Uma mostra dedicada ao cinema queer em Super-8 produzido na Paraíba entre o final dos anos 1970 e o início da década de 1980 integra a programação do Panorama Internacional Coisa de Cinema. A seleção apresenta cinco curtas-metragem realizados entre 1981 e 1983, obras que abordam sexualidade, identidade e repressão social durante o período da Ditadura Militar no Brasil (1964–1985).
Os filmes foram produzidos por cineastas e artistas ligados à Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e ao coletivo ativista Nós Também, grupo que utilizou o audiovisual como forma de expressão política e cultural. A iniciativa reuniu produções experimentais que dialogavam com debates sobre diversidade sexual em um contexto marcado por censura e conservadorismo.
A mostra será exibida em duas sessões programadas para 26 de março, às 17h50, e 30 de março, às 16h50, dentro da programação do festival, que ocorre em Salvador e reúne produções nacionais e internacionais.
Movimento cinematográfico utilizou Super-8 para abordar sexualidade e repressão
A produção desses curtas surgiu em um período em que equipamentos e métodos associados ao Cinema Direto chegaram à Paraíba, ampliando possibilidades de realização audiovisual fora dos grandes centros de produção cinematográfica do país.
Nesse contexto, cineastas experimentaram o formato Super-8 como ferramenta de expressão artística e política, abordando temas ligados à sexualidade, identidade e resistência cultural. As produções se destacaram por misturar documentário, encenação e linguagem experimental.
As obras que compõem a mostra refletem debates sociais presentes na época, utilizando o audiovisual para discutir experiências pessoais e coletivas relacionadas à diversidade sexual.
“Closes” e “Baltazar da lomba” abordam identidade e memória histórica
Entre os títulos selecionados está “Closes” (1982), dirigido por Pedro Nunes. O curta combina depoimentos e encenações para discutir a homossexualidade no Brasil, estabelecendo diálogo entre relatos individuais e a narrativa de um casal masculino.
Outro filme da seleção é “Baltazar da lomba” (1982), realizado coletivamente pelo grupo Nós Também. A obra reencena o primeiro caso registrado de repressão à homossexualidade na Paraíba colonial, denunciado à Inquisição.
No curta, o episódio histórico é transformado em narrativa audiovisual que contrapõe desejo, expressão corporal e perseguição moral, conectando memória histórica e debate contemporâneo.
Curtas exploram carnaval, religiosidade e experiências de artistas LGBTQIA+
Também integra a mostra “Era vermelho seu batom” (1983), dirigido por Henrique Magalhães. O filme acompanha o encontro de dois homens durante o carnaval, em meio a um bloco de travestis, explorando relações afetivas e interações sociais no contexto da festa popular.
Já “Miserere nobis” (1983), de Lauro Nascimento, apresenta uma releitura homoerótica da Santa Ceia, reconstruindo a cena bíblica com elementos simbólicos e fragmentos que mesclam representação e realidade.
O documentário “Perequeté” (1981), dirigido por Bertrand Lira, completa a seleção. O curta acompanha o cotidiano do ator e dançarino paraibano Francisco Marto, reunindo depoimentos e registros de apresentações e abordando o preconceito enfrentado por artistas gays no ambiente cultural da época.
Festival reúne produções nacionais e recebe apoio institucional
O XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema conta com patrocínio do Instituto Flávia Abubakir e apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia, por meio do Fundo de Cultura, da Secretaria da Fazenda da Bahia e da Secretaria de Cultura da Bahia.
A realização também recebe apoio institucional da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb) e da Diretoria de Audiovisual da Funceb (Dimas), órgãos ligados à política cultural do estado.
A inclusão da mostra dedicada ao cinema queer paraibano amplia a programação do festival ao destacar produções históricas realizadas fora dos principais polos cinematográficos do país e recuperar obras pouco conhecidas do público.


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