A morte de Mãe Carmen de Oxaguian, ialorixá que por mais de duas décadas comandou o Ilé Ìyá Omi Àṣẹ Ìyámase, o Terreiro do Gantois, em Salvador, provocou manifestações oficiais de pesar e reafirmou a importância de seu legado para a cultura baiana. Falecida na madrugada desta sexta-feira, 26/12/2025, aos 98 anos — completaria 99 na próxima segunda-feira (29/12/2025) —, a líder religiosa teve sua trajetória destacada pela Secretaria de Turismo da Bahia (Setur-BA) como inspiração central do Projeto Agô Bahia, iniciativa voltada à valorização das religiões de matriz africana, ao combate à intolerância religiosa e à promoção do afroturismo no estado.
Legado religioso e atuação social
Iniciada no candomblé aos sete anos de idade, Mãe Carmen construiu uma trajetória marcada pela defesa da acessibilidade às referências da religiosidade de matriz africana, pela mediação cultural e por ações sociais desenvolvidas a partir do terreiro. À frente do Gantois por mais de 20 anos, consolidou o templo como espaço de acolhimento, preservação de saberes ancestrais e diálogo com a sociedade.
O Terreiro do Gantois, localizado no bairro da Federação, integra o circuito cultural e religioso de Salvador e recebe, anualmente, turistas nacionais e estrangeiros, atraídos pela história, pelos rituais e pela relevância simbólica do local para a identidade afro-brasileira.
Inspiração para o Projeto Agô Bahia
O trabalho de Mãe Carmen foi referência direta para a concepção do Projeto Agô Bahia, desenvolvido pela Setur-BA. A iniciativa atua em frentes complementares: valorização das tradições dos terreiros, promoção do afroturismo, estruturação de roteiros temáticos e execução de obras de melhoria em templos sagrados — entre eles, o próprio Gantois.
Segundo a secretaria, o projeto busca integrar políticas públicas de turismo com respeito ao patrimônio imaterial, garantindo visibilidade às práticas religiosas de matriz africana e ampliando oportunidades econômicas associadas ao turismo cultural.
Reconhecimento institucional
O titular da Setur-BA, Maurício Bacelar, destacou a contribuição direta da ialorixá para o desenho do Agô Bahia. “Tivemos aconselhamentos de Mãe Carmen, com toda a sua sabedoria, na elaboração do Agô Bahia, em uma parceria que dignifica o projeto. Agora, o legado dela servirá de inspiração para novas ações que iremos desenvolver, pelo fortalecimento das religiões de matriz africana e incremento do afroturismo. A ialorixá entra para a galeria sagrada das matriarcas do candomblé”, afirmou.
Tradição familiar e projeção nacional
Mãe Carmen, cujo nome civil era Carmen Oliveira da Silva, era filha mais nova de Mãe Menininha do Gantois, uma das mais emblemáticas ialorixás do Brasil e referência histórica do candomblé. A sucessão no comando do Gantois consolidou uma linhagem religiosa de projeção nacional, associada à preservação de ritos, à interlocução com o poder público e à defesa da liberdade religiosa.
O Gantois figura entre os terreiros mais conhecidos do país, com reconhecimento cultural amplo e papel relevante na formação da imagem de Salvador como capital da cultura afro-brasileira.


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