Espetáculo “Maré Cheia” estreia em Salvador e retrata história da comunidade de Alagados

A capital baiana recebe, a partir desta sexta-feira (20/03/2026), o espetáculo “Maré Cheia: da lata d’água na cabeça à luta pelo chão”, que será apresentado no Centro Cultural SESI Casa Branca, às 19 horas. As apresentações seguem nos dias 21 e 22 de março, com entrada gratuita, e abordam a formação e resistência da comunidade de Alagados, a partir de relatos autobiográficos de três moradoras idosas da Península de Itapagipe: Elza Cândida, Josilda Moura e Maria do Amparo.

A obra, dirigida pela multiartista Alessandra Flores, transforma a experiência das atrizes em narrativa cênica, explorando temas como luta por moradia, memória coletiva, resistência urbana e protagonismo feminino negro. O espetáculo foi concebido no próprio território, conectando história, criação artística e autoria das protagonistas.

Ambientada no contexto da ocupação de Alagados, iniciada na década de 1940, a montagem recupera a construção das primeiras palafitas, o aterramento do local com entulho e lixo, e a consolidação de redes comunitárias. Nos anos 1970, a região chegou a reunir mais de três mil palafitas, e as mulheres tiveram papel central em mobilizações sociais, culturais e de solidariedade.

Criação coletiva e trajetória artística

Segundo a diretora Alessandra Flores, o espetáculo questiona quem tem o direito de contar a própria história, ao colocar mulheres negras e idosas como criadoras de sua dramaturgia. O projeto foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc Bahia (PNAB), com apoio do Governo do Estado da Bahia e do Ministério da Cultura.

“Maré Cheia” é resultado do projeto “Minha História Conto Eu”, iniciado em 2016, que transforma relatos de vida em obras artísticas. A experiência com o grupo Biogênese / GRUCON deu origem ao Coletivo Mulheres Marés e gerou criações como o boneco gigante “Maria Palafita”, o livro “Assoalho de Lembranças”, uma trilogia de vídeo poemas e o livro multimídia “As A(Voz) de Todas”, com textos de 20 mulheres afrodescendentes da CPLP.

Fragmentos dessas produções foram incorporados à dramaturgia de “Maré Cheia”, que inclui cartas, vídeos e cantos, enquanto ateliês de escrita e oficinas de teatro de bonecos envolveram mulheres com mais de 50 anos, consolidando o caráter coletivo e poético da obra.

Direção e processos artísticos

Alessandra Flores, atriz, artista plástica e jornalista, mestre e doutoranda em Artes Cênicas pelo PPGAC-UFBA, desenvolve há mais de duas décadas processos criativos colaborativos que transformam narrativas pessoais em espetáculos, livros e instalações. Criadora dos projetos “Lugar de GigAntes” e “Minha História Conto Eu”, participou de produções no Brasil e no exterior, inclusive em regiões de conflito como Kosovo e Índia, articulando arte, memória e território.

Para a diretora, “Maré Cheia” representa a realização de um desejo de levar mulheres negras ao palco, transformando suas experiências em criação artística e promovendo o reconhecimento da memória coletiva da comunidade de Alagados.

O espetáculo reafirma o potencial da criação coletiva como força de transformação social, conectando a história das protagonistas ao público e consolidando o palco como espaço de autoria e visibilidade cultural.


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