A Seleção Brasileira de Ciclismo Paralímpico fez história no Campeonato Mundial de Ciclismo Paralímpico, que se encerra neste domingo (29/09/2024) em Zurique, Suíça. O Brasil alcançou diversas colocações no pódio, incluindo suas duas primeiras medalhas na classe de handbike masculina. A RFI Brasil conversou com um dos medalhistas para analisar o desempenho da equipe.
A competição, que teve início no sábado (21 /09), contou com a participação de 18 atletas brasileiros com deficiência física ou visual, além de uma atleta piloto. As conquistas nas provas de handbike são particularmente significativas para o paraciclismo brasileiro. Marcos Mello Júnior, natural de Nova Lima, Minas Gerais, conquistou o bronze na prova de estrada e a prata no contrarrelógio na categoria H1, uma classe dedicada a ciclistas que utilizam bicicletas impulsionadas pelas mãos. “Esta medalha é muito especial para mim, pois faz oito anos que estou no paraciclismo. Para o paraciclismo brasileiro, representa um marco, pois é a primeira vez que um atleta da categoria H ganha uma medalha fora do Brasil, em um campeonato de grande importância”, destacou Mello Júnior.
Na prova de contrarrelógio, Marcos finalizou com o tempo de 38 minutos e 35 segundos, atrás do italiano Fabrizio Cornegliani, que completou o percurso com mais de dois minutos de vantagem. O atleta enfatizou que, embora o resultado tenha sido satisfatório, o aspecto social e as interações com outros competidores durante a competição são igualmente valiosos. “A participação foi muito boa, não apenas pelo resultado, mas também pelas trocas de experiências e desenvolvimento pessoal que ocorrem durante as competições”, afirmou.
Marcos ingressou no paraciclismo por meio de um convite de um amigo praticante do esporte. “Tomei coragem e adquiri um equipamento básico, inferior ao que utilizo atualmente, que é bastante competitivo”, explicou. Ele possui tetraplegia, o que limita seus movimentos. “Apesar das dificuldades, o paraciclismo me oferece uma autonomia que a cadeira de rodas não proporciona. A velocidade alcançada é incomparável”, afirmou.
A modalidade é dividida em 13 classes, que consideram a natureza da deficiência do atleta e a escolha da bicicleta, com regras semelhantes às do ciclismo convencional. Contudo, Marcos destacou a dificuldade em encontrar equipamentos adaptados às necessidades individuais. “As adaptações nas bicicletas são muito pessoais e complexas. Nem sempre há opções no mercado que atendam às minhas exigências específicas”, afirmou, ressaltando o desafio de criar adaptações que possibilitem um desempenho satisfatório.
O financiamento do esporte é um tema recorrente entre os atletas paralímpicos. Marcos relatou que seu investimento inicial foi pessoal, uma realidade comum entre os praticantes. O patrocínio é escasso, e o apoio que recebe provém do programa Bolsa Atleta, que beneficia atletas que alcançam até a terceira posição em campeonatos relevantes. “A Confederação de Ciclismo auxilia com estadias e isenção de taxas de inscrição, o que é essencial para minimizar os custos e possibilitar a participação em mais competições ao longo do ano”, observou.
O treinamento de paraciclismo é orientado pelos ciclos de competição, variando de 30 minutos a três horas diárias, conforme a proximidade das competições. “O treinamento deve ser constante, pois a concorrência é forte e os adversários também se dedicam intensamente”, completou o atleta.
O Campeonato Mundial de Zurique encerra o ciclo paralímpico, segundo Edilson Rocha, coordenador de paraciclismo da Confederação Brasileira de Ciclismo. “A atualização do ranking ocorrerá em breve, e analisaremos os resultados e as posições dos atletas”, explicou. Ele destacou que, apesar do apoio do Comitê Paralímpico e do Ministério do Esporte, o Brasil ainda enfrenta dificuldades em alcançar o mesmo nível de países onde o ciclismo está mais consolidado. Edilson citou o desempenho da Holanda nos Jogos Paralímpicos de Paris 2024, ressaltando que a nação europeia conquistou 56 medalhas, sendo 16 delas oriundas do ciclismo.
Para o futuro, a Seleção Brasileira espera a construção de um novo velódromo no Centro de Treinamento Paralímpico em São Paulo, o que poderá potencializar o desenvolvimento do paraciclismo no país. Edilson destacou que bons resultados no Mundial podem elevar a visibilidade do esporte e facilitar a conquista de medalhas nas futuras edições dos Jogos Paralímpicos. Nos Jogos de Paris 2024, o Brasil teve seis atletas no paraciclismo, mas não conquistou medalhas.
O sucesso da Seleção Brasileira em Zurique é uma demonstração de que pessoas com deficiência podem alcançar altos níveis de desempenho no esporte. Até o momento, o Brasil já conquistou sete pódios na competição, incluindo a medalha de ouro de Jady Malavazzi na classe H3 feminina e outras medalhas em diferentes categorias.
*Com informações da RFI.


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