A equoterapia aplicada na rede pública de ensino de Cícero Dantas, no semiárido da Bahia, apresentou impactos positivos no processo de aprendizagem de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), segundo estudo publicado na Revista Criar Educação. A pesquisa analisou a experiência pedagógica desenvolvida no Centro de Equitação e Equoterapia Cicerodantense, mantido pelo poder público municipal, e registrou redução de ansiedade, melhora da concentração e evolução no desenvolvimento cognitivo e social.
O trabalho foi conduzido pelo pesquisador Felipe Carvalho Castro, com participação do professor José Claudio Del Pino, da Universidade do Vale do Taquari – Univates, na área de Ensino. A investigação se baseou em observação direta das atividades, análise documental e acompanhamento das práticas realizadas com estudantes atendidos pelo programa.
Localizado a cerca de 320 quilômetros de Salvador, o município de Cícero Dantas implantou a equoterapia como estratégia pedagógica complementar ao atendimento educacional especializado.
Método terapêutico e fundamentos históricos
A pesquisa contextualiza a equoterapia como método terapêutico e educacional interdisciplinar que utiliza o cavalo para estimular funções motoras, cognitivas, emocionais e sociais. O artigo aponta que práticas semelhantes já eram mencionadas desde a Antiguidade por médicos como Hipócrates e Galeno, que associavam a equitação a benefícios físicos.
No Brasil, a prática recebeu reconhecimento institucional em 1997, quando o Conselho Federal de Medicina passou a considerá-la método terapêutico. Desde então, centros especializados foram incorporados a políticas de reabilitação e inclusão em diferentes regiões do país.
O estudo destaca que o movimento tridimensional do cavalo funciona como agente cinesioterapêutico, promovendo estímulos sensoriais contínuos que favorecem equilíbrio, coordenação motora e percepção corporal.
Estrutura do atendimento no município
Em Cícero Dantas, a implantação do serviço ocorreu após debates entre gestores e profissionais da educação sobre estratégias de inclusão escolar para estudantes com TEA. A iniciativa conta com apoio do Centro de Atendimento Educacional Especializado Carmelita Joana dos Santos Menezes, responsável pelo acompanhamento das ações pedagógicas.
Cada estudante passa por avaliação diagnóstica individual, que identifica necessidades específicas e orienta o plano de intervenção. A equipe multidisciplinar é composta por profissionais das áreas de educação, fisioterapia, psicologia, fonoaudiologia e equitação.
As sessões incluem atividades de aproximação com o animal, cuidados básicos, montaria assistida e exercícios pedagógicos integrados, com registros sistemáticos de desempenho por meio de relatórios, imagens e fichas de acompanhamento.
Resultados observados no aprendizado
Segundo os autores, a equoterapia contribuiu para redução de ansiedade, ampliação do foco atencional e maior participação nas atividades escolares. O ambiente externo ao modelo tradicional de sala de aula favoreceu a interação social e a construção de vínculos.
Foram observados avanços no equilíbrio postural, coordenação motora, comunicação, memória e raciocínio lógico, além de ganhos na autonomia dos estudantes. A prática também estimulou habilidades socioemocionais, como confiança e enfrentamento de medos.
O estudo ressalta que o aprendizado ocorre por múltiplas interações — entre aluno, cavalo, profissionais, colegas e ambiente — ampliando as possibilidades pedagógicas.
Educação inclusiva e políticas públicas
A pesquisa argumenta que espaços educativos não formais podem complementar o ensino regular, especialmente no atendimento a estudantes com necessidades específicas. A integração entre ações terapêuticas e pedagógicas é apontada como estratégia de inclusão.
O Centro de Equoterapia municipal passou a funcionar como extensão do sistema educacional, oferecendo suporte especializado e acompanhamento contínuo. O modelo busca articular ensino, saúde e assistência social.
Nas conclusões, os autores indicam que a experiência local demonstra viabilidade de replicação em outras redes públicas, desde que haja formação profissional e planejamento técnico.


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