças como dengue, malária, zika, chikungunya, febre amarela e filariose linfática.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças transmitidas por vetores representam mais de 17% das doenças infecciosas e provocam mais de 700 mil mortes por ano. A malária responde por parcela significativa desse impacto, com estimativa de 249 milhões de casos e mais de 608 mil mortes anuais, atingindo principalmente crianças menores de cinco anos.

No caso da dengue, a OMS estima que aproximadamente metade da população mundial esteja sob risco de infecção, enquanto a doença permanece presente em mais de 100 países. Em 2024, foram registrados mundialmente mais de 14,4 milhões de casos de dengue e 11,2 mil mortes, segundo atualização epidemiológica da organização.

Aedes aegypti concentra preocupação nas áreas urbanas

Entre os vetores de maior relevância para as Américas está o Aedes aegypti, responsável pela transmissão dos vírus da dengue, zika e chikungunya e também relacionado à transmissão da febre amarela urbana em contextos específicos. A espécie possui ampla adaptação a ambientes urbanos e utiliza recipientes que acumulam água para sua reprodução.

A pesquisadora Rafaela Vieira Bruno, chefe do Laboratório de Biologia Molecular de Insetos do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), defende que o mosquito seja tratado como uma questão permanente de saúde pública. A diversidade de espécies e a capacidade de adaptação dos mosquitos permitem sua presença em diferentes ambientes e regiões climáticas.

O cenário epidemiológico das Américas demonstra a dimensão do problema. Em 2025, foram notificados 4.459.521 casos suspeitos de dengue e 1.682.588 casos confirmados na região, além de 2.207 mortes. Até a semana epidemiológica 4 de 2026, a OPAS registrava 122.090 casos, incluindo 22.409 confirmações laboratoriais e seis mortes.

Dengue mantém pressão sobre sistemas de saúde

Os dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) mostram que a epidemia de dengue nas Américas atingiu níveis elevados nos últimos anos. 2024 registrou mais de 13 milhões de casos na região, estabelecendo um recorde histórico. Em 2025, embora tenha ocorrido redução, a transmissão permaneceu em patamar relevante, com o Brasil concentrando a maior parcela dos registros regionais.

No primeiro semestre de 2026, dados da OMS indicaram mais de 1,6 milhão de casos de dengue e mais de 700 mortes notificadas em 89 países. A Região das Américas respondeu por mais de 1,3 milhão de casos no período, embora a organização ressalte que diferenças nos sistemas de vigilância exigem cautela na comparação entre regiões.

No Brasil, o controle do Aedes aegypti permanece associado à vigilância epidemiológica, eliminação de criadouros, ações dos agentes de endemias, monitoramento de áreas de risco e estratégias de imunização. Em Feira de Santana, por exemplo, o Jornal Grande Bahia registrou em 2026 ações municipais de monitoramento do vetor e informou que, entre janeiro e 7 de julho, foram registradas 1.373 notificações suspeitas de dengue, com 96 confirmações laboratoriais.

Tecnologias ampliam estratégias de controle

A resposta às doenças transmitidas por mosquitos não depende apenas da eliminação mecânica dos criadouros. Pesquisas e programas de saúde pública passaram a incorporar biotecnologia, vigilância entomológica, sistemas de monitoramento e novas estratégias de controle populacional dos vetores.

Uma dessas iniciativas é o Método Wolbachia, conduzido no Brasil pela Fiocruz em parceria com o Ministério da Saúde e integrado ao World Mosquito Program. A estratégia consiste na liberação de Aedes aegypti portadores da bactéria Wolbachia, que reduz a capacidade do mosquito de transmitir os vírus da dengue, zika e chikungunya.

Estudo conduzido pela Fiocruz e instituições brasileiras e internacionais apontou que, em áreas de Campo Grande onde a Wolbachia atingiu níveis estáveis na população de mosquitos, houve redução de 63,2% na incidência de dengue em 2024 após a implementação da estratégia entre 2020 e 2023.

Vacinação integra resposta contra a dengue

A vacinação também passou a ocupar espaço entre as estratégias utilizadas para reduzir o impacto da dengue. O Instituto Butantan desenvolveu uma vacina que apresentou 79,6% de eficácia geral no ensaio clínico de fase 3, realizado com mais de 16 mil voluntários. Entre os participantes que receberam o imunizante, 10.259 foram vacinados, e três apresentaram eventos adversos graves, número inferior a 0,1% do grupo vacinado.

Resultados posteriores do acompanhamento indicaram 89,2% de eficácia entre pessoas que já haviam tido dengue e 73,5% entre aquelas sem infecção prévia. Os dados de cinco anos de acompanhamento apontaram posteriormente eficácia geral de 74,7% e 91,6% contra dengue grave e dengue com sinais de alarme em determinado grupo etário, embora esses resultados ainda não representassem, à época da publicação, os dados completos submetidos à publicação científica.

Em junho de 2026, entretanto, o Instituto Butantan informou que a vacinação com o imunizante foi temporariamente interrompida para reavaliação da estratégia, seguindo orientação do Ministério da Saúde e da Anvisa. A medida ocorreu após a identificação de alguns casos de reação adversa entre aproximadamente 500 mil pessoas vacinadas, três deles com sinais de gravidade, sem confirmação naquele momento de relação causal com a vacina.

Prevenção depende da participação da população

O controle dos mosquitos também envolve medidas adotadas dentro das residências e em áreas públicas. A OMS recomenda ações de controle de vetores, mobilização comunitária, vigilância e manejo de criadouros como componentes fundamentais para reduzir a transmissão de doenças.

Entre as medidas domésticas estão eliminar recipientes que acumulem água, manter caixas-d’água devidamente vedadas, limpar calhas e manter garrafas e outros recipientes de boca para baixo. Pratos de vasos de plantas também devem ser mantidos sem água acumulada ou preenchidos adequadamente com areia, conforme as orientações sanitárias locais.

Em Feira de Santana, ações municipais têm utilizado diferentes mecanismos de vigilância, incluindo ovitrampas, armadilhas destinadas a identificar a presença de ovos do Aedes aegypti e auxiliar no mapeamento da infestação. O Jornal Grande Bahia também registrou o uso de inteligência artificial para contagem automatizada de ovos do mosquito, integrando tecnologia à vigilância epidemiológica.

Ciência e mobilização comunitária atuam de forma integrada

A experiência acumulada no combate às arboviroses demonstra que nenhuma medida isolada é suficiente para eliminar os riscos associados aos mosquitos. A vigilância epidemiológica precisa ser articulada ao controle de criadouros, à pesquisa científica, às tecnologias de controle vetorial, à vacinação quando indicada e à participação da população.

A própria OMS aponta que fatores ambientais, urbanização não planejada, mudanças climáticas, circulação de pessoas e alterações na distribuição dos vetores podem influenciar a expansão das doenças transmitidas por mosquitos. O aumento da temperatura e mudanças nos padrões de chuva também podem alterar a distribuição geográfica e o período de atividade de diferentes espécies.

O Dia Mundial do Mosquito, celebrado em 20 de agosto, funciona, nesse contexto, como uma oportunidade para reforçar informações sobre prevenção e destacar a importância do investimento contínuo em ciência, vigilância e políticas públicas. A combinação entre medidas individuais e ações coordenadas dos sistemas de saúde é apontada pelas organizações internacionais como elemento necessário para reduzir a ocorrência de epidemias.

Malária continua entre os principais desafios globais

Embora a dengue concentre parte importante das discussões nas Américas, a malária permanece como uma das doenças transmitidas por mosquitos de maior impacto global. O vetor pertence principalmente ao gênero Anopheles, enquanto a doença é causada por parasitas do gênero Plasmodium.

A OMS estima 249 milhões de casos de malária e mais de 608 mil mortes por ano, com a maior parte dos óbitos ocorrendo entre crianças menores de cinco anos. Em 2022, a Região Africana da OMS respondeu por aproximadamente 94% dos casos e 95% das mortes por malária registrados mundialmente.

A dimensão desses números ajuda a explicar por que o combate aos mosquitos permanece entre as prioridades da saúde pública internacional. A prevenção exige diferentes estratégias de acordo com o vetor e a doença, incluindo mosquiteiros tratados com inseticida, controle ambiental, vigilância, diagnóstico, tratamento e vacinação contra doenças para as quais existem imunizantes indicados.

Controle do vetor exige ações permanentes

O combate aos mosquitos envolve uma combinação de vigilância, prevenção, ciência, tecnologia e participação social. A expansão de estratégias como a Wolbachia, o desenvolvimento de vacinas, o uso de armadilhas para monitoramento e a aplicação de dados epidemiológicos demonstram a ampliação das ferramentas disponíveis para o controle das doenças.

No Brasil, experiências municipais também mostram a importância da continuidade das ações. Em Feira de Santana, dados divulgados pelo Jornal Grande Bahia apontaram redução de 94,5% nos casos confirmados de dengue entre 2024 e 2025, enquanto o município manteve ações de controle do Aedes aegypti em 2026.

A data de 20 de agosto reforça, portanto, uma questão de saúde pública que permanece atual: reduzir a transmissão de doenças relacionadas aos mosquitos depende de medidas permanentes, acompanhamento epidemiológico e capacidade de incorporar evidências científicas às políticas de prevenção e controle.


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