Brasil apresenta na OMC soluções que transformam resíduos em negócios

O Brasil apresentou na Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra, na Suíça, experiências relacionadas à economia circular e ao reaproveitamento de resíduos como estratégia de desenvolvimento econômico. O debate ocorreu durante o Public Forum da entidade, em painel promovido pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e pela Missão Permanente do Brasil junto à OMC.

Realizado em quinta-feira (01/10/2026), o encontro discutiu como soluções envolvendo comércio, competitividade, inovação, inclusão, tecnologia e financiamento podem contribuir para ampliar iniciativas de economia circular. A programação reuniu diplomatas, empresas e organizações internacionais interessadas nas transformações em curso no comércio global.

A sessão, intitulada “Serviços Circulares para uma Economia Circular Inclusiva”, contou com participação de representantes da Alpargatas, So+ma, Instituto Brasileiro de Economia Circular e PCX Solutions. Segundo a ApexBrasil, o painel apresentou diferentes perspectivas sobre a utilização de serviços e ferramentas para ampliar a recuperação de materiais e criar novas oportunidades econômicas.

Economia circular conecta resíduos, indústria e comércio

As experiências apresentadas durante o painel mostraram iniciativas em que resíduos são reinseridos em cadeias produtivas, aproximando empresas, consumidores, recicladores e outros agentes. Entre os exemplos discutidos estavam a transformação de chinelos usados em novos produtos, plataformas digitais destinadas ao rastreamento do retorno de materiais e mecanismos de financiamento para recuperação de resíduos.

A discussão também abordou a economia circular para além da redução do desperdício. De acordo com o conteúdo apresentado no evento, o conceito envolve competitividade, inovação, comércio, resiliência, geração de empregos e inclusão, além das questões ambientais tradicionalmente associadas ao reaproveitamento de materiais.

A gerente de Indústria e Serviços da ApexBrasil, Mariele Christ, destacou a possibilidade de ampliar a participação de empresas brasileiras no mercado internacional a partir de modelos produtivos baseados na circularidade. A representante também apontou a necessidade de modificar a forma como produção e consumo são planejados, considerando oportunidades de inovação e geração de valor ao longo das cadeias.

Logística reversa cria novos destinos para materiais descartados

Um dos exemplos apresentados foi o programa de logística reversa da Havaianas, que recolhe chinelos usados para dar novos destinos à borracha. Segundo as informações apresentadas no painel, a iniciativa começou em 2020 e está presente em mais de 500 lojas.

Até o momento, o programa citado no evento recolheu quase 1 milhão de pares de chinelos, equivalentes a pouco mais de 200 toneladas de material. A borracha recuperada pode ser utilizada na fabricação de produtos como pisos, móveis e acessórios, mantendo o material em circulação após o uso original.

O modelo exemplifica uma das premissas da economia circular: ampliar o período de utilização dos materiais e reduzir a necessidade de descarte. Nesse processo, a logística reversa conecta fabricantes, pontos de coleta e agentes responsáveis pela recuperação e transformação dos resíduos.

Tecnologia e financiamento entram na transição circular

A discussão na OMC também apontou que a transição para modelos circulares depende da integração entre diferentes participantes das cadeias produtivas. Entre os mecanismos mencionados estão logística reversa, gestão de resíduos, ferramentas digitais, utilização de dados, capacitação e financiamento.

A diretora da Divisão de Comércio Sustentável e Inclusão do International Trade Centre, Vanessa Erogbogbo, defendeu durante o painel a criação de mecanismos capazes de manter materiais em circulação e preservar sua capacidade de gerar valor. A proposta envolve a articulação entre empresas, consumidores, recicladores, municípios e outros agentes.

Outro ponto apresentado foi a necessidade de ampliar o acesso a recursos financeiros destinados à economia circular, especialmente no Sul Global. Stefanie Beitien, representante da PCX Solutions, citou os créditos de plástico como um dos mecanismos que podem contribuir para financiar iniciativas de recuperação de resíduos.

Economia circular é tratada como estratégia de inserção internacional

A presidente do Instituto Brasileiro de Economia Circular, Beatriz Luz, defendeu durante o encontro que o tema seja incorporado à estratégia econômica brasileira e à discussão sobre a posição do país no mercado internacional. A avaliação apresentada no painel associa circularidade a desenvolvimento, segurança econômica e posicionamento competitivo.

A ApexBrasil também relacionou a economia circular à possibilidade de criação de novos modelos de negócios e de ampliação da atuação de empresas brasileiras no exterior. Nesse contexto, o reaproveitamento de resíduos passa a ser considerado dentro de uma cadeia que envolve produção, consumo, recuperação de materiais e comércio.

A discussão realizada em Genebra inseriu as experiências brasileiras em um debate internacional sobre serviços circulares e comércio sustentável, aproximando iniciativas empresariais, instituições especializadas e representantes governamentais. O painel teve participação exclusivamente feminina, reunindo experiências do setor privado, organizações especializadas e representantes internacionais.

Experiências brasileiras dialogam com iniciativas de reciclagem na Bahia

A discussão internacional sobre reaproveitamento de resíduos também encontra correspondência em iniciativas desenvolvidas na Bahia. Em Feira de Santana, por exemplo, cooperativas de reciclagem reaproveitaram 60 toneladas de resíduos sólidos recicláveis em 2025, segundo dados da Secretaria Municipal de Serviços Públicos publicados pelo Jornal Grande Bahia. A atividade envolve triagem, reaproveitamento e destinação adequada de materiais.

Outra iniciativa registrada pelo Jornal Grande Bahia é o Projeto Repense Reuse, que estruturou em Feira de Santana uma rede de coleta de resíduos têxteis. A ação contabilizou 50 toneladas de roupas, calçados e acessórios arrecadados, direcionando os materiais para processos de triagem, reutilização e destinação compatível.

Em escala industrial, a Bracell informou o reaproveitamento de resíduos florestais e industriais para geração de energia renovável. A empresa relatou produção mensal de 93.064 toneladas de biomassa líquida e 6.985 toneladas de biomassa sólida, parte da qual é utilizada internamente e parte direcionada a empresas parceiras. O modelo foi associado pela companhia à estratégia de economia circular.

O desafio de transformar resíduos em valor econômico

Os debates realizados na OMC mostram que a economia circular envolve uma cadeia mais ampla do que a reciclagem convencional. A proposta apresentada pelas instituições participantes considera desde o desenho dos processos produtivos e a logística reversa até o financiamento, a tecnologia e o acesso a mercados.

Para o Brasil, a discussão também está relacionada à capacidade de empresas desenvolverem produtos e serviços a partir de materiais recuperados e ampliarem sua inserção em mercados que demandam soluções associadas à sustentabilidade. A ApexBrasil apresentou a circularidade como uma possibilidade de conexão entre empresas brasileiras e oportunidades do comércio internacional.

As experiências discutidas em Genebra, como o reaproveitamento de borracha de chinelos e os mecanismos de financiamento da recuperação de resíduos, mostram diferentes etapas desse processo. O debate apresentado no Public Forum da OMC reforçou, portanto, a relação entre gestão de resíduos, inovação, competitividade, geração de valor e comércio internacional.


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