Exposição “Dona Fulô e Outras Joias Negras” em Salvador celebra a história e o empoderamento de mulheres negras

A inauguração da exposição “Dona Fulô e Outras Joias Negras” no Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Salvador, marcou o início de uma importante reflexão sobre o papel das mulheres negras na construção da história do Brasil. Com curadoria de Carol Barreto, Eneida Sanches e Marília Panitz, a mostra tem como ponto de partida a figura de Dona Fulô, mulher alforriada que, no século XIX, se tornou símbolo da resistência e da luta pela liberdade. Por meio de joias, fotografias, pinturas e colagens, a exposição propõe uma imersão na “economia da liberdade”, um conceito que revela como as mulheres negras usaram o artesanato, principalmente a confecção de joias, como uma forma de resistência política e social.

O evento, promovido pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), está atraindo grande público, sendo considerado um sucesso tanto pela crítica quanto pelos visitantes. Durante a coletiva de imprensa realizada no dia 6 de novembro, as curadoras enfatizaram a relevância histórica e política da exposição, que tem Salvador como seu ponto de partida. Carol Barreto ressaltou a importância da cidade como um centro de resistência cultural negra, mencionando que a exposição não é apenas um evento artístico, mas sim um projeto político que busca, segundo suas palavras, “redesenhar uma história feita a muitas mãos”. A curadora convidou o público a vivenciar a experiência da exposição com um olhar aberto, distante da “deseducação colonial”, para se conectar com uma narrativa que ainda é pouco conhecida.

A figura de Dona Fulô, que inspirou a exposição, é retratada como uma mulher que usava sua habilidade de criar joias para resistir à opressão e conquistar sua liberdade, bem como a de sua família. A curadora Eneida Sanches explica que essas mulheres alforriadas, ao formarem pequenas economias, eram capazes de comprar sua liberdade e a de outros, utilizando as joias como símbolo de sua autonomia e poder. “Dona Fulô representava, no século XIX, um ativismo da beleza e da abundância. Ela e outras mulheres criavam suas joias como símbolo de liberdade. Essa exposição fala sobre o corpo e a estética como ferramentas de poder e resistência”, afirmou Eneida.

Marília Panitz, por sua vez, destacou que a exposição vai além da simples exibição de adornos. Para ela, as peças não são apenas ornamentos, mas sim um meio de protesto contra a escravidão e o racismo, refletindo a luta de mulheres que desafiaram o status quo colonial. “Essas joias marcam a resistência de mulheres negras que desafiaram um sistema opressor, criando uma ‘economia da liberdade’ que influenciou toda a sociedade baiana. Hoje, 22 artistas negros expõem suas interpretações contemporâneas, expandindo essa narrativa histórica”, explicou Marília.

A mostra inclui uma coleção rara de “Joias de Crioula”, um conjunto de peças utilizadas por mulheres negras alforriadas no século XIX, adquirida pelo colecionador baiano Itamar Musse. Essa coleção serve como um ponto de partida para um aprofundamento na história das mulheres negras no Brasil. Além disso, a exposição é acompanhada pelo lançamento do livro “Florindas”, que explora ainda mais as histórias e os significados dessas joias e dos contextos históricos em que foram produzidas. A exposição ficará aberta ao público até 16 de fevereiro de 2025 e oferece uma programação diversificada, com debates, palestras e visitas guiadas, criando um ambiente de troca e aprendizado sobre a história, o legado e a resistência das mulheres negras no Brasil.


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