Obesidade mais que triplica no Brasil em 33 anos, especialista explica por que preservar músculos é essencial no emagrecimento

A prevalência da obesidade entre brasileiros com 25 anos ou mais passou de 7,8%, em 1990, para 27,7%, em 2023, mais que triplicando em 33 anos. Os dados integram um estudo da série Carga Global de Doenças (GBD 2023), publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, que analisou indicadores de saúde em 17 países da América Latina. No período avaliado, o Brasil registrou o maior crescimento proporcional da prevalência de obesidade entre os países incluídos na comparação.

O cenário reforça a necessidade de ampliar as estratégias de prevenção e tratamento da doença, considerando fatores relacionados à alimentação, à atividade física, ao ambiente e às condições de saúde de cada indivíduo. Dados do Ministério da Saúde divulgados pelo sistema Vigitel indicaram que 25,7% dos adultos brasileiros viviam com obesidade em 2024, o equivalente a aproximadamente uma em cada quatro pessoas.

A situação também preocupa entre as faixas etárias mais jovens. Segundo estimativa do Atlas Mundial da Obesidade citada no material de referência, 177 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 19 anos viviam com obesidade no mundo em 2025. O número é global, e não corresponde exclusivamente à população brasileira.

Para o profissional de Educação Física e especialista em fisiologia do exercício Jauan Anselmo, o enfrentamento da obesidade não deve se limitar à redução do peso registrado na balança. Ele defende estratégias que considerem a composição corporal, a preservação da massa muscular e a adoção de hábitos que possam ser mantidos ao longo do tempo.

“Isso é uma questão de saúde que não pode ser tratada apenas pela aparência ou pelo número que aparece na balança. É preciso olhar para os hábitos alimentares, o nível de atividade física, a qualidade do sono e o histórico de saúde. O exercício físico, especialmente quando bem orientado, é uma ferramenta importante tanto na prevenção quanto no tratamento, mas precisa fazer parte de uma estratégia consistente, possível de manter”, explica o especialista.

Preservação da massa muscular durante o emagrecimento

Um dos pontos destacados por Anselmo é o risco de priorizar a perda rápida de peso sem considerar quais tecidos corporais estão sendo reduzidos. Dietas muito restritivas, especialmente quando não são acompanhadas de orientação profissional e exercícios de força, podem contribuir para a perda de massa muscular, além da redução da gordura corporal.

A proporção de massa magra perdida durante o emagrecimento varia conforme o déficit energético, a alimentação, a prática de exercícios, a idade e outras características individuais. Estudos sobre restrição calórica indicam que uma parcela relevante do peso eliminado pode corresponder à massa magra em determinadas condições. A estimativa de que essa parcela pode representar de 25% a 33% do peso perdido deve ser interpretada de acordo com o contexto e o protocolo analisado, não como uma proporção fixa aplicável a todas as pessoas.

“A pessoa pode até ver o peso baixar rapidamente, mas isso não significa necessariamente que esteja perdendo gordura na proporção desejada. Quando há perda excessiva de massa muscular, o organismo também perde força e capacidade funcional. Por isso, o objetivo deve ser melhorar a composição corporal, reduzindo a gordura e preservando a musculatura”, afirma Jauan Anselmo.

A massa muscular participa de funções importantes para a força, a mobilidade, a autonomia e a realização das atividades cotidianas. Sua preservação integra, portanto, os cuidados de saúde durante o emagrecimento, sobretudo quando o processo envolve mudanças na alimentação e no nível de atividade física.

Treinamento de força e alimentação adequada

Entre as medidas citadas pelo especialista está o treinamento de força, como a musculação, adaptado à condição física e às necessidades de cada pessoa. Quando combinado a uma alimentação adequada, esse tipo de exercício pode ajudar a preservar a massa magra durante a redução de gordura corporal.

A ingestão de proteínas também deve ser considerada no planejamento alimentar. A quantidade necessária varia conforme fatores como idade, peso, nível de atividade física e condições clínicas. Por isso, a adequação da dieta deve ser individualizada, preferencialmente com acompanhamento de nutricionista e, quando necessário, de outros profissionais de saúde.

“Musculação não é apenas para quem quer ganhar músculos ou melhorar a estética. O treinamento de força é uma ferramenta de saúde e deve fazer parte das estratégias de prevenção e tratamento da obesidade, respeitando as condições de cada pessoa. O importante é construir um plano que combine exercícios, alimentação adequada e regularidade, em vez de apostar em soluções radicais que não se sustentam”, orienta Anselmo.

A recomendação não significa que todas as pessoas devam começar com treinos intensos. A atividade física precisa respeitar a capacidade individual, eventuais limitações e as orientações profissionais. Para quem está sedentário ou tem condições de saúde que exigem cuidados específicos, a progressão gradual pode facilitar a adaptação e a continuidade.

Prevenção começa com hábitos sustentáveis

A prevenção da obesidade envolve fatores que vão além das escolhas individuais. Condições de trabalho, acesso a alimentos adequados, espaços para a prática de atividades físicas, segurança e oportunidades de lazer também podem influenciar a rotina e o comportamento da população.

Entre crianças e adolescentes, incentivar brincadeiras ativas, esportes e outras formas de movimento, além de reduzir períodos prolongados de sedentarismo, pode contribuir para uma rotina mais saudável. A participação das famílias, das escolas e do poder público é importante para ampliar o acesso a oportunidades de atividade física desde a infância.

Para adultos, a orientação é incorporar o movimento de forma progressiva ao cotidiano, considerando a condição física e a disponibilidade de cada pessoa. Caminhadas e outras atividades compatíveis com as necessidades individuais podem fazer parte de um plano mais amplo, que inclua exercícios de força, alimentação equilibrada e atenção ao sono.

“Não existe uma fórmula única para todos. Uma pessoa sedentária precisa de um planejamento diferente daquele que já treina há anos. É possível começar com metas pequenas e evoluir progressivamente. O que faz diferença é a continuidade. A prevenção não depende de uma dieta milagrosa ou de semanas de esforço extremo, mas de mudanças que possam ser mantidas na vida real”, destaca Jauan Anselmo.

Tratamento exige acompanhamento individualizado

A obesidade é uma condição complexa, associada a fatores biológicos, comportamentais, ambientais e sociais. Por esse motivo, a prevenção e o tratamento devem considerar as necessidades específicas de cada pessoa, sem reduzir o cuidado a metas estéticas ou a resultados imediatos na balança.

A atividade física é um componente relevante desse processo, mas não substitui as demais medidas de cuidado. A avaliação médica, a orientação nutricional e o acompanhamento de profissionais habilitados podem contribuir para a definição de estratégias adequadas, especialmente quando há doenças associadas ou limitações para a prática de exercícios.

Os dados do estudo GBD 2023 mostram a dimensão do avanço da obesidade no Brasil entre 1990 e 2023. Na avaliação de Anselmo, a resposta deve combinar prevenção, acesso à atividade física, alimentação adequada e acompanhamento individualizado. O objetivo do emagrecimento deve incluir a redução da gordura corporal e a preservação da força e da funcionalidade, com mudanças compatíveis com a realidade de cada pessoa.


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