A educação superior pode conectar pesquisa científica, formação profissional e atendimento às necessidades da população. Na Universidade Salvador (UNIFACS), integrante do Ecossistema Ânima, os professores Nestor Gálvez Ronceros, da área de Engenharia, e Johniery Almeida, de Arquitetura e Urbanismo, desenvolvem atividades que aproximam o conhecimento acadêmico de desafios concretos. Em Feira de Santana, suas experiências envolvem o estudo do hidrogênio verde, a realização de atividades experimentais e a prestação de assistência técnica a famílias em demandas relacionadas à moradia.
As trajetórias dos dois docentes apresentam caminhos distintos para a carreira acadêmica. Nestor chegou ao Brasil em 2006, vindo do Peru, para dar continuidade à formação em Engenharia. Johniery, por sua vez, construiu sua relação com a Arquitetura desde a infância, ingressou na graduação na própria UNIFACS e encontrou na experiência universitária a motivação para seguir a docência.
Nestor Gálvez: da imigração à pesquisa sobre hidrogênio verde
Em 2006, o engenheiro mecânico peruano Nestor Gálvez Ronceros deixou seu país de origem em busca de oportunidades para continuar os estudos no Brasil. Recém-formado, viajou de ônibus até o Rio de Janeiro, levando aproximadamente 140 dólares, valor equivalente a cerca de R$ 300 na época. O dinheiro precisou ser administrado durante aproximadamente dois meses, até a liberação de uma bolsa de pesquisa. Durante esse período, ele também contou com o apoio de pessoas que conheceu no percurso.
A chegada ao Rio de Janeiro permitiu que Nestor encontrasse laboratórios e orientadores para desenvolver o mestrado. Seu projeto abordou a liquefação do gás natural, com estudos relacionados à criogenia, à termodinâmica e à eficiência energética. A experiência contribuiu para aproximá-lo das pesquisas sobre hidrogênio verde, tema que passou a integrar sua trajetória profissional.
Anos depois, Nestor escolheu a Bahia para dar continuidade à carreira. Em 2018, ingressou como professor no campus de Feira de Santana da UNIFACS, onde passou a relacionar a experiência em pesquisa com a formação de estudantes de Engenharia. Pai de Andrea e Nestor, ele também associa a continuidade de sua trajetória à intenção de transmitir aos filhos a importância do conhecimento, da persistência e do trabalho.
Hidrogênio verde aproxima teoria, experimentação e formação profissional
O trabalho acadêmico de Nestor envolve diferentes etapas da cadeia do hidrogênio verde, incluindo produção, armazenamento, liquefação, transporte e utilização, além da análise das condições necessárias para sua viabilidade econômica. A abordagem permite discutir tanto os aspectos científicos e tecnológicos quanto os desafios para a implantação de soluções energéticas.
Na avaliação do professor, o Nordeste reúne condições relacionadas à disponibilidade de energia solar e eólica que podem favorecer o desenvolvimento desse setor. Entretanto, a expansão da cadeia depende de fatores como infraestrutura, qualificação profissional, inovação e investimentos. A compreensão dessas questões também faz parte da preparação dos estudantes para atuar em áreas relacionadas à engenharia e à transição energética.
Nas atividades práticas, os alunos tiveram a oportunidade de construir, testar e observar sistemas relacionados ao hidrogênio. A proposta é transformar conceitos teóricos em experiências que estimulem a investigação científica e a capacidade de solucionar problemas.
“Mais do que ensinar o funcionamento de uma célula de hidrogênio, o objetivo era mostrar aos estudantes que eles são capazes de construir algo, investigar um problema e transformar conhecimento teórico em uma experiência concreta”, afirma Nestor.
Para o professor, a formação universitária deve preparar profissionais capazes de acompanhar tecnologias em desenvolvimento e propor soluções para desafios futuros. Ao se aproximar de 15 anos de atuação no ensino, ele identifica a pesquisa e a docência como dimensões complementares de sua trajetória.
“Se conseguirmos despertar nos estudantes a capacidade de pesquisar, experimentar, questionar e propor soluções, estaremos formando não apenas engenheiros para o mercado de trabalho, mas profissionais capazes de participar da construção dos próximos sistemas energéticos”, declara.
Johniery Almeida: a Arquitetura como caminho para a docência
A trajetória de Johniery Almeida começou com o interesse por cidades, edifícios e espaços construídos. Ainda na infância, ele costumava desenhar casas e ambientes, demonstrando curiosidade pela organização dos espaços. Durante o ensino médio, as aulas de Geometria ministradas por um professor com formação em Engenharia contribuíram para ampliar esse interesse e aproximá-lo dos fundamentos da Arquitetura.
Johniery ingressou no curso de Arquitetura e Urbanismo da UNIFACS, instituição na qual posteriormente se tornou professor. Durante a graduação, a convivência com docentes, as atividades de monitoria e a iniciação científica contribuíram para despertar seu interesse pela carreira acadêmica. Depois da formação inicial, avançou para o mestrado e atualmente dá continuidade aos estudos no doutorado.
O professor associa a escolha profissional à possibilidade de integrar conhecimentos técnicos, criatividade e artes. Para ele, a Arquitetura permite propor soluções para os espaços e refletir sobre a maneira como as pessoas vivem e utilizam os ambientes construídos.
Escritório Público de Arquitetura e Engenharia atende demandas sociais
Uma das principais frentes de atuação de Johniery é o Escritório Público de Arquitetura e Engenharia (EPAE) da UNIFACS, projeto de extensão universitária que busca aproximar a produção acadêmica das necessidades da população.
À frente das atividades do escritório no campus de Feira de Santana há cinco anos, o professor acompanha iniciativas realizadas em parceria com a Defensoria Pública do Estado da Bahia. O trabalho envolve a prestação de serviços técnicos de Arquitetura e Engenharia, especialmente em demandas relacionadas à Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS).
Entre as atividades desenvolvidas estão atendimentos a famílias em processos de regularização fundiária. Nessas situações, o conhecimento técnico pode contribuir para esclarecer questões relacionadas à moradia e oferecer suporte a demandas que envolvem segurança habitacional e acesso a direitos.
“O EPAE é um projeto de extensão que materializa de forma muito concreta o compromisso da universidade com a sociedade. Por meio dele, buscamos aproximar o conhecimento produzido na universidade das necessidades reais da população, proporcionando aos estudantes uma experiência de formação que ultrapassa os limites da sala de aula”, explica Johniery.
A iniciativa também permite que os estudantes tenham contato com situações que exigem análise técnica, compreensão das condições sociais e aplicação dos conhecimentos adquiridos durante a graduação. A experiência amplia a percepção sobre as responsabilidades profissionais de arquitetos e engenheiros.
Extensão universitária conecta formação acadêmica e garantia de direitos
Para Johniery, a participação em projetos de extensão ajuda os estudantes a compreender como a formação universitária pode produzir efeitos concretos na sociedade. O contato com demandas reais permite relacionar os conteúdos das disciplinas às necessidades de famílias e comunidades.
A atuação em questões habitacionais evidencia essa conexão. Ao participar de atividades técnicas vinculadas à regularização fundiária e à assistência habitacional, os futuros profissionais podem compreender como a Arquitetura e a Engenharia se relacionam com o acesso a direitos e com as condições de moradia.
O professor considera que a formação acadêmica deve contemplar não apenas o domínio técnico, mas também a responsabilidade social associada ao exercício profissional. A experiência no EPAE, nesse contexto, constitui uma oportunidade de aprendizagem para os estudantes e de aproximação entre a universidade e a população atendida.
“Quando um estudante percebe que o conhecimento que adquiriu em sala de aula pode ajudar uma família a ter mais segurança em sua própria casa, contribuir para que alguém tenha acesso a um direito ou simplesmente encontrar uma solução para um problema que parecia difícil, ele começa a compreender o verdadeiro sentido da profissão que escolheu”, afirma.
Johniery acrescenta que o processo também transforma os próprios docentes, ao permitir que o ensino seja alimentado pelo contato com diferentes realidades sociais e profissionais.
Pesquisa e compromisso social na formação universitária
As experiências de Nestor Gálvez e Johniery Almeida mostram diferentes formas de aproximar a educação superior de questões que ultrapassam os limites da sala de aula. Enquanto o primeiro direciona parte de sua atuação ao estudo do hidrogênio verde e à formação de engenheiros para desafios tecnológicos e energéticos, o segundo utiliza a extensão universitária para aproximar a Arquitetura e a Engenharia das demandas habitacionais da população.
Nos dois casos, a integração entre conhecimento teórico, experiência prática e responsabilidade profissional aparece como parte do processo de formação. As atividades também demonstram como a pesquisa, o ensino e a extensão podem contribuir para preparar estudantes para atuar em áreas que exigem conhecimento técnico, capacidade de investigação e compreensão das necessidades coletivas.
Para os professores, a educação não se limita à transmissão de conteúdos. Ela também envolve estimular a autonomia intelectual, desenvolver a capacidade de propor soluções e compreender as consequências sociais do trabalho profissional. Essa perspectiva orienta tanto as experiências laboratoriais relacionadas ao hidrogênio quanto as ações de assistência técnica desenvolvidas pelo escritório universitário.


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