Quando a violência adoece: insônia, ansiedade e dores podem indicar agressões contra mulheres

A violência contra a mulher nem sempre produz marcas visíveis. Alterações no sono, ansiedade, depressão, mudanças repentinas de peso, dores frequentes e queixas relacionadas à saúde sexual e reprodutiva podem aparecer como manifestações associadas a situações de violência. Durante o Agosto Lilás, campanha dedicada ao enfrentamento da violência contra as mulheres, profissionais de saúde reforçam a importância de reconhecer esses sinais e ampliar o acolhimento às vítimas.

Embora a violência física seja uma das formas mais identificadas, agressões psicológicas, morais, sexuais e patrimoniais também podem provocar impactos na saúde física e mental. Segundo Carla Cardi, professora de Saúde da Mulher do curso de Enfermagem da Estácio, algumas mulheres chegam aos serviços de saúde com sintomas recorrentes, mas sem um diagnóstico que explique a combinação das queixas.

Entre os sinais citados pela especialista estão insônia, ansiedade, depressão, síndrome do pânico, perda ou ganho repentino de peso e dificuldades relacionadas à saúde sexual e reprodutiva. Dores de cabeça e problemas gastrointestinais também podem aparecer de forma recorrente. O conjunto de sintomas, especialmente quando persistente, pode levar a equipe de saúde a investigar situações de vulnerabilidade.

Sintomas físicos e emocionais podem exigir investigação

A avaliação também pode considerar infecções ginecológicas recorrentes, queixas relacionadas à saúde íntima e gravidez não planejada. Esses sinais, isoladamente, não comprovam uma situação de violência, mas podem justificar uma abordagem cuidadosa e individualizada por parte dos profissionais.

O acolhimento humanizado é apontado como parte importante desse processo. A mulher pode não reconhecer imediatamente que determinados sintomas estão relacionados à violência ou pode não se sentir segura para relatar a situação. Por isso, a escuta profissional deve considerar o contexto apresentado pela paciente e preservar sua segurança.

Nos casos de violência física ou sexual, a orientação é procurar atendimento de saúde o mais rapidamente possível. O serviço pode oferecer cuidados médicos, exames, medicamentos preventivos quando indicados e informações sobre direitos e mecanismos de proteção. A busca por atendimento não depende necessariamente da decisão imediata de registrar uma denúncia.

Atendimento de saúde integra a rede de proteção

De acordo com Carla Cardi, mesmo quando a mulher não pretende denunciar naquele momento, o serviço de saúde pode oferecer acolhimento, cuidado e orientação para a proteção. O acompanhamento também permite avaliar consequências físicas e emocionais e encaminhar a paciente para outros serviços da rede de proteção quando necessário.

Além da assistência individual, os registros realizados pelos profissionais de saúde contribuem para dimensionar a ocorrência da violência contra as mulheres e subsidiar políticas públicas. A identificação e a notificação dos casos ajudam a produzir informações para planejamento de ações de prevenção, atendimento e proteção.

O acompanhamento não se limita ao atendimento emergencial. A avaliação integrada dos impactos físicos e psicológicos permite identificar riscos e estabelecer encaminhamentos adequados. Em Feira de Santana, por exemplo, a atuação da rede de saúde no enfrentamento da violência contra a mulher já foi destacada em ações do Agosto Lilás.

Agosto Lilás reforça identificação e prevenção

O Agosto Lilás é realizado em agosto como parte das ações de conscientização e enfrentamento da violência contra as mulheres, em referência à Lei Maria da Penha. A campanha busca ampliar o conhecimento sobre as diferentes formas de violência e divulgar mecanismos de atendimento e proteção.

A identificação de alterações físicas e emocionais pode contribuir para que uma situação de violência seja percebida antes de novos episódios de agressão. Insônia persistente, ansiedade, dores recorrentes, alterações bruscas de peso e queixas repetidas de saúde não devem ser analisadas isoladamente quando há outros sinais de vulnerabilidade.

Para a rede de atendimento, o princípio é oferecer escuta, assistência e encaminhamento de acordo com as necessidades de cada caso. Buscar atendimento de saúde pode ser um dos caminhos para interromper o ciclo da violência e ampliar as possibilidades de proteção, independentemente de a vítima decidir denunciar naquele momento.


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