Fibromialgia no Brasil: Lei amplia direitos, mas diagnóstico e tratamento ainda enfrentam desafios clínicos e estruturais

A fibromialgia passou a ter novo enquadramento jurídico no Brasil após a sanção da Lei nº 15.176/2025, em vigor desde janeiro de 2026, que institui um programa nacional de proteção a pessoas com a condição e permite, mediante avaliação, o reconhecimento como pessoa com deficiência. O tema foi destacado por especialistas como avanço institucional, mas com permanência de desafios no diagnóstico e no tratamento.

A avaliação clínica e funcional dos pacientes, segundo médicos, continua sendo determinante para evitar diagnósticos imprecisos e garantir acesso adequado às políticas públicas previstas na legislação.

O debate ocorre em um contexto de alta prevalência da condição e de dificuldades relacionadas à identificação precoce e ao manejo terapêutico no sistema de saúde.

Fibromialgia afeta até 5% da população e exige diagnóstico clínico individualizado

De acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), a fibromialgia atinge entre 3% e 5% da população brasileira, com maior incidência em mulheres, embora também acometa homens, idosos, adolescentes e crianças.

A condição é caracterizada por dor difusa crônica, associada a sintomas como fadiga, distúrbios do sono, alterações cognitivas, ansiedade e depressão.

Segundo o neurocirurgião funcional da Unicamp, Dr. Marcelo Valadares, a doença está relacionada à sensibilização central do sistema nervoso, que amplia a percepção da dor.

“O reconhecimento legal ajuda a validar uma condição real, associada a alterações no processamento da dor pelo sistema nervoso central”, afirmou o especialista.

Sensibilização central e ausência de marcadores laboratoriais dificultam diagnóstico

A fibromialgia não apresenta lesões detectáveis em exames laboratoriais ou de imagem, o que contribui para diagnósticos tardios ou equivocados.

Segundo especialistas, essa característica reforça a necessidade de avaliação clínica detalhada e análise do histórico do paciente.

Dr. Marcelo Valadares explica que a ausência de marcadores objetivos pode gerar estigmatização e atrasar o início do tratamento adequado.

O diagnóstico depende da observação de sintomas persistentes e do impacto funcional da condição no cotidiano do paciente.

Lei define critérios para reconhecimento como pessoa com deficiência

A Lei nº 15.176/2025, em vigor desde janeiro de 2026, estabelece que pacientes com fibromialgia podem ser reconhecidos como pessoas com deficiência mediante avaliação biopsicossocial multiprofissional.

O processo considera aspectos como autonomia, capacidade laboral, impacto na saúde mental e resposta ao tratamento.

O objetivo é evitar tanto a subnotificação quanto a classificação automática de incapacidade.

A legislação também prevê ações de capacitação profissional, ampliação do atendimento multidisciplinar e incentivo a estudos epidemiológicos sobre a condição.

Tratamento da fibromialgia envolve abordagem multidisciplinar e reabilitação progressiva

Segundo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) de Dor Crônica do Ministério da Saúde/Conitec, o tratamento da fibromialgia deve ser multimodal.

As abordagens incluem educação em dor, atividade física progressiva, suporte psicológico, reabilitação e uso de medicamentos em casos específicos.

Entre os fármacos utilizados estão duloxetina, pregabalina, milnaciprano e amitriptilina, conforme perfil clínico do paciente.

O Dr. Marcelo Valadares destaca que o uso isolado de medicamentos não é suficiente para controle dos sintomas.

Atividade física e saúde mental são componentes centrais do tratamento

A prática de atividade física é apontada como elemento essencial no controle da fibromialgia, com foco em exercícios aeróbicos leves, fortalecimento muscular e alongamento.

Segundo especialistas, a progressão gradual da atividade contribui para a redução da sensibilidade do sistema nervoso.

O repouso prolongado pode agravar a limitação funcional, enquanto o excesso de esforço pode intensificar sintomas.

Além disso, condições como ansiedade, depressão e estresse crônico exigem acompanhamento psicológico integrado ao tratamento clínico.

Avaliação multidisciplinar é considerada essencial para melhora da qualidade de vida

O manejo da fibromialgia envolve integração entre diferentes áreas da saúde, incluindo medicina, fisioterapia e psicologia.

Segundo o Dr. Marcelo Valadares, a ausência de acompanhamento conjunto pode comprometer os resultados terapêuticos.

“O desafio é garantir a avaliação adequada. O médico precisa olhar para funcionalidade, impacto no trabalho, autonomia e saúde mental”, afirmou.

A recomendação de especialistas é que o tratamento seja individualizado e contínuo, com foco na funcionalidade do paciente.


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