Neurocirurgião alerta para uso cauteloso de analgésicos e defende abordagem individualizada no tratamento da dor

A prescrição de analgésicos no manejo da dor deve ser criteriosa e baseada na causa, duração e perfil clínico de cada paciente, segundo orientação de especialista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Embora medicamentos sejam amplamente utilizados, nem toda dor exige tratamento farmacológico imediato, e alternativas terapêuticas podem ser adotadas conforme o quadro apresentado.

A dor, aguda ou crônica, permanece entre as queixas mais frequentes na prática clínica. O acesso facilitado a analgésicos e a busca por alívio rápido contribuem para que a medicação seja frequentemente escolhida como primeira linha de cuidado. No entanto, diretrizes internacionais indicam que o manejo adequado deve começar pela identificação do mecanismo fisiopatológico predominante e pela avaliação do impacto funcional.

Desde a atualização conceitual promovida pela International Association for the Study of Pain (IASP), em 2020, a dor passou a ser definida como experiência sensorial e emocional associada a dano tecidual real ou potencial, o que consolidou a classificação em dor nociceptiva, neuropática e nociplástica, orientando escolhas terapêuticas mais precisas.

Avaliação clínica e abordagem multidisciplinar

O objetivo do tratamento vai além da redução da intensidade da dor. A estratégia prioriza restabelecer funcionalidade, sono, mobilidade, humor, capacidade laboral e convívio social. Para o neurocirurgião funcional Marcelo Valadares, pesquisador da disciplina de Neurocirurgia da Unicamp, o uso de medicamentos deve ser complementar e temporário.

Segundo o especialista, a conduta inclui reabilitação física, condicionamento funcional e, quando necessário, suporte psicológico, compondo plano individualizado. A avaliação médica também considera histórico terapêutico, uso de outras medicações, consumo de álcool, presença de transtornos mentais, idade e comorbidades clínicas.

Essa análise detalhada aumenta a probabilidade de benefício e reduz riscos de uso prolongado ou desnecessário de analgésicos, especialmente em casos de dor crônica, nos quais a resposta ao tratamento pode variar significativamente.

Uso racional de medicamentos e riscos associados

A escolha terapêutica depende do tipo de dor. Para quadros leves a moderados, paracetamol e dipirona são opções frequentes; já os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) são indicados quando há componente inflamatório. Em dores neuropáticas ou nociplásticas, podem ser utilizados antidepressivos com ação analgésica e gabapentinoides, que atuam na modulação do sistema nervoso central.

Os opioides, como codeína, tramadol, morfina e oxicodona, são reservados a situações específicas, como dor aguda intensa ou dor oncológica, exigindo metas funcionais definidas, monitoramento contínuo e planejamento de descontinuidade. Dados do Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (Obid) indicam aumento do consumo desses fármacos no país entre 2012 e 2023, o que reforça a necessidade de prescrição responsável.

O acompanhamento periódico deve incluir reavaliação de eficácia, ajuste de dose e identificação de efeitos adversos, além de vigilância para sinais de uso inadequado, como solicitações frequentes de renovação antecipada, aumento injustificado de dose, automedicação ou associação com álcool.

Orientação médica e prevenção da automedicação

O especialista destaca que o uso indiscriminado de analgésicos pode gerar dependência, tolerância e prejuízos clínicos, comprometendo o resultado terapêutico. A automedicação e o compartilhamento de remédios também elevam riscos, especialmente em tratamentos prolongados.

Por isso, a recomendação é que o paciente busque avaliação profissional antes de iniciar ou modificar qualquer medicação para dor. O acompanhamento clínico contínuo permite ajustes seguros e definição de estratégias integradas, combinando fármacos e intervenções não farmacológicas.

A orientação reforça que o manejo da dor exige raciocínio clínico estruturado, metas realistas e monitoramento constante, priorizando qualidade de vida e funcionalidade, e não apenas a eliminação imediata do sintoma.


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