A incidência global de câncer deve aumentar 66,7% até 2050, passando de aproximadamente 20,6 milhões de novos casos em 2024 para 34,4 milhões, segundo dados do Global Status Report on Cancer 2026, elaborado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em conjunto com a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC). A projeção considera principalmente mudanças demográficas e a manutenção das taxas atuais de incidência.
O relatório foi divulgado em 8 de julho de 2026 e apresenta dados sobre incidência, mortalidade, prevenção, diagnóstico, tratamento e capacidade dos sistemas de saúde. A OMS também aponta diferenças importantes entre países e regiões, especialmente quanto ao acesso à prevenção, diagnóstico precoce e tratamento.
Para o professor doutor em Saúde Pública da Estácio Sergipe, Bruno Araújo, citado no material que acompanha a divulgação, o envelhecimento populacional é um dos principais fatores associados ao aumento esperado. O câncer está relacionado ao acúmulo de alterações celulares ao longo da vida e, com o aumento da expectativa de vida, cresce a possibilidade de ocorrência dessas alterações.
Envelhecimento populacional influencia projeção de novos casos
A análise internacional indica que a mudança demográfica é o principal fator associado ao crescimento projetado da incidência mundial. A população global deverá aumentar e envelhecer nas próximas décadas, ampliando o número absoluto de pessoas nas faixas etárias em que o câncer é mais frequente.
O Brasil acompanha essa transição demográfica. A estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA), publicada para o triênio 2026-2028, prevê aproximadamente 781 mil novos casos de câncer por ano, considerando todos os tipos, incluindo os tumores de pele não melanoma. Sem esses tumores, são estimados cerca de 518 mil casos anuais.
Entre os homens, o INCA aponta maior incidência de câncer de próstata, cólon e reto e pulmão. Entre as mulheres, os principais registros projetados são de câncer de mama, cólon e reto e colo do útero. O câncer de pele não melanoma permanece como o tumor mais frequente em ambos os sexos, sendo apresentado separadamente pelo instituto devido à elevada incidência e à menor letalidade.
Tabagismo, álcool, obesidade e infecções estão entre fatores modificáveis
O crescimento da incidência não está relacionado apenas ao envelhecimento. A OMS e a IARC apontam que parte significativa dos casos de câncer está associada a fatores de risco que podem ser prevenidos ou reduzidos. Uma análise global divulgada em fevereiro de 2026 estimou que 37% dos novos casos registrados em 2022, cerca de 7,1 milhões, estavam relacionados a causas preveníveis.
Entre os fatores identificados estão tabagismo, consumo de álcool, índice de massa corporal elevado, inatividade física, poluição do ar, radiação ultravioleta e infecções causadas por agentes cancerígenos. O tabaco respondeu sozinho por cerca de 15% de todos os novos casos de câncer no mundo em 2022, enquanto as infecções representaram aproximadamente 10% e o álcool, 3%.
O excesso de peso também integra esse conjunto de fatores. A OMS considera o alto índice de massa corporal um dos elementos relacionados à incidência de determinados tumores. O consumo de álcool, por sua vez, está associado ao desenvolvimento de diferentes tipos de câncer. A prevenção desses fatores é apontada pelas organizações internacionais como uma das estratégias para reduzir a carga futura da doença.
Câncer entre adultos jovens é acompanhado por pesquisadores
Outro aspecto citado no material é o crescimento da incidência de câncer de início precoce, diagnosticado antes dos 50 anos. Segundo os dados apresentados, entre 1990 e 2019 os casos de câncer de início precoce aumentaram 79,1% no mundo.
Entre as hipóteses investigadas estão mudanças nos padrões alimentares, maior consumo de alimentos ultraprocessados, sedentarismo, obesidade e alterações no microbioma intestinal. O aumento foi observado em diferentes tipos de tumores, incluindo câncer colorretal, mama, pâncreas, rim, endométrio, fígado e estômago.
O professor Bruno Araújo ressalta, no material de divulgação, que a mudança no perfil etário dos diagnósticos vem sendo observada ao longo de décadas. O cenário reforça a necessidade de acompanhamento epidemiológico e de pesquisas destinadas a compreender os fatores associados à ocorrência da doença em faixas etárias mais jovens.
Prevenção e diagnóstico precoce permanecem estratégias centrais
Apesar da projeção de crescimento dos casos, a OMS destaca que uma parcela relevante dos cânceres pode ser prevenida por meio de medidas já disponíveis. A organização estima que aproximadamente 38% dos cânceres podem ser evitados com a redução de fatores de risco e a adoção de estratégias de prevenção baseadas em evidências.
Entre as medidas estão não fumar, reduzir o consumo de álcool, manter alimentação equilibrada, praticar atividade física, controlar o peso corporal e evitar exposições de risco. A vacinação contra infecções relacionadas ao câncer, especialmente HPV e hepatite B, também integra as estratégias de prevenção.
A detecção precoce também ocupa posição central na resposta à doença. O relatório global da OMS recomenda fortalecer políticas de prevenção, diagnóstico, tratamento e acompanhamento, além de ampliar a capacidade dos sistemas de saúde. A organização defende que investimentos nessas áreas sejam acompanhados por medidas que reduzam as desigualdades no acesso aos serviços.
Desigualdade no acesso pode ampliar impacto nos países de menor renda
A projeção mundial também apresenta diferenças conforme o nível de desenvolvimento dos países. A análise publicada com as estimativas do GLOBOCAN indica que, embora os maiores aumentos absolutos devam ocorrer em países de maior índice de desenvolvimento humano devido ao tamanho e ao envelhecimento de suas populações, os maiores aumentos proporcionais são esperados nos países de menor IDH.
A OMS destaca que a capacidade de prevenir, diagnosticar e tratar o câncer varia significativamente entre países. O relatório de 2026 identifica diferenças no acesso aos serviços e recomenda integrar o controle do câncer às políticas de cobertura universal de saúde, fortalecer a proteção social e direcionar pesquisa e inovação para as necessidades de saúde pública.
O cenário projetado para 2050, portanto, combina crescimento populacional, envelhecimento, exposição a fatores de risco e desigualdades no acesso aos serviços de saúde. Para a OMS e a IARC, a evolução da incidência dependerá também das medidas adotadas nos próximos anos para prevenção, vacinação, diagnóstico precoce, tratamento e organização dos sistemas de saúde.


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