O espetáculo de dança “Cabeça Quente”, dos artistas Marcos Ferreira e Ruan Wills, estreia em Salvador na quinta-feira (01/10/2026), no Espaço Xisto Bahia. A montagem investiga raiva, ancestralidade, masculinidades e continuidade, tendo a força de Oyá como uma das referências centrais da pesquisa coreográfica. A temporada de estreia terá apresentações gratuitas em Salvador, Lauro de Freitas e no Espaço Cultural Alagados.
A primeira temporada começa no Espaço Xisto Bahia, em Salvador, com sessões nos dias 1º, 2 e 3 de outubro, às 20h. Após a apresentação do dia 3, haverá bate-papo com o público. Na sequência, a montagem será apresentada no Cine Lauro de Freitas, em 16 de outubro, às 19h, e no Espaço Cultural Alagados, em 22 de outubro, às 17h. As duas últimas sessões também terão bate-papo.
Todas as apresentações da temporada de estreia são gratuitas. Os ingressos podem ser retirados pela plataforma Sympla ou por meio do perfil @dembwa_. A montagem dá continuidade à pesquisa iniciada pelos artistas em Dembwa, trabalho que investigava a ancestralidade a partir da pergunta sobre a pessoa mais antiga conhecida na família.
Espetáculo investiga a raiva como consciência
Em Cabeça Quente, a raiva é utilizada como ponto de partida para a construção coreográfica. Segundo a proposta dos artistas, ela não é apresentada como sinônimo de ódio ou descontrole, mas como uma reação produzida pela consciência diante da violência e como possibilidade de movimento, transformação e continuidade.
A pesquisa é atravessada pelas experiências dos dois artistas, que se apresentam como homens negros, gays, candomblecistas e periféricos. A partir dessas experiências, o espetáculo questiona as formas pelas quais corpos negros, gays e periféricos são percebidos socialmente e investiga possibilidades de existência associadas à ancestralidade.
A criação também estabelece uma relação entre processos históricos de violência e formas de continuidade produzidas por comunidades negras. Nesse percurso, conceitos como memória, cultura, ritual, linguagem e comunidade aparecem relacionados à capacidade de transformação das experiências vivenciadas.
Do Daró ao vento de Oyá
Um dos fundamentos da pesquisa coreográfica é o Daró de Oyá, ritmo associado à yabá. A partir da estrutura ternária, os movimentos dialogam com manifestações como funk, frevo, maracatu, samba, arrocha, pagodão baiano, capoeira e danças presentes nas manifestações carnavalescas.
A coreografia trabalha com circularidade e sinuosidade, aproximando momentos de encontro e confronto entre os intérpretes. O corpo aparece tanto associado à preparação para os conflitos cotidianos quanto à capacidade de reconhecer situações, retornar e alterar direções.
Em determinado momento da apresentação, os intérpretes incorporam referências à búfala, associada a Oyá. Chifres, braços e musculatura compõem a movimentação, enquanto os pés estabelecem relações com brincadeiras da infância. O corpo-búfala passa por diferentes estados até se transformar em vento, enquanto elementos da capoeira e o eruexim — ferramenta associada a Oyá — integram a sequência coreográfica.
Masculinidades entram em discussão
A pesquisa coreográfica também aborda as construções sociais relacionadas ao masculino. O confronto físico presente em determinados momentos da obra conduz a uma reflexão sobre modelos de masculinidade e as referências que participaram da formação dos artistas.
A montagem utiliza como referência a expressão do cantor, compositor e pesquisador da ancestralidade musical pan-africana Mateus Aleluia, na canção O Sagrado Masculino: “o sagrado masculino é gestado e parido pelo sagrado feminino”.
A partir dessa perspectiva, a obra estabelece relação com mulheres que participaram da trajetória dos artistas, entre elas avós, mães, tias e irmãs, associando essas referências à formação de suas identidades e à necessidade de questionar modelos de masculinidade vinculados a estruturas coloniais e patriarcais.
Ancestralidade e continuidade orientam a criação
Para Marcos Ferreira e Ruan Wills, a presença de ritmos e danças do cotidiano na cena representa uma forma de manter os fundamentos culturais em movimento. A proposta não busca negar as referências ancestrais, mas transformá-las a partir das experiências do presente.
O percurso coreográfico é organizado por ações como receber, escutar, questionar, transformar e devolver. Enquanto Dembwa tinha como uma de suas questões centrais a identificação de quem veio antes, Cabeça Quente desloca a investigação para quem ensinou os artistas a serem quem são e quais aprendizagens precisam ser transformadas para garantir a continuidade de suas existências.
Nesse contexto, Ori, associado à cabeça, torna-se um território de investigação. A imagem da cabeça que esquenta, pensa e modifica sua temperatura articula as dimensões físicas e simbólicas da obra. Os corpos transitam entre força, confronto, dança e transformação, enquanto Oyá aparece como referência para compreender movimento e mudança.
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