Genebra — Cerca de 2 bilhões de pessoas permanecem desconectadas da internet em 2026, apesar do avanço da conectividade global. O número representa aproximadamente 24% da população mundial, enquanto 6,3 bilhões de pessoas, ou 76%, utilizam a rede, segundo o relatório Fatos e Números 2026, divulgado pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência especializada da Organização das Nações Unidas (ONU), na terça-feira (03/11/2026).
O levantamento aponta que a expansão do acesso não ocorre de maneira equilibrada. A renda dos países, a localização geográfica, o gênero e a disponibilidade de infraestrutura continuam influenciando as oportunidades de conexão. A diferença é expressiva: 93% da população de países de alta renda utiliza a internet, contra apenas 32% nos países de baixa renda.
Desigualdade digital entre países
A publicação mostra que o crescimento do número de usuários não eliminou as barreiras econômicas e estruturais que limitam a inclusão digital. Em regiões com maior renda e infraestrutura consolidada, a conectividade se aproxima da universalização. Já em países de menor renda, custos elevados, cobertura insuficiente e dificuldades de acesso a dispositivos restringem a participação da população no ambiente digital.
A UIT ressalta que estar conectado tornou-se um fator relevante para o acesso à educação, ao emprego, aos serviços e às tecnologias emergentes. Nesse contexto, a desigualdade digital também pode ampliar diferenças sociais e econômicas entre países e grupos populacionais.
No espaço de língua portuguesa, o cenário reúne avanços e desafios. Brasil e Portugal apresentam taxas de utilização da internet entre 84% e 95%, conforme os dados apresentados no texto-base, e avançam na implantação de redes 5G e no desenvolvimento de aplicações relacionadas à inteligência artificial.
Conectividade nos países de língua portuguesa
Na África lusófona, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe enfrentam obstáculos relacionados à infraestrutura e ao custo dos serviços. O texto-base destaca que, na região subsaariana, o uso da internet permanece em até 36% da população. Em Angola e Moçambique, a ampliação da cobertura 4G e 5G no interior e a redução dos preços dos pacotes de dados estão entre os principais desafios.
Cabo Verde é citado entre os países que avançaram em metas de acessibilidade. Já Timor-Leste, na Ásia-Pacífico, enfrenta limitações estruturais semelhantes às observadas em pequenos Estados insulares em desenvolvimento, sobretudo em razão dos custos necessários à implantação de infraestrutura.
A situação evidencia que a expansão das redes precisa ser acompanhada por políticas de acesso financeiramente viável e investimentos em infraestrutura. A existência de cobertura não garante, por si só, que a população consiga utilizar a internet de forma regular, especialmente em localidades rurais e de menor renda.
Diferenças de acesso entre homens, mulheres e jovens
O relatório também identifica diferenças relacionadas ao gênero. 79% dos homens e 74% das mulheres utilizam a internet no mundo, indicando uma distância de cinco pontos percentuais entre os grupos. A UIT registra iniciativas de capacitação feminina no setor tecnológico, especialmente na África e na América Latina.
A idade também influencia os indicadores de conectividade. Entre pessoas de 15 a 24 anos, 86% utilizam a internet, percentual superior aos 74% registrados entre o restante da população. O dado demonstra a maior presença dos jovens no ambiente digital e sua participação em atividades relacionadas à comunicação, à educação e ao trabalho.
Apesar do avanço entre as novas gerações, a diferença entre áreas urbanas e rurais permanece significativa. 82% dos moradores das cidades estão conectados, enquanto o índice cai para 63% nas zonas rurais. A distância de 19 pontos percentuais afeta especialmente territórios extensos e localidades com menor oferta de infraestrutura.
Cobertura 5G expõe desigualdade tecnológica
A expansão da quinta geração de telefonia móvel também ocorre de forma desigual. De acordo com a UIT, as redes 5G alcançam 59% da população mundial. Nos países de alta renda, a cobertura chega a 86%, enquanto nas economias de baixa renda fica em apenas 4%.
O contraste também aparece no volume de dados consumidos. A média mensal de tráfego de banda larga móvel por assinatura é de 20 GB nos países de alta renda, aproximadamente seis vezes os 3,4 GB registrados nas economias de baixa renda. Essa diferença limita o acesso a conteúdos audiovisuais, cursos, serviços digitais e ferramentas que exigem maior capacidade de conexão.
A questão financeira representa outro obstáculo. O custo mediano global de uma cesta de banda larga móvel exclusivamente de dados equivale a 1,2% da renda nacional bruta per capita. Nos países menos desenvolvidos, porém, o percentual chega a 6,1%, comprometendo a capacidade de contratação dos serviços pelas famílias de menor renda.
Inteligência artificial amplia a importância da inclusão digital
A desigualdade de acesso ganha novas dimensões com a expansão da inteligência artificial. O uso dessas ferramentas depende de conexão estável, dispositivos adequados e conhecimentos para operar serviços digitais. Sem esses recursos, populações já afastadas da internet podem encontrar novas barreiras para acessar oportunidades de formação, trabalho e participação econômica.
A secretária-geral da UIT, Doreen Bogdan-Martin, afirmou que, na era da inteligência artificial, permanecer desconectado significa ficar de fora de oportunidades que vão da educação ao emprego. Ela defendeu a ampliação da conectividade e a oferta de condições para que o acesso seja efetivo em diferentes localidades.
O diretor do Departamento de Desenvolvimento de Telecomunicações da UIT, Cosmas Zavazava, também destacou que o crescimento do número de pessoas conectadas precisa resultar em benefícios concretos. Para ele, a expansão do acesso deve ser acompanhada pela prioridade à formação de competências digitais, permitindo que os usuários aproveitem os recursos tecnológicos disponíveis.
UIT defende conectividade significativa
O relatório Fatos e Números 2026 aponta que a inclusão digital não depende apenas da disponibilidade de sinal. A conectividade precisa reunir acessibilidade financeira, cobertura, qualidade dos serviços, dispositivos e capacitação dos usuários para permitir o uso efetivo da internet.
A redução das diferenças entre países de alta e baixa renda, entre cidades e áreas rurais e entre homens e mulheres exige políticas públicas e investimentos articulados. A ampliação das redes móveis, a oferta de serviços a preços compatíveis com a renda local e a formação digital aparecem como medidas necessárias para reduzir as barreiras.
Com 2 bilhões de pessoas ainda fora da internet, o desafio apontado pela UIT é transformar o crescimento da conectividade em acesso significativo. A agência considera que a inclusão digital será determinante para que os benefícios da inteligência artificial e de outras tecnologias alcancem diferentes grupos sociais e regiões do mundo.


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