As mulheres representam apenas 22% dos profissionais de inteligência artificial (IA) no mundo e ocupam 14% dos cargos de liderança relacionados à tecnologia, segundo o Panorama de Igualdade de Género de 2026, divulgado pela ONU Mulheres. Os dados, publicados em 19 de outubro de 2026 (segunda-feira), evidenciam a desigualdade de gênero em um setor que influencia cada vez mais o mercado de trabalho, a economia e as relações sociais.
De acordo com o relatório, os homens ocupam quase oito em cada dez postos de trabalho na área de inteligência artificial e aproximadamente nove em cada dez posições de liderança responsáveis por orientar o desenvolvimento dessa tecnologia. A disparidade demonstra que a expansão do setor não tem sido acompanhada pela participação equilibrada de mulheres nos espaços profissionais e decisórios.
O documento também aponta que as mulheres têm cerca de 20% menos probabilidade de utilizar ferramentas de inteligência artificial generativa em comparação com os homens. Para a organização, a diferença de acesso e participação pode ampliar desigualdades já existentes, tanto na formação profissional quanto nas oportunidades econômicas associadas à transformação digital.
Desigualdade de gênero na liderança tecnológica
O Panorama de Igualdade de Género de 2026 destaca que a sub-representação feminina na inteligência artificial ocorre em diferentes níveis, desde a composição da força de trabalho até os cargos responsáveis por definir prioridades, estabelecer regras e orientar a aplicação dos sistemas tecnológicos.
A diretora de Políticas, Programas e Apoio Intergovernamental da ONU Mulheres, Sarah Hendricks, afirma que a exclusão de mulheres desse processo representa a ausência de uma parcela significativa do talento disponível no mundo. Segundo ela, a participação igualitária é fundamental para desenvolver, governar e regulamentar a inteligência artificial.
A organização ressalta que a presença feminina nas decisões relacionadas à IA é relevante para que os sistemas sejam desenvolvidos e utilizados considerando diferentes experiências sociais. A diversidade entre profissionais e dirigentes pode contribuir para identificar riscos, limitações e possíveis efeitos discriminatórios das ferramentas tecnológicas.
Inteligência artificial amplia riscos de violência digital
Além das desigualdades no mercado de trabalho, o relatório chama a atenção para o uso da inteligência artificial em práticas de violência contra mulheres e meninas. Segundo a ONU Mulheres, a escala, a velocidade e a gravidade da violência facilitada pela tecnologia têm aumentado nos últimos anos, em um contexto no qual estereótipos de gênero e discriminação estrutural continuam presentes.
Um estudo citado pela organização identificou que quase um em cada quatro incidentes de violência online contra defensoras dos direitos humanos, ativistas e jornalistas envolveu o uso de inteligência artificial. O dado evidencia a dimensão do problema para mulheres que atuam em espaços públicos e estão expostas a ataques digitais relacionados à sua atividade profissional ou social.
A utilização de recursos de IA pode facilitar a produção e a disseminação de conteúdos manipulados, falsos ou abusivos. Nesse cenário, a organização destaca a necessidade de considerar a proteção dos direitos das mulheres nas políticas de governança tecnológica e nas medidas de prevenção à violência digital.
Mulheres enfrentam maior exposição às mudanças no trabalho
Os efeitos da inteligência artificial também alcançam as oportunidades de emprego e a organização das atividades profissionais. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), as ocupações dominadas por mulheres têm quase o dobro da probabilidade de serem afetadas pela IA generativa, em comparação com as atividades profissionais predominantemente exercidas por homens.
A exposição à tecnologia não significa necessariamente que todos esses postos de trabalho serão eliminados. A inteligência artificial generativa pode automatizar tarefas, modificar atribuições profissionais e exigir novas competências, com consequências que variam de acordo com a ocupação e a forma de adoção dos sistemas.
A desigualdade de acesso à tecnologia, a baixa representação feminina nas equipes de desenvolvimento e a concentração masculina nos cargos de liderança constituem fatores relevantes para o debate sobre o futuro do trabalho. A combinação desses elementos reforça a importância de ampliar a qualificação profissional, o acesso às ferramentas digitais e a participação das mulheres nos processos de decisão.
Participação feminina é central para a governança da IA
Para a ONU Mulheres, a expansão da inteligência artificial exige políticas que promovam igualdade de oportunidades e considerem os impactos diferenciados da tecnologia sobre mulheres e homens. A organização defende que a participação feminina seja incorporada ao desenvolvimento, à regulamentação e à supervisão dos sistemas de IA.
Os dados do relatório de 2026 mostram que a desigualdade não se limita à contratação de profissionais. Ela também aparece no acesso às ferramentas, na ocupação de posições estratégicas e na exposição a riscos digitais e mudanças no mercado de trabalho.
O desafio, portanto, envolve ampliar a presença das mulheres nas carreiras tecnológicas e nos cargos de liderança, além de fortalecer mecanismos de proteção contra a violência online. A inclusão feminina no desenvolvimento e na governança da inteligência artificial é um dos pontos centrais para reduzir desigualdades e promover o uso responsável da tecnologia.


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