O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, anunciado em 2019, ainda enfrenta alguns obstáculos para entrar em vigor, mas pode representar uma oportunidade para a indústria brasileira se recuperar e se integrar ao mercado europeu. Essa é a opinião de Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior, que participou de uma entrevista exclusiva para o nosso portal.
Segundo ele, o acordo pode favorecer a especialização produtiva e a complementaridade entre as cadeias industriais dos dois blocos econômicos. “O mercado europeu é um mercado premium, é um mercado que pode dar um acesso muito grande não só para as exportações agrícolas, mas também para as exportações industriais do Mercosul”, afirma.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que, em 2022, quase metade das exportações brasileiras para a União Europeia foram de bens industriais, totalizando US$ 50,9 bilhões. Com o acordo, cerca de 2.800 produtos industriais brasileiros teriam as tarifas de importação reduzidas ou eliminadas pelos países europeus, de acordo com um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Para o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), membro da Comissão de Relações Exteriores do Senado, o acordo é uma boa oportunidade de a indústria brasileira ganhar espaço, mas ele reconhece que o agronegócio continuará sendo a principal fonte de receitas do país. “Avançar na questão da industrialização — a própria reforma tributária que está em tramitação vai nesse sentido — é importante, mas o Brasil, provavelmente por longos anos, vai permanecer preso à essa sua vocação natural de grande fornecedor de commodities”, diz.
No entanto, o acordo ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos dos países envolvidos, o que pode demorar mais do que o previsto. Um dos entraves é a questão ambiental, que tem gerado críticas dos europeus ao Brasil e aos demais membros do Mercosul por conta do aumento do desmatamento. Outro ponto de discordância é a possibilidade de empresas europeias participarem das licitações públicas brasileiras, o que pode gerar uma concorrência desleal com as empresas nacionais.
Barral defende que o acordo seja concluído o quanto antes, pois ele pode trazer benefícios não só econômicos, mas também políticos e sociais.
“O acordo é muito mais do que um acordo comercial. É um acordo que envolve cooperação em várias áreas, como ciência e tecnologia, educação, cultura, direitos humanos. É um acordo que pode aproximar os dois blocos e fortalecer os valores democráticos”, conclui.


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