Paixão do Senhor no Vaticano destaca a “inteligência da Cruz” como expressão do amor que se doa

Na tarde desta Sexta-feira Santa (18/04/2025), a Basílica de São Pedro, no Vaticano, acolheu a celebração da Paixão do Senhor, com a presença de aproximadamente 4.500 fiéis. A cerimônia foi presidida por dom Claudio Gugerotti, prefeito do Dicastério para as Igrejas Orientais, em nome do Papa Francisco, e contou com a homilia de frei Roberto Pasolini, pregador oficial da Casa Pontifícia. Entre os presentes estava o vice-presidente dos Estados Unidos, James David Vance, acompanhado de sua família.

A celebração, que compõe o coração do Tríduo Pascal, seguiu o rito tradicional com a Liturgia da Palavra, a Adoração da Cruz e a distribuição da Sagrada Comunhão. A reflexão central proposta por Pasolini enfatizou o contraste entre a lógica do mundo moderno e a sabedoria contida na entrega de Cristo.

A inteligência da Cruz: amor incondicional em contraposição à eficiência calculada

Frei Roberto Pasolini destacou que a Paixão de Cristo representa uma ruptura com os padrões racionais contemporâneos:

“O mistério da paixão e morte de Cristo nos propõe outro tipo de inteligência: a inteligência da Cruz, que não calcula, mas ama; que não otimiza, mas se doa.”

Segundo o pregador, em tempos marcados por inteligências artificiais e decisões baseadas em algoritmos, a Cruz propõe uma liberdade autêntica, fundada não na eficiência, mas no amor que se entrega por inteiro.

A liberdade que antecede o sofrimento: o gesto voluntário de Jesus

Ao rememorar a cena do Getsêmani, Pasolini observou que Jesus, ciente do que lhe ocorreria, “deu um passo à frente”. A entrega não foi fruto de coação, mas de uma escolha consciente:

“Ninguém tira minha vida, eu a dou por mim mesmo.”

Essa atitude, segundo o pregador, redefine a relação com a dor e o fracasso, indicando que a fé transforma o sofrimento em libertação interior e entrega fecunda.

A sede como revelação do desejo de ser amado

Na sequência da homilia, frei Pasolini destacou o pedido de Jesus na cruz — “Tenho sede” — como expressão máxima de sua fragilidade assumida. O grito de sede não foi apenas físico, mas espiritual e relacional: o desejo de ser amado, inclusive em meio ao abandono.

“A sede de Jesus encontra o vinagre da terra, mas nela se realiza o encontro entre o desejo de Deus e a carência humana.”

“Tudo está consumado”: a cruz como plenitude e não fracasso

Para o pregador, a frase final de Jesus — “Tudo está consumado” — deve ser interpretada não como derrota, mas como a concretização do amor total. A cruz, sob essa perspectiva, não é o fim, mas o trono de um Rei que governa por amar e não por dominar.

Essa visão inverte a lógica dominante, transformando a limitação em possibilidade de doação e revelando uma sabedoria espiritual que não é artificial, mas relacional e aberta a Deus.

A cruz como trono da graça e instrumento de reconciliação

A homilia foi concluída com a exortação à adoração da cruz, não como símbolo de dor, mas como “trono da graça”, conforme a Carta aos Hebreus. Pasolini reforçou a centralidade da cruz como caminho exclusivo da salvação cristã:

“No coração deste Jubileu, escolhemos o caminho da cruz como a única direção possível para nossas vidas.”

O pregador concluiu recordando que o Espírito Santo fortalece os que se entregam, capacitando-os ao amor, inclusive pelos inimigos, e fazendo da fé cristã testemunho vivo da fraternidade universal.


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