A sensação de cansaço persistente, baixa disposição, falta de propósito e redução da autoestima pode fazer parte da experiência de mulheres que conciliam trabalho, responsabilidades familiares e cuidados domésticos. O fenômeno, porém, não deve ser atribuído automaticamente a uma única causa. Questões relacionadas à rotina, ao sono, à saúde física e emocional e às diferentes fases da vida podem estar associadas a esse quadro.
A terapeuta integrativa Ayeska Azevedo, fundadora da Ayê Terapias do Feminino, relata que atende principalmente mulheres com mais de 40 anos que mantêm suas atividades profissionais e familiares, mas descrevem uma percepção de afastamento de interesses pessoais. Entre os relatos, segundo ela, aparecem cansaço que não melhora com o descanso e redução da libido.
A divisão das tarefas domésticas e de cuidados também integra esse contexto. Dados do IBGE mostram que, em 2022, as mulheres dedicaram, em média, 9,6 horas semanais a mais do que os homens aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas. A informação faz parte da PNAD Contínua sobre outras formas de trabalho.
Sobrecarga doméstica se soma às exigências profissionais
A combinação entre emprego, atividades domésticas e cuidado de familiares pode reduzir o tempo disponível para descanso, lazer, atividade física e outras formas de autocuidado. O impacto dessa distribuição desigual do trabalho não é, entretanto, uniforme e pode variar de acordo com condições econômicas, composição familiar e características individuais.
No ambiente profissional, a pesquisa Women @ Work 2024, da Deloitte, identificou que 23% das mulheres entrevistadas relataram burnout, ante 28% em 2023. No Brasil, o levantamento apontou percentual semelhante, de 23%, enquanto 50% das participantes brasileiras disseram que seus níveis de estresse estavam maiores do que no ano anterior.
A pesquisa da Deloitte também registrou que 33% das mulheres brasileiras entrevistadas haviam tirado algum período de afastamento do trabalho em razão de desafios relacionados à saúde mental. Os dados reforçam que a relação entre trabalho, estresse e bem-estar precisa ser analisada dentro de um conjunto mais amplo de fatores.
A jornalista Mara Rocha, 44 anos, relata que conciliava trabalho, cuidados domésticos e atenção ao filho enquanto enfrentava um período de maior cansaço. Segundo seu depoimento, dificuldades para dormir e despertares durante a noite contribuíam para a indisposição durante o dia.
Sono, atividade física e acompanhamento profissional
Mara afirma que passou a perceber melhora ao incorporar atividade física e alimentação balanceada à rotina. Ela também relata utilizar óleos essenciais de lavanda antes de dormir e de hortelã-pimenta e limão-siciliano em momentos de indisposição.
O uso de produtos ou práticas complementares, contudo, não deve ser tratado como substituto para avaliação médica ou psicológica quando houver sintomas persistentes. Alterações de sono, fadiga, mudanças de humor e redução de libido podem ter diferentes causas e precisam ser avaliadas individualmente.
No Sistema Único de Saúde (SUS), as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) integram uma política nacional de cuidado. Em 2024, foram registrados 7.156.703 procedimentos de PICS, número 70% superior ao registrado em 2022, segundo o Ministério da Saúde. Mais de 9 milhões de pessoas acessaram essas práticas no SUS naquele ano, considerando os registros apresentados pela pasta.
Práticas integrativas ampliam opções de cuidado
A política pública reúne diferentes práticas e abordagens. Entre as modalidades com registros na Atenção Primária à Saúde estão auriculoterapia, aromaterapia, yoga, arteterapia e musicoterapia, entre outras. O Ministério da Saúde destaca que essas práticas fazem parte de uma abordagem de cuidado integral e devem ser utilizadas conforme as diretrizes da política.
Em 2023, as PICS já eram ofertadas em 4.640 municípios brasileiros, correspondentes a 83% do total, alcançando 7,1 milhões de pessoas, segundo o Ministério da Saúde. A expansão demonstra a presença dessas modalidades na rede pública, embora sua oferta possa variar entre municípios.
Para Ayeska Azevedo, o processo terapêutico não deve se concentrar apenas em um sintoma. A proposta apresentada por ela considera corpo, emoções, trajetória pessoal e percepção individual de maneira integrada. A terapeuta afirma que o objetivo de cada sessão é favorecer uma percepção mais ampla sobre a própria experiência.
Saúde da mulher ganha espaço nas discussões sobre bem-estar
O debate sobre saúde e longevidade feminina também aparece nas tendências internacionais de bem-estar para 2026. O Global Wellness Summit incluiu entre suas dez tendências do ano o tema “Women Get Their Own Lane in Longevity”, voltado à necessidade de ampliar a atenção às particularidades da saúde feminina ao longo da vida.
O relatório também aponta uma mudança de enfoque no setor de bem-estar, com maior atenção a saúde feminina, longevidade, recuperação emocional e cuidados individualizados. Trata-se, contudo, de uma publicação de tendências do setor de wellness, e não de uma diretriz médica ou de uma recomendação clínica.
A experiência relatada por Mara e a avaliação apresentada pela terapeuta indicam a importância de observar mudanças persistentes na disposição, no sono, no humor e na relação com as atividades cotidianas. Quando esses sinais interferem na rotina, a busca por avaliação profissional adequada pode ajudar a identificar suas causas e definir estratégias de cuidado compatíveis com cada situação.
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