Angela Davis, renomada filósofa e professora estadunidense, foi uma das principais palestrantes do 18º Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic), realizado na Faculdade de Direito da UFBA na terça-feira (11/07/2023). O evento contou com uma mesa de debates cujo tema central foi “Abolicionismo. Feminismo. Já.”, título também compartilhado com o livro recém-lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras, escrito por Davis em parceria com Gina Dent, Beth Richie e Erica Meiners.
O público presente no auditório lotado pôde ouvir as reflexões de Angela Davis sobre a luta abolicionista e feminista, bem como sua abordagem sobre a questão do racismo estrutural. Davis destacou a importância de reconhecer que o racismo não é apenas um conjunto de atitudes individuais, mas sim uma problemática enraizada nas estruturas da sociedade em todos os seus aspectos.
“Quando começamos a trabalhar sobre abolicionismo carcerário, talvez há 30 anos atrás, nós nunca imaginamos que nós teríamos a oportunidade de ver a abolição entrando no discurso público”, afirmou a filósofa. Ela enfatizou o papel das gerações anteriores que lutaram pela liberdade e como seu trabalho continua a inspirar a busca por um mundo mais justo.
Gina Dent, professora da Universidade da Califórnia e editora do Black Popular Culture, também contribuiu com seus insights durante a mesa de debates. Ela destacou a disparidade no sistema prisional, enfatizando que a maioria das pessoas encarceradas em todo o mundo é composta por indivíduos negros. Dent apontou o papel do capitalismo racial nesse contexto e ressaltou que o sistema carcerário é uma expressão dessa estrutura.
Ao abordar as alternativas ao sistema prisional, Angela Davis argumentou que o objetivo não é apenas melhorar as prisões, mas sim buscar soluções baseadas em uma sociedade mais justa e solidária. Ela enfatizou a importância de se pensar em residências e programas de saúde melhores, bem como em uma sociedade com princípios socialistas.
Durante o evento, Angela Davis também destacou a força da cultura brasileira e a emergência do feminismo negro no país. Ela mencionou o papel crucial das mulheres negras na liderança do candomblé e a necessidade de um feminismo abolicionista interseccional e internacional, capaz de estabelecer conexões com todas as pessoas que são afetadas pelo sistema de capitalismo racial.
A professora Denise Carrascosa, do Instituto de Letras da UFBA, denunciou a situação de mulheres em cárcere no Brasil, que sofrem com violações de direitos, torturas e flagrantes forjados. Ela criticou o silêncio da sociedade diante dessas injustiças e defendeu a importância de romper com esse pacto de silêncio, enfatizando a necessidade de conscientização e ação em relação a essas questões.
Após o encontro, Angela Davis e Gina Dent visitaram o Conjunto Penal Feminino do Complexo Penitenciário Lemos Brito, em Salvador, onde se encontraram com mulheres em situação de cárcere que escrevem poesias abolicionistas. O sarau poético realizado no ano passado originou o documentário “Firminas em Fuga”, uma homenagem ao bicentenário de nascimento da escritora abolicionista Maria Firmina dos Reis. O Coletivo Corpos Indóceis e Mentes Livres, responsável pelo documentário, construiu uma biblioteca há dez anos nesta unidade prisional para incentivar a redução do tempo de cumprimento de pena pela leitura.
Ao finalizar sua participação no congresso, Angela Davis reforçou a importância de passar para as próximas gerações o impulso de lutar pela liberdade, com o objetivo de alcançar um mundo mais justo e livre para todos.


Deixe um comentário