Exposição na Aliança Francesa apresenta obras de Emma Valle pertencentes à coleção de Dimitri Ganzelevitch

A sede da Aliança Francesa de Salvador, localizada no bairro da Barra, realiza, das 19h às 21h, a abertura da exposição “Emma Valle na coleção de Dimitri Ganzelevitch”, com curadoria do próprio colecionador. A mostra reúne aproximadamente 40 obras da artista baiana Emma Valle, entre pinturas, objetos e suportes diversos, produzidos ao longo de décadas de atividade à margem dos espaços tradicionais do campo artístico.

A exposição destaca a diversidade formal e temática da obra de Emma Valle, que utilizava suportes como óleos sobre tela, gamelas entalhadas, talhas, azulejos e peças domésticas reaproveitadas, convertendo objetos cotidianos em superfícies narrativas. O evento é acompanhado por um coquetel e uma mesa de debate com a participação do professor Luiz Freire, da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e do colecionador Dimitri Ganzelevitch, responsável pela guarda e organização da coleção.

Emma Valle nasceu e morreu em Salvador. Viveu e produziu de forma autônoma, sem inserção direta nos circuitos institucionais. Sua residência e pensão localizada na Ladeira de Santa Teresa, conhecida como Cartola Internacional, funcionou simultaneamente como espaço de moradia, criação e exibição de suas obras. Esse ambiente, híbrido entre cotidiano e imaginação, foi o ponto de partida para uma produção marcada por figuras de orixás, barcos, santos, igrejas, fiações elétricas, personagens urbanos e animais fantásticos.

A artista costumava atribuir longos títulos explicativos, datas e inscrições às suas obras, o que conferia um caráter documental e performático ao seu processo criativo. Essa estratégia discursiva reafirma o valor narrativo e simbólico de cada peça. Entre suas declarações mais conhecidas está a frase: “Meus quadros duram séculos, como os de Miguel Ângelo”, reafirmando a crença na permanência de sua produção, mesmo em suportes considerados frágeis.

A mostra propõe uma reavaliação crítica do lugar de Emma Valle no campo da arte brasileira, sobretudo em relação à categorização da chamada Arte Fora das Normas, termo que busca descrever artistas cuja formação e trajetória ocorrem à margem de academias, escolas ou mercados convencionais. Sua obra dialoga com definições como as de Art Brut, cunhadas por Jean Dubuffet, e com os referenciais simbólicos do inconsciente pictórico, aproximando-se de experiências como as desenvolvidas por Nise da Silveira no campo da saúde mental e da expressão artística.

Reinaldo Eckenberger, artista argentino radicado na Bahia, foi figura importante no início da trajetória artística de Emma. O convívio entre os dois no Cartola Internacional não resultou em parcerias formais, mas foi decisivo para o estímulo de práticas visuais que romperam com fronteiras entre arte e vida. A convivência dos dois artistas evidenciou a emergência de uma cena criativa periférica, baseada em experiências sensoriais e autônomas.

A exposição destaca a atualidade da obra de Emma Valle e a importância de seu resgate museológico e crítico. Vinte e cinco anos após seu falecimento, seu acervo volta a ser discutido em um momento de expansão dos critérios de legitimação no circuito artístico brasileiro, com crescente atenção a produções oriundas de contextos não institucionais.


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