O Teatro Martim Gonçalves, na Universidade Federal da Bahia (UFBA), será o cenário da estreia do espetáculo Charlie, que terá sua primeira apresentação no Brasil de quinta-feira (05/12/2024) a domingo (15/12), às 19h. Dirigida por Gilberto Reys, a peça faz parte da conclusão de seu curso de Direção Teatral na Escola de Teatro da UFBA e é uma adaptação de uma das mais emblemáticas obras do dramaturgo polonês Sławomir Mrożek. A montagem integra comédia, absurdo e crítica social, trazendo à tona questões sobre a violência e o comportamento humano.
A peça Charlie, que faz parte do movimento do Teatro do Absurdo, narra a história de um oculista, interpretado por Felipe Viguini, que é abordado por um avô (Franklin Albuquerque) e seu neto (Guti Nery). A dupla pede um par de óculos com um objetivo peculiar: localizar e matar uma figura chamada Charlie. A trama, que inicialmente parece um jogo de situações insólitas, rapidamente se transforma em uma reflexão sobre os limites da violência e da humanidade, desafiando a percepção de normalidade e moralidade.
De acordo com o diretor, a escolha por Charlie para sua formatura é um reflexo do desejo de apresentar uma obra que combina contrastes emocionais e provoca questionamentos sobre o comportamento humano. “A peça é uma montanha-russa de emoções. Ela faz o público sair inquieto, sem saber se deve rir ou chorar”, explica Reys. Segundo ele, o trabalho com o elenco permitiu criar um universo que ao mesmo tempo é hilariante e perturbador, refletindo como o mal pode ser banalizado e como a normalidade pode ser assustadora.
O espetáculo traz uma encenação que equilibra o cômico e o lúgubre, com uma estética que remete ao cinema mudo, um recurso visual que confere uma tensão adicional à narrativa. A violência no palco, ao mesmo tempo sombria e cômica, cria uma atmosfera única, permitindo que o público reflita sobre a banalização da violência na sociedade contemporânea e sobre os limites da empatia humana. A cenografia e o uso de recursos visuais têm a intenção de amplificar essa reflexão, apresentando um espaço onde a lógica dos acontecimentos é constantemente desafiada.
Gilberto Reys, diretor da montagem, tem se destacado no cenário teatral baiano desde 2011, com uma trajetória que inclui tanto direção quanto atuação. Formado pela Universidade Livre do Teatro Vila Velha e atualmente concluindo seus estudos na UFBA, Reys já assinou a direção de espetáculos como Auto de Cangaço e Amor em Angicos (2022), A Exceção e a Regra (2023) e Fala Comigo Como a Chuva e Me Deixa Ouvir (2024), além de atuar em importantes montagens como A Visita da Velha Senhora (2024) e Jango (2024). Charlie representa um novo marco em sua carreira, consolidando seu trabalho como diretor e seu vínculo com a Escola de Teatro da UFBA.
O elenco de Charlie conta com Guti Nery, que interpreta o neto, Franklin Albuquerque no papel do avô, e Felipe Viguini como o oculista. Todos trazem para os seus personagens uma carga emocional e interpretativa que visa envolver o público de forma intensa e disruptiva. Guti Nery, também diretor e professor de teatro, tem se destacado em iniciativas culturais e educativas, além de seu trabalho no coletivo Cia Sexta-feira de Teatro, fundado por ele em 2020. Franklin Albuquerque, um veterano da cena teatral, traz uma vasta experiência, tendo trabalhado com grandes nomes do teatro brasileiro, como José Celso Martinez Corrêa e Márcio Meirelles. Felipe Viguini, formado pela UFBA, também tem um currículo significativo, com participações em espetáculos importantes da cena teatral baiana.
A obra Charlie é de autoria de Sławomir Mrożek, um dos principais nomes do Teatro do Absurdo, conhecido por sua habilidade em usar o humor ácido e o absurdo como forma de crítica social. Mrożek foi um dos dramaturgos mais influentes do século XX, cujas obras desafiam as convenções da realidade e exploram as contradições da condição humana. Em Charlie, Mrożek se aprofunda em temas como o totalitarismo e a alienação, questionando o papel do indivíduo na sociedade e suas reações perante o medo e o poder. No Brasil, suas peças já foram apresentadas em montagens de grande destaque, e a inclusão de Charlie neste repertório amplia ainda mais a sua presença no cenário teatral nacional.
A frase central da peça – “Você é alfabetizado e daí? Nós temos medo de você? Não, você que tem medo de nós” – sintetiza o clima de tensão e provocações que permeiam toda a narrativa, deixando o público em constante reflexão sobre as relações de poder, medo e controle na sociedade.


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