Gilberto Gil, Lagos e Bahia

Salvador, quarta-feira (12/08/2026) — A experiência de Gilberto Gil em Lagos durante o FESTAC ’77 integra as referências da pesquisa da artista, pesquisadora e curadora nigeriana Jumoke Sanwo, que apresenta nesta quarta-feira (12/08/2026), às 17h, no Goethe-Institut Salvador-Bahia, a performance “Isàlè̩ Apótí: Renda, Memória e a Vida Após o Comércio”. A atividade faz parte da Residência Artística Vila Sul e reúne música, têxtil, memória e performance para investigar conexões históricas e culturais entre Salvador e Lagos.

A partir da trajetória de Gilberto Gil e de sua passagem pela capital nigeriana no contexto do FESTAC ’77, Sanwo e o artista e pesquisador José Eduardo, fundador do Acervo da Laje, desenvolveram a playlist “Cartography of Gestures, Encounters, and Shared History – Salvador-Bahia to Lagos and Back”. A seleção reúne 25 músicas do acervo de vinis da instituição e estabelece uma relação sonora entre as duas cidades.

A pesquisa apresentada em Salvador também aborda a circulação de pessoas, objetos e práticas culturais entre Bahia e África, considerando processos históricos relacionados ao comércio e ao colonialismo. A proposta integra a programação da Residência Vila Sul, que em 2026 adotou o tema “Tecidos de Narrativas”.

Performance utiliza renda, música e memória

Um dos elementos centrais da performance é o Ojá, tecido presente nas tradições do Candomblé e associado à circulação do Axé. O material utilizado no trabalho foi iniciado por Adelide Ferreira de Lemos, integrante da Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira, a partir da técnica de renda Richelieu.

Durante a apresentação, o tecido será ativado por sons, gestos e intervenções, assumindo a função de elemento material para a investigação das relações entre Bahia e Nigéria. A proposta transforma o objeto têxtil em parte do processo de construção e transmissão de memória.

A pesquisa de Sanwo examina ainda a trajetória da chamada renda africana, observando como práticas têxteis se relacionam com processos de circulação cultural e econômica. Na descrição da Residência Vila Sul, a artista investiga o bordado industrial conhecido como renda africana e suas relações com práticas têxteis indígenas da Nigéria.

Pesquisa conecta Salvador e Lagos pela música

A experiência de Gilberto Gil no FESTAC ’77, realizado na Nigéria, constitui uma das referências para a construção da playlist cocurada por Sanwo e José Eduardo. As 25 faixas selecionadas a partir do acervo do Acervo da Laje funcionam como uma cartografia sonora entre Salvador e Lagos.

A proposta utiliza a música como instrumento para abordar encontros, deslocamentos e histórias compartilhadas entre os dois territórios. A seleção também estabelece diálogo entre a produção cultural baiana e referências africanas presentes na trajetória histórica das duas cidades.

O Acervo da Laje, ligado à pesquisa de José Eduardo, reúne obras, documentos e objetos relacionados à produção cultural do Subúrbio Ferroviário de Salvador. O acervo já integrou projetos e exposições em parceria com instituições culturais da cidade.

Residência Vila Sul promove intercâmbio artístico internacional

A Residência Artística Vila Sul, iniciativa do Goethe-Institut Salvador-Bahia, reúne artistas e pesquisadores de diferentes países para desenvolver trabalhos relacionados a temas culturais, sociais e históricos. Em 2026, o programa adotou o eixo “Tecidos de Narrativas” para orientar parte das pesquisas desenvolvidas pelos residentes.

A programação do ano inclui artistas internacionais e projetos que exploram o tecido como suporte material de histórias e como metáfora para a construção de narrativas. A temporada de 2026 também marca os dez anos de atividades da residência.

Para Leonel Henckes, diretor de operações da Residência Vila Sul/Goethe-Institut Salvador-Bahia, o intercâmbio possibilita o encontro entre diferentes formas de narrar experiências e contextos históricos. Segundo ele, a pesquisa de Sanwo permite abordar os vínculos entre Bahia e Nigéria por meio de música, tecido, ancestralidade e experiência coletiva.

Jumoke Sanwo pesquisa história, memória e narrativas

Baseada em Lagos, Jumoke Sanwo atua como pesquisadora artística e curadora e desenvolve trabalhos voltados à história, memória e aos processos de construção e transmissão de narrativas. Sua pesquisa utiliza diferentes linguagens, incluindo mídias baseadas no tempo, lettering com fios e desenho.

Na Residência Vila Sul, a artista amplia a investigação ao longo da rota transatlântica entre Nigéria e Bahia, com atenção à espiritualidade e ao simbolismo das vestimentas de renda branca utilizadas por Ìyálòrìṣà e Iyalorixás em Lagos e na Bahia.

Segundo o Goethe-Institut, essas vestimentas são analisadas como marcadores rituais e elementos relacionados à memória ancestral, comunicação divina e formação de identidades pós-coloniais. A pesquisa também considera a relação entre práticas têxteis, colonialismo e assimetrias econômicas na Nigéria.


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