A Lavagem do Bonfim voltou a reafirmar, nesta quinta-feira (15/01/2026), a centralidade da cultura afro-brasileira na formação histórica, religiosa e identitária de Salvador. Ao longo do tradicional percurso entre a Igreja da Conceição da Praia, no Comércio, e a Basílica do Senhor do Bonfim, a presença expressiva dos blocos de matriz africana consolidou o caráter simbólico e ancestral da celebração. Em 2026, a participação de 11 entidades culturais foi viabilizada pelo Programa Ouro Negro, política pública do Governo da Bahia voltada ao fortalecimento das manifestações populares de matriz africana.
Reconhecida como patrimônio imaterial do Brasil, a Lavagem do Bonfim é marcada pelo sincretismo religioso e pela expressividade cultural do povo negro. Tambores, cânticos e danças imprimiram ritmo e memória coletiva ao cortejo, reafirmando o papel histórico das agremiações afro na construção e preservação da festa ao longo de décadas. A edição de 2026 evidenciou, mais uma vez, a articulação entre fé, cultura e resistência, elementos que estruturam a identidade baiana.
Blocos afro reforçam ancestralidade e identidade no cortejo
A presença organizada dos blocos afro conferiu densidade simbólica à caminhada, reafirmando a Lavagem do Bonfim como espaço de afirmação cultural e política. As agremiações imprimiram ao percurso uma narrativa marcada pela ancestralidade, pela musicalidade de origem africana e pela valorização da memória negra na cidade.
O desfile também reforçou a dimensão coletiva da festa, ao integrar artistas, lideranças culturais e o público em um mesmo fluxo ritual. Para além do aspecto festivo, a participação dos blocos reafirmou a Lavagem como um território de visibilidade para expressões culturais historicamente marginalizadas.
Nesse contexto, o apoio institucional do Programa Ouro Negro foi apontado como decisivo para garantir estrutura, continuidade e presença efetiva dessas manifestações no espaço público, especialmente em eventos que extrapolam o calendário carnavalesco.
Retorno do Olodum marca momento simbólico da edição 2026
Entre os principais destaques da edição de 2026 esteve o retorno do Olodum à Lavagem do Bonfim após 25 anos. O bloco desfilou com um cortejo formado por 120 percussionistas, além de dançarinos e alegorias, ocupando novamente as ruas do circuito em um gesto de forte simbolismo histórico.
Segundo o presidente institucional do Olodum, Marcelo Gentil, a participação só foi possível graças ao apoio do Programa Ouro Negro. Ele destacou que a retomada da presença do bloco na Lavagem representa a recuperação de uma tradição interrompida e ressaltou a importância do fomento público para viabilizar a atuação das entidades culturais.
A entrada do Olodum no percurso provocou uma mudança perceptível no ambiente do cortejo. O som do samba-reggae arrastou uma multidão, transformando as ruas do Comércio em um grande corredor musical. Entre os participantes estava a assistente social Jéssica Nascimento, de 40 anos, que acompanha a Lavagem desde a infância e destacou o impacto emocional do retorno do bloco à celebração.
Política pública e preservação das manifestações culturais
Para dirigentes e integrantes de blocos afro, o apoio do Programa Ouro Negro tem impacto direto na preservação das manifestações culturais de matriz africana. Murilo Câmara, responsável pelos blocos Ki Beleza e Samba & Folia, ressaltou que a Lavagem do Bonfim sempre foi um desfile étnico protagonizado pelo povo negro, mas que esse caráter sofreu esvaziamentos ao longo do tempo.
Segundo ele, a política pública contribuiu para a retomada desse espaço por diversos grupos que haviam deixado de participar do cortejo. A presença dos blocos, nesse sentido, é vista como resultado direto de um processo de revalorização institucional das expressões culturais negras.
A percepção é compartilhada pelo público que acompanha a festa. A comerciante Maria da Conceição Santos, de 57 anos, destacou que a passagem dos blocos altera a dinâmica do cortejo e intensifica a experiência da celebração, combinando música, dança e religiosidade em um mesmo ritual coletivo.
Memória, resistência e continuidade cultural
O Programa Ouro Negro também é associado à memória das lutas históricas travadas pelos blocos afro por reconhecimento e apoio institucional. O cantor Tonho Matéria, à frente do bloco afro Mangangá Capoeira, destacou que a política representa uma inflexão na relação entre o poder público e as manifestações culturais de matriz africana.
Segundo ele, antes da criação do programa, esses grupos não dispunham de instrumentos regulares de fomento. A iniciativa passou a estruturar um trabalho contínuo, pensado ao longo de todo o ano, e não restrito ao período do Carnaval, contribuindo para a continuidade e profissionalização das agremiações.
No caso do Ilê Aiyê, o apoio dialoga diretamente com uma trajetória marcada pela resistência e pela afirmação do povo negro. Edmilson Lopes, diretor da associação, afirmou que o programa possibilita o retorno de blocos que estiveram afastados da festa por longos períodos, fortalecendo o papel cultural e social dessas instituições.
Investimento recorde reforça papel do Programa Ouro Negro
O Programa Ouro Negro é uma iniciativa do Governo da Bahia voltada à valorização de blocos afro, afoxés, grupos de samba, reggae e blocos de índio, assegurando que tradição e ancestralidade ocupem lugar central nas festas populares do estado. Em 2026, o programa contou com investimento recorde de R$ 17 milhões.
Na Lavagem do Bonfim, a política pública reafirmou seu papel como instrumento essencial para a valorização, preservação e continuidade das manifestações culturais de matriz africana, fortalecendo a identidade, a memória e a presença do povo negro nos espaços simbólicos da cidade.
Blocos apoiados pelo Programa Ouro Negro na Lavagem do Bonfim 2026
- Afrodescendentes da Bahia
- Bloco da Saudade
- Ilê Aiyê
- Ki Beleza
- Leva Eu
- Malê Debalê
- Mangangá Capoeira
- Mundo Negro
- Olodum
- Proibido Proibir
-
Samba & Folia


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