Espetáculo “Maré Cheia” resgata luta por moradia em Alagados e estreia com apresentações gratuitas em Salvador

O espetáculo “Maré Cheia: Da lata d’água na cabeça à luta pelo chão” será apresentado nos dias 20, 21 e 22 de março de 2026, sempre às 19h, no Centro Cultural SESI Casa Branca, em Salvador. A montagem apresenta ao público relatos autobiográficos de três mulheres negras moradoras da Península de Itapagipe, que transformaram suas experiências na comunidade de Alagados em dramaturgia.

Com acesso gratuito, o espetáculo aborda memória, território e mobilização comunitária, a partir de histórias de vida ligadas à luta por moradia e organização social na região.

A produção é protagonizada por Elza Cândida, Josilda Moura e Maria do Amparo, moradoras que participaram diretamente da formação da comunidade e das mobilizações sociais ao longo das décadas.

Dramaturgia reúne relatos autobiográficos das protagonistas

O espetáculo parte de textos autobiográficos escritos pelas próprias atrizes, que utilizam corpo, palavra e memória como elementos centrais da narrativa cênica.

Durante a apresentação, as protagonistas revisitam episódios ligados à formação do território de Alagados e às mobilizações por moradia.

A proposta artística transforma experiências pessoais em dramaturgia, apresentando no palco trajetórias que fazem parte da história da comunidade.

Espetáculo revisita a formação histórica de Alagados

A montagem é ambientada no contexto da ocupação de Alagados, região de Salvador marcada por processos de organização comunitária desde a década de 1940.

Na época, famílias passaram a construir casas sobre palafitas nas áreas de maré, formando uma comunidade que cresceu ao longo das décadas.

Posteriormente, moradores realizaram aterros com resíduos e entulho, criando áreas firmes onde parte da população passou a viver.

Região chegou a concentrar milhares de palafitas

Durante a década de 1970, a região de Alagados chegou a reunir mais de três mil palafitas, segundo registros históricos.

A organização comunitária surgiu nesse contexto, com moradores articulando movimentos sociais, redes de solidariedade e iniciativas culturais.

Dentro dessas mobilizações, mulheres tiveram participação central nas ações comunitárias e nas reivindicações por melhorias urbanas e moradia.

Direção destaca protagonismo das mulheres na criação artística

O espetáculo tem direção da multiartista Alessandra Flores, que desenvolve projetos baseados em histórias de vida e criação artística colaborativa.

Segundo a diretora, a proposta da obra envolve discutir quem tem o direito de narrar a própria história e ocupar espaços de produção cultural.

Ao trazer mulheres negras e idosas como criadoras de sua própria dramaturgia, a obra afirma a experiência vivida como fonte de criação artística”, afirmou.

Projeto integra ações culturais da Política Nacional Aldir Blanc

O espetáculo foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc Bahia (PNAB).

O financiamento ocorre por meio do Governo do Estado da Bahia, através da Secretaria de Cultura do Estado, com recursos do Ministério da Cultura do Governo Federal.

O apoio integra programas de incentivo voltados ao fortalecimento da produção cultural e artística no estado.

Processo criativo começou em 2016

A criação do espetáculo está ligada ao projeto “Minha História Conto Eu”, iniciado em 2016 pela diretora Alessandra Flores.

A iniciativa busca transformar relatos pessoais em produções artísticas, utilizando diferentes linguagens como teatro, literatura e audiovisual.

O projeto teve desenvolvimento em parceria com o grupo Biogênese / GRUCON (Grupo de Consciência Negra da Bahia), que posteriormente originou o Coletivo Mulheres Marés.

Produções anteriores também exploram memória e território

Ao longo do processo criativo, surgiram outras obras relacionadas à memória da comunidade, incluindo o boneco gigante “Maria Palafita”, com mais de três metros de altura.

Também foram produzidos o livro “Assoalho de Lembranças”, uma trilogia de vídeo poemas e o livro multimídia “As A(Voz) de Todas”, que reúne textos de 20 mulheres afrodescendentes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Elementos dessas produções aparecem na dramaturgia do espetáculo, por meio de cartas, vídeos e cantos integrados à narrativa cênica.

Oficinas e ateliês ampliaram participação comunitária

Durante a criação do espetáculo, outras mulheres da comunidade participaram de atividades formativas voltadas à criação artística.

Entre as ações realizadas estão um ateliê de escrita para cena, conduzido por Mônica Santana, e uma oficina de teatro de bonecos, ministrada por Alessandra Flores.

Essas atividades contribuíram para ampliar o processo coletivo de construção da obra.

Diretora destaca processo de criação coletiva

Segundo Alessandra Flores, o espetáculo representa um processo de criação desenvolvido ao longo de vários anos com participação direta da comunidade.

Para a diretora, o trabalho também reflete o desejo de ampliar a presença de histórias locais e experiências pessoais no campo das artes cênicas.

Construímos mais uma ponte, agora com o público que vem assistir ao espetáculo”, afirmou.


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