Um estudo publicado na International Journal of Health Science, em 2026, analisa os mecanismos relacionados à chamada rigidez cognitiva, característica associada à dificuldade de revisar crenças, incorporar novas informações e adaptar pensamentos diante de evidências. O trabalho aponta que a mudança de opinião envolve uma sequência de processos neurológicos e não depende apenas da exposição a informações diferentes.
Intitulado Cognitive Rigidity: The Mental Block That Hinders the Evolution of Thought, o artigo foi elaborado por Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, Mirian Coden, Isabella Hadassah Bat Yehudah Ibn Yahya Xavier Carvalho da Silva Florentino Teixeira, Gilberto Silva de Souza e Marco Brocolli Lima. A publicação consta no volume 6, número 6, da revista, com data de aceitação em 4 de junho de 2026.
De acordo com os autores, a revisão de uma crença exige que o cérebro identifique uma inconsistência, avalie a nova informação, processe a resposta emocional, atualize memórias relacionadas e integre a nova conclusão. Obstáculos em diferentes etapas desse processo podem contribuir para a manutenção de padrões de pensamento rígidos, segundo a pesquisa.
Como o cérebro processa a mudança de opinião
O estudo descreve a participação de diferentes áreas cerebrais na flexibilidade cognitiva. Entre elas está o córtex cingulado anterior, relacionado à identificação de erros e conflitos, e o córtex pré-frontal dorsolateral, associado ao processamento e à avaliação de informações.
Também são citadas estruturas envolvidas no processamento emocional, como a amígdala e a ínsula, além do hipocampo, relacionado à memória. O trabalho ainda aponta a participação do núcleo accumbens, associado a mecanismos de motivação e recompensa.
Segundo a análise apresentada pelos pesquisadores, neurotransmissores como dopamina, serotonina, glutamato, GABA, noradrenalina e acetilcolina também participam da regulação dos processos envolvidos na flexibilidade cognitiva. A pesquisa descreve a rigidez como um fenômeno multifatorial, relacionado à interação entre diferentes sistemas cerebrais e neuroquímicos.
Emoções e memória também interferem no processo
A mudança de uma crença não ocorre necessariamente de forma imediata quando uma pessoa recebe uma informação contrária ao que pensa. Conforme o estudo, é necessário processar o conflito entre o conhecimento anterior e a nova evidência, incluindo os componentes racional, emocional e mnésico.
O hipocampo participa desse processo ao contribuir para a atualização das memórias relacionadas ao conteúdo analisado. Já estruturas associadas ao processamento emocional podem influenciar a forma como o indivíduo reage ao conflito entre uma crença anterior e uma informação nova.
A pesquisa também relaciona a flexibilidade cognitiva à capacidade de aprender, adaptar comportamentos e revisar conceitos ao longo do tempo. Os autores apontam que compreender esses mecanismos pode ter aplicações potenciais em áreas como educação, desenvolvimento profissional e investigação clínica, embora o estudo não estabeleça, por si só, uma intervenção terapêutica específica.
Rigidez cognitiva não significa apenas “teimosia”
A utilização cotidiana do termo “teimosia” para descrever alguém que não muda de opinião simplifica um processo que, segundo o estudo, envolve diferentes mecanismos cerebrais. A rigidez cognitiva pode ser compreendida, no contexto da pesquisa, como uma dificuldade de flexibilizar representações mentais e incorporar informações que entram em conflito com conhecimentos ou crenças previamente estabelecidos.
O trabalho não apresenta a rigidez cognitiva simplesmente como uma característica moral ou comportamental. A abordagem proposta considera a participação conjunta de processamento de conflitos, raciocínio, emoções, memória, motivação e neurotransmissão.
O tema também se relaciona a pesquisas anteriores sobre memória e funcionamento cerebral. O Jornal Grande Bahia já publicou conteúdo sobre a relação entre retenção de informações, memória e inteligência, destacando a participação do hipocampo e do córtex pré-frontal em diferentes processos cognitivos.
O que o estudo pode explicar sobre aprendizagem
A flexibilidade cognitiva é relevante para situações nas quais uma pessoa precisa reavaliar informações, corrigir interpretações e adaptar decisões. No ambiente educacional, por exemplo, a capacidade de revisar uma hipótese a partir de novos dados faz parte do processo de aprendizagem.
No trabalho analisado, os pesquisadores defendem que compreender os mecanismos relacionados à rigidez cognitiva pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias voltadas à aprendizagem e ao desenvolvimento profissional. A pesquisa, contudo, apresenta uma análise dos mecanismos propostos, e não uma comprovação de que uma determinada técnica seja capaz de modificar a rigidez cognitiva em indivíduos.
A publicação acrescenta ao debate sobre comportamento e tomada de decisão uma perspectiva baseada na interação entre cérebro, memória, emoções e neurotransmissores. O estudo reforça que mudar de opinião diante de novas evidências é um processo que envolve múltiplas funções cognitivas, e não apenas a recepção de uma informação contrária.
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