Com lotação máxima nos dois dias de programação, o Encontros Negros 2025 encerrou sua quarta edição, no Cineteatro 2 de Julho, em Salvador, reafirmando o protagonismo da negritude na construção de uma sociedade mais plural e democrática. O evento, realizado entre quinta e sexta-feira (06 e 07/11/2025), reuniu artistas, pesquisadores, comunicadores, gestores e estudantes em uma ampla agenda de debates, apresentações e reflexões sobre representatividade, resistência e identidade negra contemporânea.
Reflexões sobre ancestralidade e poder da narrativa
A abertura da programação ocorreu na quinta-feira (06/11/2025) com a mesa “Sinfonia Preta: Ecos de Resistência e Existência”, que reuniu MV Bill e Kmila CDD, sob mediação de Beatriz Almeida. O debate destacou o papel da arte como instrumento de transformação social.
Segundo MV Bill, o evento simboliza a importância da coletividade e do aprendizado mútuo.
“O Encontros Negros nos conecta e fortalece o coletivo. Falar de história e respeito é parte da construção do futuro”, afirmou. Ele também ressaltou o crescimento das mulheres no rap e o impacto das narrativas femininas na redefinição das referências culturais brasileiras.
Na sequência, a mesa “Comunicar é Reivindicar: Vozes Negras e o Poder da Narrativa”, com Raoni Oliveira e Jéssica Almeida, mediada por Midiã Noelle, abordou o papel da comunicação e das mídias negras na disputa de narrativas. Raoni destacou que a representatividade deve ser contínua:
“É sobre transformar narrativas e garantir que nossas vozes ecoem o ano inteiro.”
Juventude e engajamento social
Para Camilla França, sócia-diretora da Umbu Comunicação & Cultura e idealizadora do projeto, o evento cumpre o papel de ampliar redes de conhecimento e fortalecer a cultura negra como um dos pilares da identidade nacional.
“Representatividade é sobre inspirar e ser inspirado”, afirmou.
Entre o público, a estudante Thaina Iúbi, do Colégio Estadual Mário Costa Neto, destacou o impacto da experiência e a importância do evento na construção de novas perspectivas para a juventude negra.
“Estar aqui e ver pessoas negras ocupando o centro das discussões é um símbolo de transformação social”, afirmou.
Debates sobre racismo e desigualdade no Brasil
Na sexta-feira (07/11/2025), a programação manteve o auditório lotado. A mesa “Além das Quatro Linhas – Racismo no Esporte em Campo Aberto” reuniu os jornalistas Tiago Reis e Marcos Valentim, com mediação de Marina Aragão, em um debate sobre o racismo no esporte brasileiro.
Reis destacou a necessidade de cumprimento das leis antirracistas e punição efetiva aos casos de discriminação. Valentim reforçou a relevância do tema, afirmando que o racismo ainda é pouco discutido em setores com grande presença negra, como esporte e música.
A mesa final, “Os Negros, a Mídia, o Consumo e a Riqueza no Brasil”, com o antropólogo Michel Alcoforado e mediação da jornalista Cleidiana Ramos, analisou a relação entre racismo estrutural e desigualdade econômica. Alcoforado afirmou que a naturalização das hierarquias sociais sustenta a desigualdade no país, enquanto Cleidiana destacou o papel do evento na troca de saberes e experiências entre profissionais negros de diferentes áreas.
Salvador como território do pensamento negro
Com curadoria de protagonismo negro, paridade de gênero e contratações locais, o Encontros Negros 2025 reafirma Salvador como território de produção intelectual e cultural afro-brasileira. O evento também fortalece o afroturismo, a economia criativa e o pensamento antirracista.
A deputada federal Lídice da Mata destacou a importância da iniciativa para a formação cidadã dos jovens.
“A juventude negra tem direito a uma vida digna e essa consciência deve ser coletiva”, afirmou.
Sobre o Encontros Negros
Realizado pela Umbu Comunicação & Cultura, o projeto conta com apoio da ABMP, Livraria LDM, Imagem Digital, DMTZ Filmes e Bloco Alvorada, além de patrocínio do Governo do Estado, por meio da Bahiagás, Fundação Pedro Calmon, Secretaria de Turismo e Secom. Desde sua criação, o Encontros Negros atua como plataforma de valorização da intelectualidade negra, promovendo diálogos sobre arte, ancestralidade e cidadania.
As sócias-diretoras Camilla França e Mirtes Santa Rosa reforçam que o evento é um gesto político e cultural contínuo.
“O Encontros Negros é sobre ocupar espaços com nossas vozes e construir novas narrativas para o Brasil”, declarou Mirtes.


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