O crescimento de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ocorre em meio a um cenário de desaceleração econômica que tem afetado pequenos negócios em diferentes regiões do país. Entre os setores mais sensíveis ao esfriamento do consumo estão os empreendimentos afrocentrados, muitos deles localizados em territórios periféricos e com menor acesso a crédito e financiamento.
Dados econômicos indicam que o consumo das famílias recuou de 5,1% em 2024 para 1,3% em 2025, movimento associado ao impacto de juros elevados e à tentativa de controle da inflação. Esse cenário tem ampliado desafios estruturais enfrentados por empreendedores, principalmente aqueles que dependem diretamente da renda gerada em pequenos negócios.
De acordo com a fundadora da startup Afrocentrados Conceito, Cynthia Paixão, a desaceleração econômica tende a afetar primeiro empreendimentos que operam com menor capital de giro ou com acesso restrito ao sistema financeiro formal.
Impactos da desaceleração econômica em comunidades afroempreendedoras
Segundo Cynthia Paixão, a retração no consumo das famílias atinge diretamente negócios liderados por mulheres negras e empreendedores das periferias. Em muitos casos, esses empreendimentos representam a principal fonte de renda familiar.
A empreendedora explica que a análise do impacto econômico precisa considerar as desigualdades históricas de acesso a crédito e capital. Em comunidades periféricas, pequenas empresas frequentemente operam com menor margem financeira e maior exposição à informalidade, o que aumenta a vulnerabilidade em momentos de desaceleração econômica.
“Quando analisamos as consequências dessa redução no consumo, é preciso considerar quem historicamente opera com menor acesso a crédito, menor capital de giro e maior exposição à informalidade. Nas periferias, especialmente entre mulheres negras, o negócio muitas vezes sustenta uma família inteira”, afirma Cynthia.
Barreiras estruturais e acesso ao mercado
Além da redução do consumo, empreendedores afrocentrados enfrentam obstáculos relacionados ao financiamento e à inserção em mercados formais. A combinação entre juros elevados, dificuldade de acesso a crédito produtivo e custos de produção em pequena escala pode limitar a capacidade de expansão desses negócios.
Cynthia Paixão destaca que empreendedoras negras frequentemente iniciam atividades comerciais com menos recursos financeiros e menor acesso a redes institucionais de apoio. Isso inclui desafios para ocupar espaços comerciais consolidados ou ampliar a distribuição de produtos e serviços.
Segundo a gestora, em períodos de desaceleração econômica essas limitações tornam-se mais evidentes, afetando uma rede de empreendedores que atua em diferentes setores da economia criativa e do comércio local.
Economia criativa como alternativa de geração de renda
Mesmo diante do cenário econômico, a economia criativa tem se consolidado como alternativa para geração de renda em territórios periféricos. Dados da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) indicam que o setor representa cerca de 3% do PIB brasileiro, reunindo atividades ligadas à cultura, design, moda, gastronomia e produção artística.
Em Salvador, iniciativas como a startup Afrocentrados Conceito atuam na estruturação de marcas afrocentradas, oferecendo suporte para organização comercial, planejamento de coleções e fortalecimento de identidade de marca.
Segundo Cynthia, áreas como moda afro, cosméticos naturais, gastronomia de matriz africana e design identitário têm ampliado sua presença no mercado por meio de estratégias que combinam criatividade, planejamento e posicionamento digital.
Profissionalização e estruturação de negócios
A profissionalização é apontada como um dos fatores centrais para a sustentabilidade dos empreendimentos. De acordo com Cynthia Paixão, a organização financeira e estratégica permite que pequenos negócios deixem de depender exclusivamente de vendas ocasionais.
Entre as medidas adotadas por empreendedores estão precificação com margem definida, planejamento de produção, calendário comercial e presença digital estruturada. Essas práticas contribuem para ampliar previsibilidade financeira e consolidar a presença das marcas no mercado.
Na capital baiana, iniciativas de capacitação e estruturação empresarial têm contribuído para a formalização de empreendimentos que antes operavam de forma informal, permitindo a criação de novos postos de trabalho e circulação de renda dentro das comunidades.
Empreendedorismo feminino e transformação econômica
O fortalecimento do empreendedorismo entre mulheres negras tem sido apontado como um dos fatores de transformação econômica em territórios periféricos. Muitas empreendedoras que iniciaram atividades comerciais em feiras, vendas diretas ou redes sociais passaram a operar com registro empresarial, planejamento anual e metas de expansão.
Esse processo envolve mudanças na gestão do negócio, incluindo controle de estoque, planejamento financeiro e desenvolvimento de identidade de marca. A adoção dessas estratégias amplia as possibilidades de inserção no mercado e contribui para a sustentabilidade econômica dos empreendimentos.
Para Cynthia Paixão, a organização coletiva e o fortalecimento da identidade cultural têm sido elementos centrais para ampliar a presença de negócios afrocentrados em diferentes segmentos da economia.


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