Consultório cheio nem sempre significa lucro: Especialista alerta para erros financeiros que comprometem clínicas e consultórios

Ter uma agenda cheia e um fluxo constante de pacientes não garante, necessariamente, a saúde financeira de uma clínica ou consultório. Segundo a CEO da Referência Gestão de Saúde, Catarina Lima, muitos profissionais da área da saúde registram elevado faturamento, mas enfrentam dificuldades para honrar compromissos financeiros devido à ausência de planejamento, controle de custos e gestão adequada do fluxo de caixa.

De acordo com a especialista, um dos equívocos mais recorrentes é utilizar o faturamento como principal indicador de desempenho financeiro. Ela explica que o valor recebido não representa, por si só, o lucro da empresa, já que parte desses recursos está comprometida com impostos, fornecedores, folha de pagamento, manutenção da estrutura e outras despesas operacionais.

O cenário ganha relevância em um mercado cada vez mais competitivo, onde a capacidade técnica dos profissionais precisa ser acompanhada por práticas de gestão capazes de garantir sustentabilidade financeira e continuidade dos serviços.

Crescimento do setor aumenta a necessidade de gestão profissional

O mercado brasileiro da saúde segue em expansão. Segundo a Demografia Médica no Brasil, o país possui cerca de 640 mil médicos em atividade, o equivalente a aproximadamente três profissionais para cada mil habitantes.

Esse crescimento amplia a oferta de serviços e aumenta a concorrência entre clínicas e consultórios. No entanto, a formação de médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas e outros profissionais da saúde normalmente é direcionada ao atendimento clínico, sem aprofundamento em áreas como gestão financeira, precificação, planejamento empresarial e controle tributário.

À frente da Referência Gestão de Saúde, empresa que atua há mais de 16 anos e já prestou suporte a mais de 150 empresas do setor e cerca de 2 mil profissionais, Catarina Lima afirma que muitos empreendedores confundem saldo bancário com recursos efetivamente disponíveis.

Misturar finanças pessoais e empresariais compromete o caixa

Entre os principais problemas identificados pela especialista estão a mistura das despesas pessoais com as contas da empresa, a ausência de pró-labore definido, retiradas financeiras sem planejamento e a inexistência de uma reserva para imprevistos.

Também figuram entre os desafios o desconhecimento dos custos de cada atendimento, a precificação baseada apenas nos valores praticados pelos concorrentes e a falta de acompanhamento dos indicadores financeiros.

Segundo Catarina Lima, despesas como aluguel, equipe, tecnologia, manutenção de equipamentos, materiais, parcelamentos concedidos aos pacientes, inadimplência, glosas e atrasos nos repasses de convênios podem reduzir significativamente a margem de lucro, mesmo quando há aumento no número de atendimentos.

Precificação deve considerar custos e sustentabilidade do negócio

Para a especialista, definir o preço de consultas e procedimentos apenas com base no mercado pode comprometer a viabilidade financeira do empreendimento.

Ela afirma que a precificação deve considerar fatores como custos operacionais, carga tributária, consumo de recursos por procedimento, margem de lucro, necessidade de reinvestimento e geração de capital para manter a operação.

Segundo Catarina, compreender esses indicadores permite identificar quais serviços apresentam maior rentabilidade e auxilia no planejamento de investimentos, expansão da estrutura e contratação de profissionais.

Receita Saúde amplia exigências sobre controle financeiro

Outro fator destacado pela especialista é a obrigatoriedade do Receita Saúde, vigente desde 2025 para médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais que atuam como pessoas físicas.

O sistema exige a emissão eletrônica de recibos, cujas informações passam a integrar os registros fiscais do profissional e do paciente.

Na avaliação de Catarina Lima, a digitalização reduz o espaço para controles informais e amplia a necessidade de integração entre recebimentos, despesas, documentação fiscal e recolhimento de tributos, diminuindo riscos de erros, atrasos e inconsistências fiscais.

Monitoramento contínuo fortalece a sustentabilidade financeira

A especialista recomenda que clínicas e consultórios acompanhem mensalmente indicadores como faturamento, custos fixos e variáveis, margem de lucro, inadimplência, contas a receber, carga tributária, capital de giro e desempenho dos serviços prestados.

Ela também orienta que profissionais estabeleçam um pró-labore compatível, mantenham total separação entre finanças pessoais e empresariais, projetem receitas e despesas futuras e constituam uma reserva financeira para períodos de menor demanda ou gastos extraordinários.

Segundo Catarina Lima, a gestão financeira não substitui a atuação clínica, mas fornece informações que permitem decisões mais seguras, garantindo maior estabilidade para o profissional, sua equipe e a continuidade da assistência aos pacientes.


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