A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) entrou em vigor em maio de 2026 e passou a estabelecer novas diretrizes para a gestão de saúde e segurança no trabalho no Brasil. A principal mudança é a inclusão dos riscos psicossociais como elemento central nas políticas corporativas, ampliando a responsabilidade das empresas sobre os impactos emocionais e psicológicos do ambiente laboral.
A medida altera a forma como organizações devem lidar com temas relacionados à saúde mental no trabalho, incluindo situações de assédio, sobrecarga emocional, pressão excessiva, conflitos internos, burnout e adoecimento psíquico relacionado à atividade profissional.
Segundo a psicóloga e psicanalista Sílvia A. Santana, diretora do Centro de Especialização e Acompanhamento Psicológico & Psiquiátrico (CEAPP), a atualização representa uma mudança estrutural na legislação trabalhista brasileira.
“A NR-1 exige das empresas uma nova postura diante dos fatores psicossociais, reforçando a necessidade de identificação, avaliação, monitoramento e gerenciamento contínuo desses riscos”, afirma.
Atualização da NR-1 amplia alcance do Programa de Gerenciamento de Riscos
A NR-1 é considerada a principal norma orientadora das regulamentações de segurança e saúde ocupacional no país, funcionando como base para outras diretrizes trabalhistas relacionadas à prevenção de acidentes e doenças ocupacionais.
Com a atualização, o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) passa a incorporar de forma mais explícita fatores ligados à saúde emocional e psicológica dos trabalhadores. Isso significa que as empresas deverão considerar não apenas riscos físicos, químicos ou ergonômicos, mas também aspectos organizacionais e relacionais capazes de comprometer a saúde mental.
Entre os fatores que passam a demandar maior atenção estão lideranças tóxicas, jornadas emocionalmente exaustivas, ausência de escuta, comunicação violenta, pressão por metas e conflitos internos recorrentes.
Especialistas alertam para crescimento de afastamentos por saúde mental
A nova diretriz surge em um contexto de aumento dos casos de adoecimento psíquico relacionados ao ambiente de trabalho. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que ansiedade e depressão gerem perdas superiores a US$ 1 trilhão por ano em produtividade no cenário global.
No Brasil, afastamentos relacionados à saúde mental vêm crescendo de forma contínua, impactando empresas, sistemas de saúde e a Previdência Social. Especialistas apontam que a mudança na NR-1 busca estimular ações preventivas dentro das organizações.
Para Sílvia A. Santana, a atualização muda a forma de compreender o sofrimento emocional no trabalho. “Durante muito tempo, as organizações trataram o sofrimento psíquico apenas quando ele já aparecia em forma de afastamento, queda de produtividade ou conflito interno. A NR-1 muda essa lógica ao exigir prevenção e responsabilidade institucional”, explica.
Empresas precisarão criar políticas permanentes de prevenção
A implementação da nova fase da NR-1 exige integração entre setores de Recursos Humanos, Segurança do Trabalho, Saúde Ocupacional e lideranças corporativas.
Entre as principais medidas recomendadas por especialistas estão mapeamento de riscos psicossociais, criação de canais seguros de escuta, treinamento de lideranças, monitoramento do clima organizacional, prevenção ao burnout e combate ao assédio.
A norma também amplia a necessidade de documentação e comprovação das ações preventivas adotadas pelas empresas, exigindo planejamento técnico, acompanhamento contínuo e produção de indicadores internos.
Cultura organizacional passa a ter impacto direto na gestão de riscos
Segundo especialistas, um dos principais desafios para as empresas será transformar a cultura organizacional e adaptar modelos de liderança às novas exigências legais.
Para Sílvia A. Santana, o cumprimento da norma depende de mudanças estruturais nas relações de trabalho.
“Norma não se sustenta sem cultura organizacional saudável. E cultura não se transforma apenas com documentos ou treinamentos pontuais. É preciso rever modelos de liderança, comunicação e gestão das relações humanas”, afirma.
Diante do novo cenário regulatório, o CEAPP informou que ampliou a atuação na área corporativa, oferecendo assessoria para adequação de empresas às exigências da NR-1, incluindo avaliação de riscos psicossociais, formação de lideranças e programas permanentes de saúde mental.


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