O Teatro Gamboa Nova, em Salvador, será palco de uma produção teatral inovadora que promete envolver o público em uma jornada de reflexão sobre diversidade, subjetividade e o desafio de viver fora dos padrões estabelecidos pela sociedade. “Pititinga – Peixe Pequeno”, dirigido por Thiago Carvalho, traz à luz as aflições e as vidas das pessoas que fogem da norma, especialmente nas áreas de sexualidade, gênero e racialidade.
O espetáculo, que acontecerá de terca a domingo (12 a 17/09/2023), faz parte da programação do mês da diversidade na Bahia e tem como objetivo criar um espaço para que as histórias daqueles que são frequentemente marginalizados e incompreendidos sejam ouvidas e apreciadas. Os ingressos estão disponíveis por R$20 (inteira) e R$10 (meia) no Sympla ou na bilheteria do teatro.
Explorando as “criaturas-peixe”
Em “Pititinga – Peixe Pequeno”, três atores e uma atriz brasilienses, Ellen Gabis, Davi Dias, Jefferson Vieira e João Paulo Machado, interpretam as “criaturas-peixe”. Esses personagens mergulham profundamente em suas memórias e dores, em busca de respostas para uma pergunta universal: como encontrar significado quando se está fora da norma?
Além dos desafios relacionados à sexualidade, gênero e racialidade, as vidas dessas “criaturas-peixe” são marcadas por experiências de amor não correspondido, abandono, incompreensão, invisibilidade, medo da solidão e da morte. As histórias desses personagens se entrelaçam no palco, à medida que buscam compreender seus desejos e encontrar seu lugar no mundo.
Dramaturgia autoral e coletiva
O espetáculo segue a tradição do Teatro Documentário, um gênero que utiliza documentos e memórias como fontes para a construção da narrativa. No entanto, “Pititinga – Peixe Pequeno” possui uma dramaturgia autoral e coletiva. Os artistas envolvidos no projeto compartilharam depoimentos, fotografias, relatos, entrevistas, cartas e diários, resultando em relatos autobiográficos que serviram como base para a construção colaborativa da dramaturgia.
O processo criativo foi orientado por Thiago Carvalho, diretor baiano que também é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC-UFBA). Ele conheceu os atuantes brasilienses que formam o Coletivo Poéticas da Meia Noite quando esteve como professor substituto na Universidade de Brasília – UnB. “Neste trabalho, buscamos radicalizar a linguagem, propondo um novo modo de se expressar”, explica Thiago. A individualidade e singularidade de cada integrante foram resgatadas, resultando em uma codificação única da experiência vivida.
Visualidade inspirada no mar e nas redes da vida
A visualidade do espetáculo foi inspirada na imensidão do mar e nas redes que aprisionam e conectam as “criaturas-peixe”. Além disso, as escamas foram usadas como metáfora para as camadas de informações que cada ser carrega, sejam elas psicológicas, sociais ou existenciais. O figurino, criado por Rino Carvalho, vai sendo desconstruído ao longo da peça, revelando a essência individual de cada personagem. A cenografia e a luz ficam a cargo de Yoshi Aguiar.
Processo criativo online e potencialidades do meio digital
Embora o início do trabalho tenha sido presencial, a maior parte do processo criativo foi desenvolvida por meio de plataformas e aplicativos online devido à necessidade de Thiago Carvalho retornar à Bahia. Essa abordagem permitiu a análise das construções textuais e definição dos estados emocionais dos artistas de forma remota, utilizando a “telepresença”.
Thiago destaca que, mesmo no ambiente digital, a medida humana não é descartada, possibilitando diálogos significativos entre pessoas, tecnologias e linguagens. Ele iniciou suas primeiras experiências em criação cênica e apresentações ao público em ambiente virtual durante a pandemia da Covid-19, e desde então, reconhece o potencial dessa nova ferramenta para a criação teatral.
O Coletivo Poéticas da Meia-Noite
Fundado em 2021, o Coletivo Poéticas da Meia-Noite atua no campo da pesquisa, produção e formação, buscando unir tradição e contemporaneidade em suas obras cênicas. Eles exploram a intersecção entre memória e alteridade na construção dramatúrgica e buscam provocar reflexões sobre o “outro” por meio da performance art. A telepresença tem sido uma das ferramentas utilizadas pelo coletivo para explorar o campo da memória e construir uma ética individual em um contexto coletivo.
Rino Carvalho e Thiago Carvalho: Artistas multifacetados
O figurinista Rino Carvalho, diretor, figurinista, maquiador e ator, tem uma extensa trajetória nas artes cênicas e colaborou com diversos encenadores e grupos artísticos ao longo de sua carreira. Seu trabalho é reconhecido internacionalmente e sua contribuição para o espetáculo é fundamental para a expressão visual da história das “criaturas-peixe”.
Thiago Carvalho, além de diretor, ator, pesquisador e produtor executivo, é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC-UFBA). Ele também é membro do Grupo de Teatro Finos Trapos (Ba) e do Coletivo das Liliths (Ba). Suas experiências em criação cênica e adaptação ao ambiente virtual durante a pandemia demonstram sua versatilidade como artista e educador.


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