A desinformação em saúde no Brasil permaneceu ativa após a fase mais aguda da pandemia de Covid-19, incorporando novos temas, ferramentas digitais e estratégias de persuasão. É o que aponta o relatório “Raio-X da Desinformação em Saúde — O que quase 10 anos de checagens revelam sobre as mentiras que ameaçam a saúde dos brasileiros”, elaborado pelo Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da Agência Lupa, com apoio da Afya, empresa de educação e soluções para a prática médica.
O estudo examinou 764 alegações sobre saúde, extraídas de 498 verificações publicadas entre 2017 e 30 de junho de 2026. Desse total, 667 alegações, equivalentes a 87,3%, foram classificadas como falsas. O levantamento identificou mudanças nos assuntos abordados, mas também a continuidade de práticas como promessas de cura sem comprovação, manipulação de evidências científicas e uso indevido da autoridade de profissionais de saúde.
A pandemia representou um marco na escala desse fenômeno. Em 2020 e 2021, a Agência Lupa checou 452 conteúdos virais relacionados à saúde, aproximadamente dez vezes o volume registrado nos três anos anteriores. Segundo Maiquel Rosauro, pesquisador da Lupa responsável pelo levantamento, muitas das estratégias que ganharam visibilidade durante a crise sanitária já existiam e continuaram a ser utilizadas depois, adaptadas a novos assuntos e formatos.
Como a desinformação em saúde mudou após a pandemia
O relatório divide o período analisado em quatro ciclos para demonstrar a evolução dos temas e das técnicas de desinformação. Entre 2017 e 2019, antes da pandemia, eram frequentes conteúdos que atribuíam a alimentos, bebidas, plantas e substâncias de fácil acesso propriedades de prevenção ou cura de doenças graves.
Em 2020 e 2021, a Covid-19 passou a concentrar as alegações falsas, especialmente aquelas relacionadas a vacinas, tratamentos e medidas de prevenção. A partir de 2022, o foco começou a se diversificar, embora os imunizantes continuassem entre os principais alvos de conteúdos enganosos.
Entre 2022 e 2024, ganharam espaço publicações que prometiam eliminar supostos efeitos das vacinas por meio de processos de “desintoxicação” e atribuíam aos imunizantes doenças e problemas de saúde sem sustentação científica. Entre 2025 e junho de 2026, o estudo identificou a retomada de promessas de tratamentos milagrosos, acompanhadas de anúncios pagos, vídeos manipulados por inteligência artificial e declarações falsas atribuídas a médicos.
Vacinas concentram alegações falsas em diferentes períodos
A participação das vacinas nas checagens de saúde aumentou ao longo dos anos posteriores à pandemia. Antes da Covid-19, os imunizantes apareciam em 9,1% das verificações. Durante a crise sanitária, a proporção chegou a 33,2% e, entre 2022 e 2024, alcançou 38,9%. No período de 2025 a junho de 2026, recuou para 20%, mas permaneceu acima do nível registrado antes da pandemia.
Do total de alegações sobre vacinas analisadas no levantamento, 212 das 244, ou 86,9%, foram classificadas como falsas. Os resultados indicam que, mesmo com a redução relativa do tema no período mais recente, a vacinação continua sendo um alvo recorrente de conteúdos enganosos.
O estudo também identificou a exploração de receios relacionados a possíveis efeitos adversos, com alegações que associam imunizantes a doenças graves sem apresentar evidências científicas adequadas. A divulgação desse tipo de conteúdo pode dificultar o acesso da população a informações confiáveis para decisões relacionadas à saúde.
Falsa autoridade médica e medo sustentam conteúdos enganosos
O relatório identificou diferentes recursos empregados para conferir aparência de credibilidade às alegações falsas. O mais frequente foi o uso de falsa autoridade médica ou científica, presente em 21,59% dos casos. Em seguida, aparecem o medo e a linguagem alarmista, com 17,09%; a distorção de estudos e dados, com 15,74%; e a oferta de soluções simples para problemas complexos, com 12,59%.
Uma das estratégias consiste em atribuir declarações inexistentes a médicos e pesquisadores ou utilizar falas verdadeiras fora de contexto. Também são omitidas limitações metodológicas de pesquisas, enquanto resultados preliminares podem ser apresentados como se representassem conclusões científicas definitivas.
O apelo ao medo ganhou participação nas alegações mais recentes. Embora tenha sido identificado em 17,1% dos casos ao longo de todo o período analisado, o recurso apareceu em 33,82% das alegações entre 2025 e junho de 2026. As narrativas frequentemente relacionam vacinas, tratamentos ou produtos a consequências como câncer, infertilidade e morte, sem sustentação científica suficiente.
Afya destaca papel dos profissionais de saúde no combate à desinformação
Para Gustavo Meirelles, vice-presidente Médico e de Relações Institucionais da Afya, a circulação de informações sem respaldo científico exige que os profissionais de saúde desenvolvam competências para orientar os pacientes também no ambiente digital.
Segundo ele, além de diagnosticar e tratar doenças, médicos precisam ajudar as pessoas a avaliar informações e reconhecer conteúdos que não apresentam evidências confiáveis. A popularização das ferramentas de inteligência artificial amplia as possibilidades de acesso ao conhecimento, mas também facilita a produção de materiais que simulam a aparência e a linguagem de fontes legítimas.
O executivo destaca que a capacidade de interpretar informações científicas e explicá-las de forma compreensível contribui para que os pacientes façam escolhas mais conscientes sobre a própria saúde. A abordagem reforça a importância da comunicação entre profissionais e pacientes como parte das estratégias de enfrentamento à desinformação.
WhatsApp lidera entre as plataformas identificadas no estudo
O levantamento também examinou os canais em que os conteúdos foram identificados. O WhatsApp apareceu em 351 das 498 verificações, o equivalente a 70,5%. Na sequência, estão o Facebook, presente em 25,3% dos casos; o Instagram, em 7%; sites, em 5,8%; e o X, antigo Twitter, em 3,8%.
Os percentuais se referem às verificações em que cada plataforma foi identificada e não representam necessariamente parcelas exclusivas, pois um mesmo conteúdo pode circular por mais de um canal. Os resultados mostram a relevância dos aplicativos de mensagens na disseminação das alegações examinadas.
Em relação aos formatos, o texto esteve presente em 99,4% das 498 verificações. Vídeos apareceram em 34,3% dos casos, enquanto imagens foram identificadas em 26,1%. Em 74,5% das verificações, dois ou mais formatos estavam combinados. A associação entre texto e vídeo foi a mais frequente, registrada em 27,9% dos casos.
A combinação de formatos permite que informações enganosas sejam apresentadas com aparência de legitimidade. Uma fotografia verdadeira pode receber uma legenda falsa, assim como um vídeo autêntico pode ser associado a um acontecimento diferente daquele que registra. Áudios também podem ser atribuídos indevidamente a profissionais de saúde, enquanto títulos e mensagens de encaminhamento orientam a interpretação do material.
Venda de produtos e serviços aparece em conteúdos falsos sobre saúde
O relatório identificou ainda a exploração comercial da desinformação. Das 18 verificações relacionadas a esse tipo de prática desde 2017, 14 ocorreram depois de 2021. Em 17 dos 18 casos, o conteúdo direcionava o público à compra de algum produto ou serviço.
O diabetes foi a doença mais explorada nesse recorte, aparecendo em sete verificações. Entre as alegações identificadas estavam promessas de controlar ou reverter a doença, dispensar medicamentos e eliminar restrições alimentares. Essas ofertas utilizam expectativas de melhora da saúde para promover produtos ou serviços sem necessariamente apresentar comprovação científica.
A pesquisa também registrou a presença de figuras públicas em 142 das 498 verificações. Nesses casos, nomes, imagens ou reputações eram utilizados para sustentar conteúdos enganosos e aumentar a percepção de credibilidade das mensagens.
Agência Lupa aponta necessidade de reconhecer mecanismos de manipulação
Cristina Tardáguila, fundadora e gerente de Inovação e Formação da Agência Lupa, afirma que um dos desafios está na apropriação da linguagem e da autoridade de médicos, pesquisadores e instituições para conferir legitimidade a informações falsas.
A pesquisadora ressalta que identificar uma alegação como falsa é apenas parte do enfrentamento do problema. Também é necessário compreender como a manipulação é construída, quais recursos são utilizados para convencer o público e de que maneira o conteúdo se dissemina pelas plataformas digitais.
Os dados reunidos pelo Observatório Lupa mostram que a desinformação em saúde mudou de temas e formatos, mas preservou estratégias de persuasão ao longo de quase uma década. A permanência de alegações falsas sobre vacinas, a exploração comercial de promessas terapêuticas e o uso de recursos de inteligência artificial reforçam a importância da checagem de informações e da consulta a fontes de saúde confiáveis.


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