Um marco para a saúde pública da Bahia foi registrado com a realização do primeiro transplante duplo de fígado e rim conduzido por uma equipe médica do interior do estado por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). O procedimento ocorreu na última semana, em Vitória da Conquista, e beneficiou um paciente de 55 anos, que recebeu alta hospitalar na segunda-feira (08/06/2026) após apresentar evolução clínica satisfatória. A cirurgia foi conduzida pelo Serviço de Transplante Papa São João Paulo II, do Hospital São Vicente de Paulo.
A operação envolveu uma complexa mobilização entre municípios do interior baiano. A doação e a captação dos órgãos foram realizadas no Hospital Prado Valadares, em Jequié, enquanto o transplante ocorreu na Santa Casa de Vitória da Conquista. Os dois órgãos captados foram destinados ao mesmo receptor, que apresentava quadro de falência terminal irreversível do fígado e dos rins.
Segundo informações médicas, o paciente sofria de cirrose hepática gravemente descompensada associada à insuficiência renal terminal, condição que exigia internações frequentes e três sessões semanais de hemodiálise. Diante da gravidade do quadro, o transplante simultâneo foi considerado a alternativa terapêutica indicada para restabelecer as funções vitais comprometidas.
Operação mobilizou equipe especializada e transporte aéreo
A realização do procedimento exigiu planejamento logístico e integração entre diferentes instituições de saúde. Considerando as características clínicas do receptor e a compatibilidade dos órgãos doados, a equipe médica da Santa Casa contou com apoio da Casa Militar para o deslocamento aéreo até Jequié.
A missão envolveu três cirurgiões e uma enfermeira, que viajaram de aeronave para realizar a avaliação dos órgãos doados e efetuar a captação. Após a análise técnica, fígado e rins foram considerados viáveis para transplante.
O transporte rápido dos órgãos foi fundamental para garantir a preservação adequada dos tecidos e permitir a realização do procedimento dentro dos protocolos exigidos para transplantes de alta complexidade.
Cirurgias duraram mais de seis horas e envolveram equipe multidisciplinar
O transplante hepático foi realizado em aproximadamente quatro horas de cirurgia, enquanto o transplante renal teve duração de cerca de duas horas e meia. Ao término do procedimento, o paciente foi encaminhado para recuperação já acordado e respirando espontaneamente.
Participaram da operação cinco cirurgiões, um anestesista, dois instrumentadores cirúrgicos e dois enfermeiros, além de outros profissionais envolvidos nas etapas de captação, transporte e suporte hospitalar.
A atuação integrada das equipes permitiu a execução do transplante duplo, considerado um dos procedimentos mais complexos da medicina transplantadora devido à necessidade de sincronização entre múltiplas especialidades e ao estado clínico dos pacientes receptores.
Procedimento reforça estratégia de interiorização dos transplantes
O cirurgião-geral e chefe do Serviço de Transplante Papa São João Paulo II, Luiz Fernando Veloso, destacou que o procedimento representa um avanço para a assistência especializada oferecida fora da capital baiana.
Segundo ele, a realização do transplante duplo demonstra a capacidade técnica instalada no interior do estado e amplia as possibilidades de atendimento para pacientes que necessitam de procedimentos de alta complexidade.
“Uma pessoa teve sua vida recomeçada de um modo extraordinário, de um modo impensável para nossa cidade há pouco tempo. Com os transplantes dos dois órgãos, a vida deste paciente tende a retornar ao estado normal, restabelecendo a sua vida tanto em quantidade quanto em qualidade”, afirmou.
O coordenador estadual do Sistema de Transplantes da Bahia, Eraldo Moura, ressaltou que a iniciativa está alinhada ao processo de interiorização dos transplantes, estratégia que busca aproximar os serviços especializados dos pacientes e reduzir deslocamentos para centros localizados na capital.
“Há um empenho da Secretaria de Saúde do Estado em interiorizar os transplantes, ou seja, transplantar os pacientes próximo de suas casas. Esse é um projeto que, devido à extensão territorial da Bahia, vem se consolidando cada vez mais”, declarou.
Bahia registra mais de 2,2 mil pessoas na fila por transplante de rim
Dados do Sistema Estadual de Transplantes apontam que atualmente a Bahia possui 2.267 pessoas aguardando transplante de rim e outras 71 à espera de um transplante de fígado.
Apesar dos avanços registrados na rede transplantadora, o estado ainda enfrenta desafios relacionados à autorização para doação de órgãos. Segundo o coordenador estadual, a taxa de negativa familiar na Bahia chega a 68%, índice superior à média nacional, estimada em cerca de 45%.
O cenário reforça a necessidade de ampliação das campanhas de conscientização sobre doação de órgãos. Conforme destacou Eraldo Moura, a manifestação prévia do desejo de doar junto aos familiares é fundamental para aumentar as possibilidades de transplante e reduzir o tempo de espera de pacientes que dependem do procedimento para sobreviver.
“Que essa seja uma oportunidade de mais pessoas entenderem que a doação vem da sociedade. Por isso, é muito importante informar para a família se houver desejo de doar, porque a decisão final é dela”, frisou.


Deixe um comentário