Embora sete em cada dez brasileiras iniciem a gestação preferindo o parto normal, a maioria dos nascimentos no Brasil continua ocorrendo por cesariana. Dados do Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam) 2025, do Ministério das Mulheres, apontam que 59,6% dos partos realizados no país em 2023 foram cesarianas, percentual superior ao observado em grande parte do mundo.
O cenário contrasta com levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), segundo o qual a maioria das gestantes manifesta preferência pelo parto normal no início da gravidez. Ainda assim, o Brasil permanece entre os três países com maior número de cesarianas no mundo, enquanto a taxa global desse procedimento é de aproximadamente 21%.
Diante desse contexto, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) lançou a campanha “Parto normal. Uma escolha que merece respeito”, iniciativa voltada ao fortalecimento da autonomia das gestantes e à disseminação de informações baseadas em evidências científicas.
Campanha incentiva decisões informadas durante a gestação
Lançada em junho de 2026, a campanha tem como conceito “Opinião não é informação” e procura estimular decisões relacionadas ao parto fundamentadas em orientação profissional, evidências científicas e respeito à escolha da mulher.
A iniciativa é veiculada em televisão, rádio, internet, redes sociais e painéis digitais instalados em espaços públicos. O conteúdo também está disponível em página específica voltada para gestantes, familiares e profissionais de saúde.
Segundo a chefe de Saúde e Nutrição do UNICEF no Brasil, Luciana Phebo, o objetivo da campanha é ampliar a autonomia das mulheres durante a gravidez, reduzindo a influência de opiniões, mitos e pressões externas sobre a decisão relacionada ao parto.
“O que nós queremos alcançar é que partos normais, quando indicados, sejam a preferência no Brasil. Essa autonomia não deve ser interferida por opiniões, mitos ou pressões sociais e institucionais. A cesariana continua sendo uma alternativa fundamental quando existe indicação médica baseada em critérios clínicos e evidências.”
Filmes retratam situações vividas por gestantes
A campanha utiliza filmes publicitários ambientados em locais do cotidiano, como supermercados e salões de beleza, para ilustrar situações em que mulheres grávidas recebem opiniões e julgamentos sobre a forma de nascimento de seus filhos.
De acordo com o UNICEF, as produções procuram demonstrar como comentários considerados comuns podem gerar insegurança, dúvidas e constrangimentos durante a gestação.
A chefe de Comunicação e de Mudança Social e de Comportamento do UNICEF Brasil, Sonia Yeo, afirma que a campanha é resultado de estudos que indicam que gestantes mais informadas, preparadas e conscientes de seus direitos tendem a sofrer menor influência de fatores externos no momento da escolha do parto.
Além dos filmes, a campanha conta com spots de rádio, conteúdos digitais e recursos de acessibilidade, incluindo intérprete de Libras, para ampliar o alcance das informações.
UNICEF destaca benefícios do parto normal quando há indicação clínica
Segundo o UNICEF, o parto normal é considerado seguro e recomendado para a maioria das gestações de risco habitual, respeitando o processo fisiológico do nascimento e proporcionando benefícios para mãe e bebê.
Entre as vantagens apontadas estão recuperação materna mais rápida, menor tempo de internação, facilitação da amamentação e melhor adaptação do recém-nascido após o nascimento.
Luciana Phebo destaca que a cesariana desempenha papel essencial quando existe necessidade clínica, mas ressalta que sua realização deve ocorrer somente mediante indicação médica baseada em evidências.
A representante do UNICEF afirma que muitas mulheres alteram sua preferência inicial ao longo da gestação devido à influência de relatos pessoais, informações sem respaldo científico e opiniões de pessoas que não integram a equipe de saúde.
Preparação durante a gravidez contribui para uma decisão consciente
O UNICEF também esclarece que optar pelo parto normal não significa enfrentar a dor sem assistência. Conforme avaliação da equipe de saúde e desejo da gestante, é possível utilizar analgesia durante o trabalho de parto.
Além da analgesia farmacológica, métodos não medicamentosos, exercícios e preparação prévia fazem parte das estratégias que podem contribuir para o controle da dor e para o bem-estar da gestante durante o nascimento.
Para Luciana Phebo, o acesso à informação qualificada ao longo do pré-natal é um dos principais fatores para que a mulher compreenda seus direitos, conheça as alternativas disponíveis e participe ativamente das decisões relacionadas ao parto.
Segundo o UNICEF, o objetivo da campanha é ampliar o debate público sobre o nascimento e reforçar que a escolha da via de parto deve ocorrer com base em evidências científicas, indicação médica quando necessária e respeito à autonomia da mulher.


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