A cada último domingo de janeiro, a Igreja de São Lázaro e São Roque, na Federação, em Salvador, torna-se o epicentro de uma das celebrações mais marcantes da cidade: a Festa de São Lázaro. Mais do que uma tradição religiosa, esse evento transcende as fronteiras das missas e procissões, destacando-se entre as festividades de maior sincretismo religioso na capital baiana. Ao lado da Lavagem do Bonfim e da Festa de Santa Bárbara, a Festa de São Lázaro une visões distintas em um propósito comum: a busca pela saúde e a gratidão por graças alcançadas.
A preparação para a festa envolve um tríduo de três dias, culminando na celebração principal que ocorre neste domingo (28). Para muitos devotos, essa é uma oportunidade de pedir por cura, agradecer bênçãos e conectar-se com santos de cura, atribuindo-lhes o poder de melhorar a saúde. Entre esses devotos está a Ialorixá Tania Pereira de Jesus, de 57 anos, que, independentemente de sua hierarquia religiosa, há oito anos oferece banhos de pipoca em frente à igreja. Uma prática iniciada por orientação dos orixás, em resposta a um problema de saúde enfrentado por sua neta, Maria Eduarda, a Madu, que foi completamente curada.
Tania Pereira compartilha a emoção da festa: “Tenho uma boa convivência com os padres, podendo até mesmo entrar na igreja na hora do ofertório, com o balaio de pipoca e o incenso. São Lázaro e São Roque são santos que nossos ancestrais foram inteligentes em associar aos orixás, para cultivar e reverenciar de forma escondida, como era possível na época. Neste caso específico, tratam-se de dois santos que preservam a saúde das pessoas, sendo médicos do povo e protetores contra as enfermidades”.
Enquanto as três missas diárias acontecem dentro do templo religioso, no entorno da igreja, pessoas de diferentes credos participam de rituais diversos, acendendo velas, distribuindo flores, pós de cura e proteção, e realizando banhos de pipoca. A venda ou doação de artefatos acontece em um ambiente que reflete o sincretismo com o candomblé. A festividade envolve tanto elementos que remetem a São Lázaro quanto a Omolu/Obaluaê, sendo tratados como o mesmo orixá em algumas casas e como entidades distintas em outras.
O pároco da igreja, o missionário polonês Casimiro Malolepszy, envolvido com a festa há quatro décadas, ressalta a importância histórica do local. A ermida de São Lázaro foi erguida em uma propriedade que integrava um entreposto comercial no Século XVIII, recebendo africanos escravizados que chegavam debilitados pelos maus tratos. O local oferecia os primeiros cuidados sob a benção e proteção do orago da casa sagrada.
A festa, composta por missas, procissões e manifestações públicas, tem seu ápice na celebração solene e na procissão até o cemitério do Campo Santo, retornando ao templo para a benção do Santíssimo Sacramento. Fora da igreja, devotos realizam atos simbólicos como a lavagem das escadarias, distribuição de passes e bênçãos, proporcionando uma experiência rica em diversidade religiosa.
Este ano, sob o tema “São Lázaro: Amizade Social”, a festa faz referência à campanha da fraternidade de 2024, destacando a importância de superar as diferenças sociais. O pároco Casimiro enfatiza: “São Lázaro surge como aquele que, em seu primeiro momento, foi rejeitado porque vivia simplesmente como um mendigo. Em um segundo momento, temos um Lázaro acolhido pela comunidade, em clara alusão às diversas tentativas de superar as grandes diferenças sociais”.
Na visão popular, São Lázaro é considerado protetor de idosos, leprosos e animais enfermos, sendo sincretizado com Omulu/Obaluaê no candomblé, orixá da medicina que cuida dos doentes crônicos. A festa é enriquecida pela presença de elementos como a sala de ex-votos, voltada para a cura de enfermos e animais, e a “Capela dos milagres”, onde os devotos depositam símbolos que representam curas alcançadas.
O historiador Murilo Melo destaca a veneração constante a São Lázaro, especialmente em períodos de enfermidades coletivas, como durante a pandemia da Covid-19. Ele ressalta a significativa participação de pessoas de todas as classes sociais na festa, indicando sua importância cultural e social para a cidade de Salvador.


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