Ozempic, Mounjaro e inteligência artificial ampliam busca por tratamentos estéticos

 A popularização de medicamentos para controle do peso, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, associada ao uso de redes sociais e ferramentas de inteligência artificial (IA), tem influenciado a busca por informações sobre emagrecimento e procedimentos estéticos. O movimento também preocupa especialistas diante do risco de automedicação, uso inadequado de medicamentos e adoção de tratamentos sem avaliação clínica.

Segundo o médico Octávio Guarçoni, da Guarçoni Health Center, informações obtidas em redes sociais, aplicativos e ferramentas de IA não substituem a avaliação de um profissional habilitado. Para o especialista, características individuais como idade, histórico clínico, uso de medicamentos, qualidade da pele, estrutura facial e expectativas do paciente precisam ser consideradas antes da definição de qualquer conduta.

Os medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1 têm indicações médicas específicas. No Brasil, a Anvisa reconhece, por exemplo, indicações do Wegovy (semaglutida) e do Mounjaro (tirzepatida) para controle de peso em determinadas condições clínicas, associados a dieta e atividade física.

Redes sociais e IA influenciam decisões sobre saúde

O texto-base cita estudo publicado na National Library of Medicine segundo o qual 53% dos entrevistados declararam utilizar medicamentos para perda de peso sem consultar um profissional de saúde. Também aponta que aproximadamente 68% dos participantes relataram influência das redes sociais na decisão de utilizar esses medicamentos.

O cenário ganha uma nova dimensão com ferramentas de inteligência artificial generativa. Segundo Guarçoni, usuários podem recorrer a chatbots para obter referências sobre alterações no rosto, emagrecimento ou procedimentos estéticos. O risco, segundo o médico, está em transformar respostas automatizadas em recomendações terapêuticas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também reforça que medicamentos à base de GLP-1 não são indicados indiscriminadamente. A entidade recomenda que esses tratamentos sejam considerados para adultos com obesidade mediante avaliação médica e dentro de uma abordagem que inclua alimentação adequada, atividade física e acompanhamento profissional.

Anvisa estabelece controle para medicamentos GLP-1

A preocupação com o uso inadequado também aparece no campo regulatório. A Anvisa determinou que medicamentos agonistas de GLP-1, incluindo produtos à base de semaglutida e tirzepatida, sejam comercializados com retenção da receita. A medida busca ampliar o controle sobre a utilização desses medicamentos.

Em julho de 2026, a OMS voltou a alertar para o aumento da utilização de agonistas de GLP-1 fora das indicações aprovadas e sem acompanhamento de profissionais de saúde. A organização citou ainda a aquisição desses produtos por plataformas on-line e canais informais como fator de preocupação sanitária.

Para Guarçoni, um dos principais problemas está na adoção de protocolos padronizados para pessoas com características clínicas diferentes. Segundo o médico, a escolha de um medicamento ou procedimento a partir da experiência de influenciadores, tendências digitais ou respostas automatizadas pode desconsiderar as causas específicas da queixa apresentada pelo paciente.

Avaliação individual deve anteceder procedimentos

Na medicina estética, o especialista afirma que a análise deve considerar o conjunto de características do paciente. Uma alteração facial, por exemplo, pode estar relacionada a diferentes fatores, como flacidez, redução de colágeno, alterações nos tecidos ou perda excessiva de peso, e cada situação pode demandar uma abordagem distinta.

O médico também alerta para o risco de procedimentos realizados com objetivo de reproduzir padrões apresentados nas redes sociais. A utilização de preenchimentos ou outras intervenções sem avaliação adequada pode produzir resultados incompatíveis com a estrutura facial e as características individuais.

A orientação é que informações obtidas por redes sociais, aplicativos ou inteligência artificial sejam utilizadas como fonte inicial de pesquisa, e não como substitutas da consulta médica. A definição de medicamentos, doses e procedimentos deve ocorrer conforme indicação profissional e normas sanitárias.

Uso responsável da tecnologia na saúde

A relação entre tecnologia e saúde também vem sendo discutida no Brasil. O Jornal Grande Bahia já publicou reportagem sobre inteligência artificial e saúde digital, abordando a utilização dessas ferramentas e os desafios relacionados ao atendimento e à gestão em saúde.

No caso dos medicamentos para emagrecimento, a OMS destaca que as terapias com GLP-1 devem integrar uma estratégia mais ampla de tratamento da obesidade. Medicamentos não substituem alimentação adequada, atividade física e acompanhamento profissional, segundo a organização.

Dessa forma, a expansão das ferramentas digitais e a popularização das chamadas canetas emagrecedoras aumentam o acesso a informações, mas também exigem critérios para diferenciar informação, publicidade, experiência pessoal e orientação médica. A avaliação individual permanece como etapa necessária para reduzir riscos e definir tratamentos compatíveis com as condições de cada paciente.


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