A declaração recente da cantora Madonna, de 67 anos, de que perdeu a cartilagem de um dos joelhos após décadas dançando de salto alto, correndo no asfalto e praticando Ashtanga Yoga, reacendeu o debate sobre os fatores que contribuem para o desgaste das articulações. Embora o uso frequente de salto alto esteja associado ao aumento da sobrecarga mecânica sobre os joelhos, especialistas apontam que o processo degenerativo da cartilagem costuma ser resultado da combinação de diferentes fatores acumulados ao longo da vida.
Segundo o ortopedista especialista em células-tronco Dr. Luiz Felipe Carvalho, diretor do Departamento de Tratamento com Uso de Células-Tronco do CPAH – Centro de Pesquisa e Análise Heráclito, a biomecânica alterada pelo salto alto pode favorecer o aumento da pressão sobre joelhos, tornozelos e pés. No entanto, em pessoas submetidas por décadas a atividades físicas de alta intensidade, como artistas, atletas e bailarinos, o impacto repetitivo tende a exercer influência ainda maior sobre o desgaste da cartilagem.
O caso ganhou repercussão nas redes sociais ao levantar questionamentos sobre o papel do salto alto na saúde das articulações. Para o especialista, não é possível atribuir a perda de cartilagem exclusivamente ao uso desse tipo de calçado, já que o histórico de atividades desempenhadas ao longo dos anos também deve ser considerado.
Salto alto altera a biomecânica, mas não explica sozinho o desgaste
De acordo com o Dr. Luiz Felipe Carvalho, o salto alto modifica a distribuição do peso corporal, aumentando a carga mecânica sobre os joelhos durante a caminhada. Quando utilizado por longos períodos ao longo de muitos anos, esse fator pode contribuir para processos degenerativos das articulações.
Entretanto, o médico ressalta que, no caso de profissionais que executam movimentos repetitivos, saltos, corridas e coreografias intensas, o conjunto dessas atividades representa uma carga mecânica muito mais expressiva.
“O salto alto realmente aumenta a carga sobre o joelho e pode acelerar desgastes em algumas pessoas, mas quando analisamos uma carreira como a da Madonna, marcada por décadas de apresentações intensas, coreografias, saltos, corridas e movimentos repetitivos, esse conjunto de fatores provavelmente exerce um impacto muito maior sobre a cartilagem do que o salto isoladamente”, explica o especialista.
Segundo ele, o organismo responde ao efeito acumulado das cargas mecânicas ao longo da vida, o que torna o desgaste um processo multifatorial.
Como ocorre o desgaste da cartilagem
A cartilagem articular atua como um amortecedor natural entre os ossos, reduzindo o atrito e distribuindo melhor as cargas durante os movimentos. Com o avanço da idade e a exposição contínua a impactos, microtraumas repetitivos ou lesões anteriores, esse tecido pode sofrer desgaste progressivo.
Quando a perda da cartilagem se torna significativa, podem surgir sintomas como dor, rigidez, limitação dos movimentos e dificuldade para caminhar. Por esse motivo, profissionais que permanecem durante décadas submetidos a alta exigência física apresentam maior probabilidade de desenvolver alterações articulares.
O ortopedista destaca que bailarinos, atletas e artistas de palco figuram entre os grupos com maior exposição a esse tipo de sobrecarga devido à repetição constante de movimentos de impacto.
Há formas de reduzir o risco de desgaste
Embora o envelhecimento seja um fator natural relacionado à saúde das articulações, há medidas capazes de reduzir a velocidade do desgaste da cartilagem, segundo o especialista.
Entre as principais recomendações estão:
- Manter o peso corporal adequado;
- Fortalecer a musculatura que estabiliza os joelhos;
- Alternar atividades de alto impacto com exercícios de menor sobrecarga;
- Respeitar os períodos de recuperação muscular e articular;
- Buscar tratamento precoce para lesões.
Para o médico, outro ponto importante é não ignorar sintomas persistentes.
“O desgaste da cartilagem normalmente acontece de forma gradual. Quanto mais cedo identificamos alterações articulares, maiores são as possibilidades de controlar a progressão, preservar a função do joelho e manter qualidade de vida. O principal recado é que a dor persistente nunca deve ser considerada normal, independentemente da idade ou da profissão”, conclui o Dr. Luiz Felipe Carvalho.
Caso reforça debate sobre saúde articular
O relato de Madonna evidencia uma discussão frequente entre especialistas em ortopedia: o desgaste da cartilagem raramente decorre de uma única causa. Em geral, fatores como envelhecimento, predisposição individual, lesões prévias, excesso de carga mecânica e atividades físicas repetitivas atuam de forma conjunta ao longo dos anos.
Na avaliação do especialista, compreender essa combinação de fatores é essencial para orientar estratégias de prevenção, diagnóstico precoce e preservação da função das articulações em pessoas expostas a elevados níveis de esforço físico durante a vida profissional ou esportiva.


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