O Setembro Amarelo amplia, ao longo do mês, o debate sobre saúde mental e prevenção do suicídio, tema que, segundo a psicóloga Bianca Reis, precisa ser tratado durante todo o ano. Para a especialista, romper o silêncio, reconhecer mudanças de comportamento e oferecer escuta sem julgamentos são medidas importantes diante de situações de sofrimento psíquico.
O tema ganhou atenção adicional em 2026 diante dos dados divulgados pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Segundo a entidade, 18.157 pessoas de 10 a 24 anos morreram por suicídio nas Américas em 2021. A taxa de mortalidade por suicídio nessa faixa etária aumentou 38% entre 2000 e 2021, enquanto o crescimento na população geral foi de 17%. O aumento foi mais acelerado entre mulheres e no grupo de 10 a 14 anos.
No Brasil, diferentes levantamentos oficiais e internacionais apresentam estimativas distintas conforme o período e a metodologia utilizada. O Ministério da Saúde mantém o suicídio como questão de saúde pública e orienta que pessoas em sofrimento procurem serviços como CAPS, Unidades Básicas de Saúde, unidades de emergência e o Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188.
Saúde mental exige atenção em diferentes fases da vida
Para Bianca Reis, um dos obstáculos à prevenção é a permanência de ideias equivocadas sobre o tema. Entre elas está a crença de que falar sobre suicídio poderia estimular esse comportamento. A psicóloga considera que o diálogo, quando conduzido de forma responsável e acolhedora, pode favorecer a identificação do sofrimento e a busca por ajuda.
“Durante muito tempo se acreditou que falar de suicídio levaria as pessoas a pensar em tirar a própria vida, o que é na verdade um grande mito. Quando temos um problema de saúde, precisamos falar sobre ele”, afirma Bianca Reis.
A especialista também chama atenção para a saúde mental de crianças e adolescentes. Segundo ela, manifestações de sofrimento não estão restritas à adolescência ou à vida adulta. O contexto familiar, escolar e social pode influenciar a maneira como crianças e jovens percebem a si próprios e enfrentam situações de dificuldade.
“Crianças não pagam boletos, mas elas podem estar pagando altos preços por aqui estarem existindo. Por isso, ideações suicidas não se manifestam apenas na adolescência, na idade adulta e na velhice, mas também na infância”, afirma a psicóloga. Ela cita 1.563 mortes por suicídio entre pessoas de 10 a 14 anos no Brasil entre 2012 e 2021, conforme os dados utilizados em sua análise.
Fatores associados ao sofrimento psicológico
A OPAS aponta que o aumento do suicídio entre adolescentes e jovens adultos nas Américas está relacionado a um conjunto de fatores que podem ser prevenidos ou tratados, incluindo problemas de saúde mental, uso de substâncias, pressão social, exposição a ambientes digitais, cyberbullying e acesso a meios letais. A organização destaca a necessidade de ampliar a detecção precoce e as intervenções em escolas e comunidades.
Bianca Reis também cita situações que podem contribuir para o agravamento do sofrimento psicológico, como conflitos familiares, agressões físicas, abusos psicológicos, homofobia, pressão relacionada aos estudos, separação dos pais, bullying e dificuldades financeiras. A presença desses fatores, entretanto, não deve ser interpretada isoladamente como causa de um comportamento suicida.
A psicóloga ressalta que o sofrimento psíquico resulta de múltiplos fatores e que cada situação precisa ser avaliada individualmente. Por isso, a identificação de alterações no comportamento deve ser acompanhada pela disposição de ouvir e pela orientação para buscar atendimento profissional.
Escuta e acolhimento fazem parte da prevenção
O entorno social de uma pessoa em sofrimento pode desempenhar papel relevante na busca por ajuda. Familiares, amigos, colegas e outras pessoas próximas podem contribuir mantendo canais de comunicação abertos, oferecendo escuta e evitando julgamentos ou expressões que desqualifiquem a experiência vivida.
“Tratá-las como incapazes de lidar com os próprios problemas, fracas, covardes ou de outra forma pejorativa ou preconceituosa não colabora. É necessária uma comunicação empática, compreensiva e solidária com o sofrimento do outro”, afirma Bianca.
A orientação do Ministério da Saúde também destaca o direito da pessoa em sofrimento de ser respeitada, levada a sério, escutada e encorajada a buscar recuperação. A rede pública dispõe de CAPS e Unidades Básicas de Saúde, enquanto situações de emergência podem ser encaminhadas para UPA 24 horas, SAMU 192, pronto-socorro e hospitais.
CVV oferece atendimento gratuito pelo telefone 188
Entre os canais disponíveis está o Centro de Valorização da Vida (CVV), que presta apoio emocional e prevenção do suicídio. O serviço atende gratuitamente pelo número 188, além de disponibilizar atendimento por canais digitais. O Ministério da Saúde informa que o serviço funciona 24 horas por dia e que a ligação é gratuita a partir de telefones fixos ou celulares.
A busca por atendimento profissional também é recomendada. Psicólogos, psiquiatras, neurologistas e outros profissionais de saúde podem avaliar cada situação e indicar o acompanhamento adequado. Para Bianca Reis, o suporte afetivo de familiares e amigos é importante, mas não substitui o atendimento especializado.
“Afeto e carinho são essenciais, mas não dispensam o acompanhamento psicológico/psicoterapêutico bem como médico/psiquiátrico/neurológico”, conclui a psicóloga.
Setembro Amarelo amplia debate sobre prevenção
O Dia Mundial de Prevenção do Suicídio é celebrado em 10 de setembro. Em 2026, a data foi marcada por iniciativas de organismos internacionais e órgãos públicos voltadas ao fortalecimento das políticas de prevenção e do cuidado em saúde mental. A OPAS informou que, em 2021, aproximadamente 100.760 pessoas morreram por suicídio nas Américas, região que apresentou aumento do indicador nas últimas duas décadas.
No Brasil, o Setembro Amarelo consolidou-se como período de mobilização para ampliar a informação sobre prevenção, sinais de sofrimento e formas de acesso à assistência. A campanha, entretanto, não se limita ao mês de setembro: o acompanhamento da saúde mental e a atenção a pessoas em sofrimento devem ocorrer durante todo o ano.
A principal orientação é não ignorar manifestações de sofrimento intenso ou falas relacionadas à falta de vontade de viver. Acolher sem julgamentos, incentivar a procura por ajuda e acionar os serviços de saúde quando houver risco são medidas que integram uma estratégia de prevenção baseada em informação, cuidado e acesso à assistência.
Onde buscar ajuda
- CVV – Centro de Valorização da Vida: telefone 188, gratuitamente e 24 horas.
- CAPS e Unidades Básicas de Saúde: atendimento e encaminhamento pela rede pública.
- UPA 24 horas, pronto-socorro e hospitais: para situações que demandem atendimento de emergência.
- SAMU: telefone 192 para emergências.
Em caso de risco imediato, é importante procurar atendimento de emergência e não deixar a pessoa sozinha. O Ministério da Saúde orienta a utilização da rede de urgência e emergência nesses casos.


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