As mulheres representam 40% dos 10,7 milhões de produtores rurais que participam das decisões do agronegócio brasileiro, segundo o estudo Perfil da Mulher do Agronegócio Brasileiro: 10 anos de transformação e avanços, divulgado pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), com correalização da Serasa Experian. O levantamento também aponta níveis elevados de escolaridade entre as entrevistadas e registra a presença feminina na operação de tecnologias utilizadas na produção agrícola.
A trajetória da engenheira agrônoma e doutora em melhoramento de plantas forrageiras Karla Saraiva de Ávila, produtora rural no Rio Grande do Sul, exemplifica a atuação de mulheres na administração das propriedades e nas decisões sobre investimentos, maquinário, insumos e manejo das lavouras. Ao lado do marido, Rafael Rockenbach, ela participa da gestão de áreas cultivadas com arroz e soja que somam mais de 4 mil hectares, além de atividades com milho e pastagens de inverno.
A experiência de Karla reúne formação acadêmica, gestão familiar e adoção de soluções tecnológicas voltadas à produção agrícola. Sua atuação também se relaciona ao debate sobre agricultura regenerativa e manejo sustentável do solo, temas presentes nas estratégias de modernização do setor.
A trajetória ganha destaque às vésperas do Dia Internacional das Mulheres Rurais, celebrado em 15 de outubro. Instituída pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2007, a data teve sua primeira celebração oficial em 2008 e busca reconhecer a contribuição das mulheres para o desenvolvimento rural, a segurança alimentar e o enfrentamento da pobreza.
Pesquisa da ABAG mostra perfil das mulheres no agronegócio
O estudo da ABAG, elaborado com a participação da Serasa Experian, apresenta indicadores sobre a presença feminina na gestão e na tomada de decisões do agronegócio brasileiro. Entre as mulheres ouvidas na etapa quantitativa da pesquisa, 77% têm ensino superior completo e 46% possuem pós-graduação.
Os dados indicam a relevância da qualificação formal entre as participantes do levantamento. A formação técnica e acadêmica pode contribuir para atividades como planejamento produtivo, avaliação de tecnologias, gestão de recursos e análise das condições de cultivo, embora os resultados apresentados não estabeleçam, por si só, uma relação causal entre escolaridade e desempenho econômico das propriedades.
A pesquisa também investigou o uso de ferramentas digitais no campo. De acordo com o levantamento, 71% das gestoras entrevistadas afirmam operar tecnologias como drones, telemetria e sistemas de gestão de maneira independente ou parcialmente independente. Os recursos podem auxiliar no monitoramento das operações, no acompanhamento de máquinas e no controle das atividades agrícolas.
Outro indicador divulgado pelo estudo diz respeito à análise de crédito. Na Região Sul, as produtoras rurais apresentaram taxa de inadimplência de 5,4%, inferior à registrada entre os homens, conforme os dados da pesquisa. O indicador descreve o resultado observado no universo analisado e não deve ser interpretado isoladamente como medida geral de desempenho de todas as mulheres ou de todas as propriedades rurais.
Da formação acadêmica à gestão da propriedade rural
A trajetória profissional de Karla começou com a intenção de adquirir experiência fora da propriedade da família e, posteriormente, retornar ao campo. Ela se mudou para Porto Alegre, onde prosseguiu os estudos e concluiu mestrado e doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Em 2015, quando defendeu a tese de doutorado, Karla conciliava a formação acadêmica com a maternidade. Sua filha Rafaela ainda era bebê. A produtora recorda que a amamentação fez parte daquele período, no qual a conclusão da pesquisa representou uma etapa importante de sua trajetória profissional e familiar.
A possibilidade de voltar à propriedade surgiu após conversas com o pai, que trabalhava com pecuária. Segundo Karla, ele propôs que, caso desejasse atuar com a família, desenvolvesse uma atividade diferente daquela conduzida por ele. A oportunidade abriu espaço para que ela começasse a trabalhar com agricultura por volta de 2011.
Produção começou em 80 hectares e ganhou escala
O início da atividade agrícola ocorreu em uma área de aproximadamente 80 hectares, com um trator de 75 cavalos de potência. A estrutura inicial era menor do que a operação conduzida atualmente, mas permitiu que Karla aplicasse no campo conhecimentos adquiridos durante a formação em agronomia.
A expansão ocorreu gradualmente, com a participação do marido, Rafael Rockenbach. O casal ampliou a área cultivada e investiu na renovação e na expansão do maquinário, buscando atender às necessidades operacionais das lavouras.
Atualmente, as atividades incluem arroz e soja em áreas que ultrapassam 4 mil hectares, além de milho e pastagens de inverno. As decisões sobre manejo, insumos, equipamentos e investimentos são compartilhadas pelo casal, que administra a produção considerando as condições agrícolas e os objetivos da família.
Para Karla, a participação na gestão vai além da execução das tarefas cotidianas. Ela associa as decisões sobre a lavoura à continuidade do negócio familiar e à transmissão de conhecimentos e valores às filhas. A produtora afirma que a liderança feminina no campo envolve presença, parceria e dedicação.
Tecnologia agrícola orienta o manejo e o planejamento
Na propriedade, Karla busca combinar produtividade com práticas de manejo sustentável. As condições do relevo na região de Bagé e Dom Pedrito, no Rio Grande do Sul, exigem atenção à operação de plantio, à distribuição das sementes e à regularidade do desenvolvimento das culturas.
Entre os equipamentos utilizados está um trator com transmissão CVT acoplado à plantadeira Valtra Momentum, conjunto que, segundo a produtora, contribui para a uniformidade do plantio. Ela também menciona a aplicação de produtos biológicos no sulco, o uso de hastes descompactadoras e o controle digital de insumos.
Essas ferramentas integram uma estratégia de gestão que procura adequar a operação às características do solo e às necessidades de cada cultura. A uniformidade de emergência das plantas é um dos aspectos acompanhados, pois influencia o estabelecimento inicial da lavoura.
A adoção de tecnologia, entretanto, ocorre em um ambiente sujeito a variáveis climáticas. Chuvas, períodos de seca e mudanças nas condições do solo podem exigir alterações no planejamento. Por isso, o acompanhamento das operações e a avaliação das condições de cultivo são partes relevantes da administração agrícola.
Agricultura regenerativa e conservação do solo
O interesse de Karla pela agricultura regenerativa está relacionado à busca por práticas que conciliem a produção com o cuidado com o solo. A adoção de ferramentas de precisão e o acompanhamento das condições da lavoura integram esse processo, embora os resultados ambientais e produtivos dependam das práticas efetivamente utilizadas e das características de cada área.
A aplicação de produtos biológicos, o controle digital de insumos e o uso de equipamentos adequados às condições do terreno são apresentados pela produtora como componentes da estratégia de manejo. A combinação dessas soluções exige planejamento técnico e avaliação contínua das necessidades das culturas.
Karla destaca a importância da etapa de plantio para o desempenho posterior da lavoura. Segundo ela, a uniformidade na germinação e no desenvolvimento inicial das plantas representa um retorno esperado dos investimentos em insumos, máquinas e trabalho.
A experiência demonstra como decisões operacionais e investimentos tecnológicos fazem parte da rotina de gestão das propriedades rurais. A escolha dos equipamentos e das práticas de manejo precisa considerar tanto as condições agronômicas quanto os custos e os objetivos produtivos do negócio.
Mulheres rurais ampliam participação nas decisões do setor
Os dados da ABAG e a experiência de Karla contribuem para contextualizar a participação das mulheres nas atividades produtivas e administrativas do agronegócio. A presença feminina abrange diferentes funções, da operação de máquinas ao planejamento, à gestão financeira e à definição de estratégias de produção.
A qualificação profissional e o acesso a ferramentas tecnológicas aparecem como elementos importantes nesse cenário. Ao mesmo tempo, a administração rural continua sujeita a fatores como clima, disponibilidade de recursos, custos de produção e condições de mercado, que exigem acompanhamento e capacidade de adaptação.
Para Karla, a gestão compartilhada da lavoura está ligada à construção de um legado familiar e à continuidade da atividade agrícola. Sua trajetória combina formação acadêmica, experiência prática e participação direta nas decisões da propriedade.
O Dia Internacional das Mulheres Rurais, celebrado em 15 de outubro, oferece uma oportunidade para ampliar a visibilidade dessas contribuições. Os indicadores da pesquisa e o relato da produtora mostram diferentes dimensões dessa participação, desde a qualificação e o uso de tecnologias até a administração cotidiana de negócios rurais.


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